Líder após tragédia, Angélica Ponciano quer representar as comunidades

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional” e a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina são personagens recentes. O novo presidente americano foi vice de Barack Obama, o que certamente pesou na vitória em 2020. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi herdou a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por figuras que chegaram ao poder pela função. Jango assumiu o governo, começou a implantar reformas e sofreu o golpe. Itamar criou o Plano Real. E a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que a população mal pode conhecer os candidatos titulares. Bom, até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

No dia 9 de fevereiro de 1995, Joinville viveu sua maior catástrofe natural. A barragem do rio Cubatão não suportou o volume de água acumulado por uma chuva quase ininterrupta desde o início de janeiro – dos 31 dias de janeiro, 27 foram de água caindo do céu, que continuou caindo em fevereiro. Quando a barragem se rompeu, a água invadiu bairros inteiros da cidade. O mais atingido foi o Jardim Sofia, onde Angélica Ponciano morava há menos de um ano. Ela viu a água subir sob os pés e chegar a 2,10 metros de altura. Sua casa, que tinha laje, serviu de abrigo para os vizinhos e a nossa perfilada foi uma das últimas a ser resgatada. A marcante tragédia, que ainda faz a candidata a vice na chapa de Ivandro de Souza (Podemos) se emocionar ao contar, colocou a professora que havia chegado há poucos anos em Joinville na política, primeiro como liderança popular de uma sociedade que tinha perdido na enchente e depois como assessora de importantes nomes da política local. E, agora, como candidata, levando um lado mais popular à candidatura do empresário que tenta sua primeira eleição.

A candidata é uma mulher negra, a única entre os 30 candidatos. Há outras seis candidatas mulheres na disputa à prefeitura, sendo duas como cabeça de suas chapas. Há um homem negro entre os vices e outro pardo. A campanha chegou a brincar que Angélica e Ivandro eram a “Kamala Harris e o Joe Biden joinvilenses”. No primeiro momento, achei a ideia meio ruim, mas depois pensei que seria uma boa linha para o marketing eleitoral. Seria uma imagem forte, mas que não foi levada a cabo. O próprio Ivandro, que buscou se colocar como uma opção mais ao centro no começo do processo eleitoral, estava correndo atrás de uma foto com Jair Bolsonaro nas últimas semanas.

Pensando sobre a linha política da coligação Aliança por Joinville, dias depois da conversa com a candidata, refleti que há algo relevante a se discutir a partir da história de Angélica. Como o leitor e a leitora vão ver à frente, a vice de Ivandro tem a história ligada ao assistencialismo, algo sempre muito criticado no meio político com o qual me envolvi, à esquerda, e em muitos outros. “É só para ganhar voto”. “é despolitizante”, muitos dizem. A própria direita costuma falar mal das políticas assistenciais dos governos de esquerda. Eu, que sou um desconfiado de todas as explicações simples, vi na conversa com Angélica a oportunidade de entender melhor as motivações e as dinâmicas de quem atua nestes setores. Se saí convencido, não vou dizer. No entanto, encontrei mais uma evidência de uma impressão antiga: quase sempre as pessoas estão tentando fazer o melhor, apenas com estratégias diferentes. Essa história é de como Angélica Ponciano está tentando fazer o melhor que pode.

A tragédia que mudou tudo

Filha de pais pernambucanos, Angélica Ponciano nasceu em São Paulo, em 1955. Cresceu em uma vila na zona norte da capital paulista, onde, segundo ela, aprendeu a conviver e a valorizar as diferenças das pessoas que habitavam a localidade. Estamos falando da São Paulo de meados do século 20, onde não faltavam diferenças étnicas, sociais e culturais. Metalúrgico, o pai de Angélica trabalhava em uma indústria que dava algumas bolsas de estudos para os filhos dos funcionários estudarem em uma escola particular. Ela passou no teste e ingressou na nova escola, que lhe mostrou novas perspectivas. Ao mesmo tempo, Angélica começou a trabalhar na mesma empresa que o pai, como telefonista. Ficou 16 anos no local, galgando funções. Quando saiu, atuava na área de compras, estava formada no magistério e casada.

