Sérgio Duprat é o conselheiro que quer promover participação popular

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional”, a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina depois da queda, por enquanto temporária, de um ex-bolsonarista. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi “herdou” a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por personagens que chegaram ao poder pela função. Jango sofreu o golpe, Itamar criou o Plano Real. Mas a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que mal se conhecem os candidatos titulares. Isso aconteceu até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos 15 vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Quem participou de audiências públicas em Joinville na última década, sobre qualquer tema, deve conhecer Sérgio Duprat. Com uma característica fala mansa que o diferencia dos oradores mais inflamados, geralmente em maioria nesses encontros públicos, ele quase sempre pede a palavra para opinar de um ponto de vista da comunidade. Eu, que participei de algumas audiências como militante e como repórter, me perguntava qual era a linha política daquele sujeito tão participativo. Era sempre crítico ao governo, ao mesmo tempo que não se alinhava à esquerda, o grupo que compunha as audiências que eu participava. Depois de uma hora e meia de conversa, entendi a linha Duprat, ainda meio impressionado por ele ser o candidato a vice de Nelson Coelho (Patriota), um dos candidatos mais bolsonaristas dessa eleição. Mas isso também faz bastante sentido, como será descrito a seguir.

Só percebi que já conhecia Sérgio Duprat no meio da entrevista. Esperava encontrar um bolsonarista mais roxo que Nelson Coelho, mas me deparei um sujeito de fala mansa, bom humor, com propostas sociais, meio cosmopolita e meio liberal, no sentido político e econômico. Estava positivamente surpreso e, de repente, tudo fez sentido. Sérgio Duprat é a representação da classe média (mais alta do que baixa) que aderiu ao bolsonarismo na esteira do lavajatismo e do antipetismo. Não é que ele goste de Jair, mas acredita que o “pitoresco” presidente era a melhor opção naquele momento.

“Vamos entender que ele não é a melhor coisa do mundo, mas é a melhor coisa que a gente tem agora. Essa é a minha visão. Você não cura câncer com aspirina, você precisa de quimioterapia, e ele foi essa quimioterapia […] Eu tenho conversado com as pessoas e pergunto: ‘com o que você sabe hoje, se pudesse voltar no tempo, com o quadro que se apresentava lá, em quem você votaria?’ No Bolsonaro”, explicou para um repórter que tentava disfarçar a incredulidade e que, entre um sapato velho e Bolsonaro, não pensaria duas vezes em votar no sapato.

Durante a explicação, mencionou a teoria do pêndulo, colocando Bolsonaro em um dos extremos e desejando que o pêndulo venha agora para o centro. “Eu tenho, sim, um viés de direita, com uma tendência para o centro”, comentou, emendando o argumento com a sua principal linha de raciocínio. Para Duprat, o que faz um bom governo é uma boa oposição e a participação do cidadão. O tema será detalhado mais à frente do texto.

Vale ressaltar que convite para Sérgio Duprat, considerando a postura narrada acima, também nos diz algo sobre Nelson Coelho. O atual vice-prefeito de Joinville foi escolhido por Udo Döhler, em 2016, como um aceno à direita, mas também pela sua simpatia. O comunicativo piloto do helicóptero Águia, da Polícia Militar, se tornou uma pessoa pública pelo próprio carisma, dando entrevista para rádio e para a TV, além de ser ativo nas redes sociais. É um sujeito de boa conversa, divertido, que entende o papel da imprensa e está presente na vida social joinvilense – diferente de tantos lunáticos “damaristas” que vemos por aí, surtados na teoria da conspiração. Foi estilo de Nelson Coelho, mais pé no chão e ligado à realidade local, que permitiu o convite a Sérgio Duprat, um participativo cidadão meio liberal e meio conservador, bolsonarista porque acredita que é o que tem.

Morador do bairro Glória e engajado nas atividades da comunidade, o candidato a vice insiste que quem entende do bairro é o cidadão

Da depressão ao voluntariado

Sérgio Duprat é carioca da Tijuca (famoso bairro do Rio de Janeiro). Nasceu em 1962 e viveu a maior parte da vida na capital fluminense. Formado em administração, tornou-se construtor ao acompanhar a reforma de um negócio que administrava. Em 1999, decidiu migrar para o sul com a família, e escolheram a Serra Gaúcha, mais precisamente em Caxias do Sul. Muito dedicado ao trabalho e com o convívio social restrito ao grupo de funcionários, foi acometido por uma depressão.

