Comunista de verdade, Chico Aviz usa as eleições para denunciar o sistema capitalista

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional” e a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina são personagens recentes. O novo presidente americano foi vice de Barack Obama, o que certamente pesou na vitória em 2020. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi herdou a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por figuras que chegaram ao poder pela função. Jango assumiu o governo, começou a implantar reformas e sofreu o golpe. Itamar criou o Plano Real. E a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que a população mal pode conhecer os candidatos titulares. Bom, até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Para alguns setores da direita mais chucra, como os olavistas, todos nós somos comunas. De Sérgio Moro a Guilherme Boulos, passando por João Doria, Joice Hasselmann, MBL, ACM Neto, Antony Garotinho, Ciro Gomes e Lula. Se nem autoproclamados comunistas, como a esquerda tuiteira, são lá muito adeptos da doutrina que tem Karl Marx como maior farol, imagina esse outro pessoal que mencionei. Mas há, de fato, comunistas entre nós, e um deles é o perfilado nesta reportagem. Chico Aviz compõe a chapa pura do PSOL como vice de Mayara Colzani. Aos 22 anos de idade, o estudante de história participa de sua primeira eleição, já na campanha majoritária, e explica à reportagem o significado das eleições para os marxistas — uma oportunidade ímpar para denunciar o sistema que leva à exclusão.

O jornalismo é uma instituição liberal, nascida no seio da revolução burguesa e desenvolvida no século de consolidação do capitalismo. As eleições como as conhecemos também. É natural, portanto, que o modus operandi do jornalismo tradicional trate as candidaturas comunistas como as demais, nos marcos da democracia liberal, a qual também chamamos de Estado Democrático de Direito. Quando vejo entrevistas de candidatos e candidatas marxistas na TV, sempre penso que é uma conversa fora de sintonia. Um repórter pergunta como o candidato vai administrar o sistema, ao que o entrevistado responde que vai derrubá-lo.

Ao tratar as candidaturas comunistas dessa maneira, jornalistas perdem a oportunidade de compreender — e reportar ao público — o que aquele candidato está querendo dizer. Não imagino que exista alguma solução fácil para este problema, se é que é um problema, pois os jornais tem o compromisso, ainda mais nessas entrevistas curtas de rádio e TV, de oferecer um tratamento isonômico. “Se querem disputar a eleição do sistema, serão tratados como o sistema trata a todos”, podemos resumir assim o pensamento da maior parte da mídia hegemônica. Muitas vezes as candidaturas de esquerda são tratadas injustamente pela mídia do sistema, mas noutras é apenas o que acontece quando alguém de dentro do sistema conversa com quem quer derrubá-lo – ou transformá-lo gradativamente, como no caso dos reformistas.

A proposta do jornal O Mirante, no entanto, é diferente. Quem acompanha este especial já percebeu que a ideia, além de contar a história de cada sujeito, é entender o modo como ele pensa. Ao conversar com um revolucionário, quero entender como ele pretende fazer a revolução. Penso que a proposta tem baixa adesão, o que é contestado por Chico Aviz (vamos chegar lá mais à frente). Quero saber porque ele não acredita no processo eleitoral aos moldes atuais e mesmo assim resolve disputá-lo. Tudo isso vai ser explicado. Mas, primeiro, vamos entender como o biografado integrou-se às lutas sociais.

Chico Aviz começou a militância no movimento estudantil

Do movimento estudantil ao socialismo

Francisco Lino de Aviz Neto, o Chico Aviz, nasceu em 1998, em Balneário Camboriú, e passou parte da infância em Itajaí. Mudou-se com a família para Guarulhos (SP) ainda na infância, mas logo voltou para Santa Catarina, dessa vez para Joinville. A família fixou residência no bairro Floresta, onde ainda moram, e Chico terminou o ensino fundamental na Escola Municipal Professora Virgínia Soares. A família já era propensa à esquerda, mas a relação mais com a causa surgiu no ensino médio, que cursou na escola Conselheiro Mafra, a mais antiga da cidade, localizada no centro. O ano era 2013 e o país vivia aquela grande efervescência política que resultou no movimento conhecido como Jornadas de Junho.

Ao ingressar no movimento estudantil, Chico Aviz conheceu a organização Esquerda Marxista (EM), com grande história na esquerda municipal. A participação no épico movimento de rua animou os estudantes, que se organizaram junto ao grêmio. Naqueles anos de governo Raimundo Colombo (que se elegeu pelo DEM e terminou o mandato no PSD) também houve um intenso conflito entre estudantes e trabalhadores da educação com o governo estadual. Falta de recursos, fechamento de escolas e outros problemas serviam de combustível para estudantes cada vez mais politizados.