Angélica participou de uma atividade com a comunidade surda nesta campanha

Foi uma oportunidade de trabalho para o marido que trouxe a família para Joinville, no início da década de 90. Logo que chegaram, alugaram uma casa no bairro Floresta e, quando se estabilizaram, começaram a procurar um terreno para comprar. Encontraram no bairro Jardim Sofia, perto do trabalho do marido e perto do colégio da Univille, onde eles queriam que as filhas estudassem. “O lugar ideal”. Devagarzinho construíram a casa e se mudaram, no início de 1994. Dali 11 meses, o bairro estaria embaixo da água.

“Por volta das 9 horas, e eu sei bem os horários porque isso é muito forte na minha vida, o Luiz me ligou e disse: ‘olha, tem um comentário aqui na empresa e parece que vai dar uma enchente na região, mas é coisa tranquila. Se tiver qualquer problema, vai ser no ralo do banheiro, aí você coloca um pano e quando eu chegar em casa a gente vê o que que faz’”, reproduziu a conversa de 25 anos atrás.

Assim que desligou o telefone, ela olhou pela janela e já não viu o pasto que ficava na frente da casa. Tentou ligar para o marido, mas já não havia mais linha. A vizinha apareceu gritando sobre a água que estava subindo. Quando Angélica abriu a porta, a água entrou. “Primeiro até o meu joelho, dali a pouco até a cintura, dali a pouco no pescoço”.

Grávida e com duas filhas pequenas, Angélica começou a receber os vizinhos na casa que, nova, era um pouquinho mais estruturada. “Muita gente ficou abrigada no sotão da minha casa”. Quando chegou o primeiro barco de resgate, primeiro foi levado um senhor doente, depois as crianças e todo o pessoal. Angélica, que ficou por último, viveu um momento muito difícil, quando entregou as filhas na mão de um estranho, um dos milhares de voluntários que atuou naquele momento difícil da cidade. Nesse momento, ela se emocionou a contar. Fingi que não, mas eu também quando ela contou do jipeiro que lhe disse: “Pode ficar tranquila que eu vou levá-las para um lugar seguro”. E registro meu agradecimento a esse benfeitor desconhecido.

Com uma na barriga, Angélica precisou confiar as duas filhas mais velhas a um jipeiro voluntário que trabalhava no resgate. Ele garantiu que daria tudo certo e cumpriu, como mostra a foto acima.

A enchente de 1995 matou três pessoas, feriu 15, deixou 15 mil desalojadas e 5,7 mil desabrigadas. Foram milhões de reais em prejuízos materiais e incalculáveis perdas imateriais. A comunidade do Jardim Sofia precisava se reestruturar e começou a se organizar. A partir de uma reunião em uma igreja, Angélica Ponciano começou a aparecer como liderança.

A comunidade queria ter certeza que poderia continuar no local sem o risco de uma tragédia como aquela acontecer novamente. Foram a São Paulo, a Brasília e participaram de inúmeras reuniões técnicas onde tiveram garantias de que não iria ocorrer novamente com as medidas. Naquele momento, em 1996, atuaram pela reconstrução da barragem e na conscientização da comunidade acerca da limpeza do rio.

“Naquele momento eu entendi que era muito importante prestigiar essa união de pessoas e avançar. Aí nós avançamos nos segmentos que não tínhamos na comunidade. Não tínhamos um CEI e fomos atrás de um CEI. Nós precisávamos de saneamento básico, calçamento, telefone público”, relembrou sobre o início da atuação política.

De líder comunitária a assessora parlamentar

A partir dessa atuação, Angélica Ponciano foi convidada para integrar o governo de Luiz Henrique da Silveira, na então Secretaria de Bem Estar Social. Depois disso atuou no Ippuj (pasta que cuidava do planejamento) e na área da educação, até que passou a ser assessora parlamentar do deputado estadual Nilson Gonçalves. Ela era assessora parlamentar a atuava na Casa Amarela, um espaço mantido pelo parlamentar que servia de base para a atuação social e política. Angélica atuou por 13 anos no local.