Diante da situação, decidiu com a família que se afastaria do trabalho. A esposa, funcionária pública e médica formada, “seguraria a onda”. Pouco tempo depois decidiram se mudar para o Canadá, um plano que foi substituído pela mudança para Joinville, que conheciam das paradas que faziam nas viagens entre Caxias do Sul e o Rio de Janeiro. Nessa época, provocado pelo psiquiatra, começou a atuar como voluntário. “A vida bem vivida é aquela em que a sua vida é relevante na vida de outra pessoa”, analisou.

A atuação como voluntário o levou aos conselhos municipais, como o observatório social, o conselho de segurança, de saúde, do idoso, o comitê da bacia do rio Cubatão, entre outros. “Eu participei de uns quinze conselhos”, contou.

Sérgio Duprat é um frequentador de audiências públicas na CVJ

É preciso registrar que o tempo para participar de tudo isso é um privilégio de quem não precisa mais trabalhar, já que a posição de classe média permitida pelo funcionalismo público o deixa com mais tempo livre para as atividades sociais. Sérgio brinca que há dez anos trabalha com transporte de valores. “Transporto os meus valores. Filha pra escola, mulher pro supermercado, cachorro pro veterinário…. Eu vivi um período riquíssimo, em que pude estar presente no crescimento de minhas duas filhas. Foi uma oportunidade incrível”, disse sorridente. Não consigo deixar de lembrar, neste momento, no quanto os militantes de esquerda são xingados pelos de direita, supostamente porque não trabalham, sendo que em minha vida toda não conheci militantes que não trabalhavam.

Duprat filiou-se ao Patriota no último dia do prazo final que lhe permitiria ser candidato. Ele havia comparecido ao ato de filiação de Nelson Coelho e agradou alguns membros da direção do partido pelas ideias de estímulo à participação popular que apresentou. A partir disso, começou a ser cobrado, de leve, e fazer algo que cobra dos outros. “Sérgio, você não cobra de todo mundo que tem que participar, que eles têm que se fazer presente nas associações e nos conselhos? Para você mexer em qualquer coisa na política você tem que se envolver em um partido”, revelou. Filiou-se ainda sem a perspectiva de ser candidato, talvez a vereador, mas logo veio o convite para compor a chapa à prefeitura.

“O rei da cocada é o cidadão”

Já sabemos que Sérgio Duprat é um cidadão de centro-direita, que atua com voluntariado e que tem algum tempo livre para participar de uma infinidade de atividades sociais. Agora precisamos entender como o candidato pensa a gestão pública e o que sugere para mudar Joinville. A chave, para Duprat, está na participação dos cidadãos e cidadãs em conselhos e associações.

Para o repórter, Duprat é o exemplo perfeito de como a classe média liberal aderiu ao bolsonarismo

O vice relembrou de quando sugeriu a aproximação de Nelson Coelho às entidades, algum tempo antes de sua adesão ao projeto do Patriota: “Nelson, se aproxime das associações de moradores, puxe o cidadão, dê o empoderamento para a sociedade organizada. Eles são os seus parceiros e querem ajudar, de graça, com voluntariado”.

Duprat defende que quem entende do bairro é o morador do bairro e não acredita em quem sabe a solução para tudo. Ele, por exemplo, diz que entende do Glória, onde mora, e um pouquinho das regiões que circula, como o Anita Garibaldi e o centro. Se chegar ao governo, quer estimular a participação dos moradores de cada comunidade na resolução dos problemas.

“Eu sempre deixei muito claro que estou aqui como cidadão. Eu vou dar uma descida com a minha proposta de servi-los, mas o rei da cocada é o cidadão”, pontuou.

Entre as ideias de Duprat está a participação do vice em encontros de associações, conselhos e outras entidades de participação popular, levando a seguinte questão: “Como eu posso ajudar? Como eu posso facilitar a vida do cidadão?”