Quando entrou na faculdade — história na Univille — em 2017, Chico Aviz já era um militante com algum tempo de organização. Havia dirigido o grêmio estudantil e a União Joinvilense dos Estudantes Secundaristas. Logo que entrou, compôs uma chapa que disputou o Diretório Central dos Estudantes (DCE). Não venceu, mas seguiu militante dentro da EM, em diferentes lutas populares que a organização se envolvia.

De Trótski ao PSOL

Em uma reportagem há muito pouco espaço para explicar adequadamente as subdivisões da esquerda. Quando os jornalistas escrevem, contam que leitores e leitoras conheçam partes do contexto e se detenham à situação específica da história que está sendo contada. Neste caso, sinto necessidade de explicar brevemente, bem por cima, o contexto no qual está inserida a organização a qual se filiam Mayara Colzani e Chico Aviz.

Candidato defende ideias alinhadas ao pensamento do revolucionário russo Leon Trótski

Quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia em 1917, dois homens lideravam a revolução: Vladimir Lenin e Leon Trótski. O primeiro se tornou o alto comissário do país e até hoje é unanimidade em toda a esquerda que se reivindica revolucionária (com exceção dos anarquistas, que também são revolucionários). Trótski, que era um intelectual, se tornou o comandante do Exército Vermelho na principal potência do Velho Mundo. Com a morte de Lenin em 1924, ascendeu ao poder o membro do partido Joseph Stalin, que passou a comandar a União Soviética. Partiu dele a ordem para matar Leon Trótski, que estava exilado no México quando foi assassinado na porta de casa, em 1940. A biografia e os textos do revolucionário russo deram origem ao “trotskismo”, teoria-movimento ao qual o movimento joinvilense se filia.

A Esquerda Marxista é uma cisão da organização trotskista O Trabalho, que ainda integra o Partido dos Trabalhadores (PT). A EM permaneceu no PT por alguns anos após a criação, fazendo a crítica interna aos governos Lula e Dilma, até que decidiu migrar para o PSOL em 2015. O PSOL, que surgiu de uma dissidência petista em 2004, também é um partido de tendências. Isso significa que abriga várias organizações diferentes, entre reformistas e revolucionários. Em Joinville, cidade em que conta com o maior número de militantes da organização, a EM tem como político destacado é o professor Adilson Mariano, vereador por quatro mandatos, entre 2001 e 2016. Um grupo de servidores ligados à organização também dirigiu o sindicato dos servidores municipais por três mandatos, tendo o professor Ulrich Beathalter como presidente.

Disputa pela candidatura própria

Adilson Mariano, que preside o PSOL no município, seria o candidato a prefeito, mas compromissos profissionais o impediram. Dessa forma, a organização indicou Mayara e Chico para a disputa interna que definiria a participação neste pleito. Como o PT ofereceu a vaga de vice na chapa de Francisco de Assis, um outro grupo de psolistas levou a proposta para votação. Dessa forma, todos os filiados aptos a votar puderam escolher entre ser vice do PT e ter candidatura própria. Detentora da maioria no município, a EM levou a melhor.

Esta longa explicação tem um único objetivo. Na próxima vez que você ver alguém perguntar por que a esquerda não se junta, eu recomendo que você imprima este texto, faça uma bolota de papel e jogue na pessoa. Leia! Você pode concordar ou discordar com qualquer um dos lados dessa história, mas para isso precisa entender a conjuntura que levou à decisão.

Não se trata do desejo de ser titular na disputa, mas de profundas diferenças entre organizações de esquerda. Conforme disse em entrevista ao estudante de jornalismo Kevin Eduardo, em matéria do jornal universitário Primeira Pauta, Mayara Colzani acredita que a coligação seria negativa. “Não há espaço para os conciliadores. O povo trabalhador está farto do mais do mesmo, da política traidora das direções reformistas da esquerda, tanto dos governos do PT, quanto das atuações em sindicatos”, disse a candidata.

“Joinville não é uma ilha”

Seria deselegante de minha parte perguntar para qualquer candidato sobre as reais perspectivas de vencer a eleições. Espero nunca fazer isso, embora saiba que poucos têm condições de levar a disputa. Dos 15 na eleição joinvilense, não duvido que alguns acreditaram demais no próprio potencial, mas outros, tenho certeza, usaram as candidaturas para levar suas ideias à frente.

Para os marxistas, o período eleitoral é uma oportunidade ímpar para denunciar o sistema e a própria falta de efetividade das eleições burguesas. “Mas elas são importantes para a gente divulgar a nossa política. No nosso sistema, é o momento onde as pessoas mais discutem política, mais estão a fim de entender política, mais estão a fim de conhecer partidos e organizações. Esses momentos de ebulição política é que as pessoas estão mobilizadas politicamente”, revelou.