Para Angélica, não se tratava de doar coisas para as pessoas, embora eventualmente fosse necessário para as famílias que precisavam de doações. “Nossa grande meta sempre foi qualificar, aprimorar o conhecimento das pessoas, para que elas pudessem ter os próprios ganhos”, comentou a atual candidata.

Nilson não conseguiu se reeleger à assembleia estadual no pleito de 2014 e deu fim à Casa Amarela. Angélica foi convidada para fazer um programa de rádio, que falava bastante da política local. Após uma entrevista com o ex-prefeito e então deputado Marco Tebaldi, foi convidada para atuar como assessora parlamentar, permanecendo com ele até a morte, em 2019.

Quando começaram as movimentações no PSDB para a eleição atual, Angélica disse que não gostou do que viu e pediu para se desligar do partido. Ficou sem partido por pouco tempo, até ser convidada pelo DEM para integrar o projeto, no início de 2020.

Desigualdades

O leitor e a leitora desta série já sabem que o principal tema da série é a desigualdade – como as candidatos a entendem e como pretendem superá-la. Em cada entrevista, dou a oportunidade de falarem o que consideram ser o principal problema da cidade, mas, independentemente da resposta, eles precisam comentar o principal problema de verdade, que é a desigualdade social.

Angélica e Ivandro chegaram a se apresentar, em uma brincadeira, como a Kamala Harris e o Joe Biden joinvilenses

De modo geral, os candidatos respondem algo relacionado com a desigualdade. A falta de serviços aqui e ali, de oportunidades acolá e por aí vai. No caso de Angélica, foi parecido, mas destaco que ela mencionou a falta de “inclusão social”, que está valendo. Diante de sua história, de quem lidou com comunidades de baixa renda por boa parte da vida, acredito que a candidata sabe bem melhor do que eu o tamanho do problema.

“A maior dificuldade de Joinville hoje é a falta de oportunidade. Não tem oportunidade para o jovem, não em inclusão social, não tem geração de emprego e renda”, comentou, emendando uma série de exemplos relacionados à saúde, educação, emprego e outros temas.

Faço a ressalva que combater as desigualdades não está relacionada somente à falta de inclusão e à geração de oportunidades. Não aprofundei o tema com os candidatos, exceto com os comunistas, que abordam o assunto pela própria vontade. Acho que já é um desafio colocar o tema da desigualdade de maneira efetiva no debate e seria muita ousadia sugerir que a causa das desigualdades são justamente o excesso de privilégios de outros. Quem sabe em uma próxima.

Para mudar a realidade de Joinville, a candidata defende que é preciso de pessoas capazes e com sensibilidade para sentir os problemas da cidade. Ela acredita que abrir as escolas devem ser um ponto de apoio para essa transformação social. “Por que as escolas, que tem uma grande estrutura, estão fechadas no sábado e domingo? Não tem que estar fechada. Escola tem que estar abertas para as famílias, para os clubes de mães, para a terceira idade e principalmente para a criança e para o jovem”, exemplificou.

Em suma…

Um bom clichê tem tomado conta das redes sociais recentemente. É a recomendação de respeito, paciência e gentileza com as outras pessoas, pois ninguém sabe o que elas estão passando. Não precisaria ser um clichê se vivêssemos tempos melhores, diferente desses em que a civilidade e o bom senso se esvaem. Ah, mas cabe ressaltar que isso não pode ser confundido com o justo tratamento a sujeitos abjetos. É claro que um chefe de Estado genocida, por exemplo, não deve ter paz para tomar um caldo de cana de cana na rua.

Lembro desse clichê para encerrar esse texto porque é preciso respeitar cada pessoa com seus problemas, mas também podemos achar bonito quando alguém consegue transformar seus problemas em algo maior. Grávida e com duas crianças pequenas, Angélica Ponciano viu a casa encher de água na maior catástrofe do município e ajudou os vizinhos a sobreviver. Ali se tornou uma líder comunitária e, pela política, trabalhou para transformar a comunidade. Goste-se ou não da linha política, a história é bonita. Agora os eleitores vão decidir como querem que ela continue.