Desigualdades

Quem acompanha esta série já sabe que a desigualdade social de Joinville é o tema principal da entrevista, além da biografia do candidato e de um extrato sobre sua maneira de pensar. Pergunto, em todas as conversas, qual é o principal problema de Joinville. Primeiro para saber o que ele pensa, depois para ver o que ele diz sobre a desigualdade e, por último, para saber o que propõe como solução.

“Primeiro nós temos que salvar a economia”, disse Duprat. Achei curiosa a resposta, lembrando que Joinville é uma cidade com multinacionais que operam bilhões de dólares ano a ano. A continuidade da resposta, no entanto, me situa no contexto. Duprat citou a obra do rio Mathias, que arrastada prejudicou o setor de comércios e serviços local, defendendo que a região tem que ser asfaltada para que a economia local volte a ser desenvolvida.

A partir dessa proposta, somada com toda conversa anterior sobre a participação comunitária, constato que o pensamento de Sérgio Duprat é sempre hiperlocal. Para o candidato, a solução está sempre no local, no bairro, na associação. Embora eu goste bastante dessa ideia e a considere fundamental (ela me lembra até os orçamentos participativos do PT), sempre considerei a gestão pública um pouco mais complicada. Resolver os problemas de Joinville passam por projetos micro, médios e macros, alguns tratados regionalmente. É necessário ouvir e levar em consideração o que diz o munícipe, mas às vezes é preciso considerar que interesses podem ser conflitantes. Um projeto pensado de maneira macro, como um binário, pode desagradar um bairro específico. Duprat deve saber disso, mas não mencionou na entrevista, em que focou na necessidade de ouvir e de atender ao cidadão.

Quando coloco o principal problema de Joinville (a desigualdade social) na conversa, Duprat disse que concorda em “gênero, número e grau”. Para ele, resultado de um “egoísmo que foi implantado na nossa cidade”, que nos fez perder “o sentido de coletividade, de que o todo é importante”. Para o candidato, contudo, esse senso de coletividade ainda está nas associações e coletivos, de modo que, a partir do momento em que se estimular essa participação, isso vai começar a mudar.

Duprat insistiu tanto que Nelson Coelho se aproximasse das associações e conselhos que acabou ele mesmo sendo convidado para compor a chapa

Em suma…

O bolsonarismo ainda é um fenômeno social muito estranho para mim. Entre pesquisas e hipóteses, gosto dos comentários da antropóloga Isabela Kalil, do historiador João Cezar de Castro Rocha e dos cientistas políticos Jairo Nicolau e Marcos Nobre. Ainda recomendo vivamente o podcast Retrato Narrado, encabeçado pela jornalista Carol Pires, que busca as raízes do pensamento de Jair Bolsonaro na biografia do presidente. Porém, todo esse material não me deixou plenamente preparado para cobrir a eleição em uma cidade que deu 83% dos votos para Jair no segundo turno. Eu sabia que ia me deparar com situações novas e uma delas foi Sérgio Duprat.

Por que um homem gentil, claramente liberal, que preza pelo bom senso e tem tanto entusiasmo pelo comunitarismo embarca em uma candidatura que representa o bolsonarismo, um movimento que deu inúmeras amostras antidemocráticas, que enfrenta a ciência e desrespeita os mortos do passado e do presente? Eu realmente não sei e acho que nunca vou saber.

Acredito que, no caso de Sérgio Duprat, tenha a ver com esse hiperlocalismo do qual é entusiasta. “Quem tem a resposta para os problemas da comunidade são as pessoas da comunidade”, disse o tempo todo, longe de qualquer motivação personalista. Acredito que ele viu a candidatura como uma oportunidade de levar essa ideia à frente. De, quem sabe de algum gabinete da Hermann Lepper, usar a caneta para ajudar a resolver os problemas da comunidade. Eternamente vou estranhar que alguém com essas ideias tenha aderido ao bolsonarismo, como a classe média fez em 2018, mas também fico feliz que até mesmo em uma chapa bolsonarista exista essa preocupação com a comunidade. Se chegarem ao poder em 2021, espero que seja a visão que prevaleça.