Eles não acreditam na transformação que não seja por um processo revolucionário, mas, caso ganhem, entendem que a prefeitura pode ser um ponto de apoio para uma luta maior. No governo, eles adotariam um programa de transição, com medidas como imposto progressivo e o fim do pagamento da dívida pública, que mostrariam à população que o dinheiro existe, mas é tomado pelos ricos da cidade.

Quando pergunto qual é o principal problema de Joinville, Chico responde que Joinville não é uma ilha e que os problemas não podem ser apartados da realidade nacional. Conta que o mote da campanha do PSOL é a defesa dos serviços públicos e gratuitos para todos, que mesmo em uma das cidades mais ricas do país estão defasados. Para ele, trata-se de um problema histórico que vem se agravando porque há um projeto de precarizar para privatizar. “Tudo isso é sintoma da crise do sistema capitalista e a gente acredita que só um programa socialista pode combater”, pontuou Aviz, mencionando ainda o grande número de desempregados e no país.

Seria tolice da minha parte perguntar para um comunista o que ele acha da desigualdade social, já que a ideia principal desse movimento é dissipar as desigualdades — o que ele pensa sobre o assunto já está dado em sua posição. Mas, como essa tem sido a principal pergunta da série, pergunto do mesmo jeito. O candidato explicou que a desigualdade social é fruto do próprio sistema, “onde uma minoria se apropria da produção geral dos trabalhadores, inclusive dos pequenos empreendedores”. Nesse ponto da conversa o candidato ainda defendeu que a desigualdade só pode ser combatida por meio de um programa revolucionário.

“A gente não compreende a possibilidade de reformas desse sistema, de pequenas conquistas da justiça social. A gente entende que todas as grandes conquistas históricas — da humanidade e não somente no Brasil — foram feitas a partir de luta dos trabalhadores e da juventude, mas elas são arrancadas na primeira oportunidade que o Estado tem. A gente vê todo o processo de privatização e de desmonte do serviço público. E a própria constituição do país não é respeitada, mesmo sendo uma constituição liberal. A gente vê que os serviços de saúde, de educação e o próprio direito ao emprego, tudo isso não é possível nesse sistema. Por isso que a gente apresenta os limites disso. O nosso mote da nossa candidatura é ‘os candidatos contra o sistema’, justamente por isso”, comentou.

Chico, Mayara e militante da EM na pré-campanha

“Revoluções acontecem”

“O que é colocar fogo na delegacia e pedir o fim da polícia, senão pedir o fim da violência do Estado e do próprio Estado?”, retorquiu Chico Aviz quando lhe perguntei sobre as possibilidades de fazer a revolução. Ele falava de uma revolta popular recente nos Estados Unidos. Também mencionou protestos amplos no Chile e na Bolívia.

O problema, segundo Chico e o movimento trotskista, é que existe uma crise de direções. É pela falta de um partido de vanguarda que as revoltas não se tornam revoluções. Ele citou o exemplo da Bolívia, em que houve uma espécie de poder paralelo recentemente, mas que não se concretizou em algo maior.

“As revoluções acontecem e vem acontecendo. É inevitável que as pessoas vão para a rua, é inevitável que as pessoas se indignem com o sistema que faz o desemprego em massa, que leva as condições de vida e trabalho de forma tão miserável como é hoje. Mas é preciso a construção de uma vanguarda, de uma direção, para que toda essa indignação se canalize para algo que é fundamental: apontar a propriedade privada dos grandes meios de produção como o grande responsável disso, a exploração da mais-valia como a grande responsável dessa miséria. E que o Estado não passa desse grande balcão de negócios dos mais ricos”, afirmou.

Em suma…

Em todos os textos desta série coloco o meu pensamento político de maneira mais efetiva. Fica fácil quando é para falar mal do Bolsonaro, o homem que reúne tudo de ruim que há no mundo. Mas, no caso da candidatura do PSOL, opto por fazer a Glória Pires: “Prefiro não opinar”. Sou um reformista convicto que viveu os últimos anos muito próximo de comunas e não tenho moral para dizer que estão errados. Embora tenha total concordância sobre a crueldade do sistema, e as desigualdades que foram discutidas nesta série são a prova, acredito que revoltas populares são um indício muito frágil das possibilidades revolucionários. Porém, como disse Chico Aviz no decorrer da nossa conversa, revoluções acontecem, como aconteceram ao longo da história. Daqui a pouco acontece uma e eu fico com cara de tacho.

Independente de reforma ou revolução, o objetivo principal do texto é mostrar como funciona parte da dinâmica da esquerda. Por que, anos atrás, o então vereador Adilson Mariano era bastante crítico ao prefeito Carlito Merss, sendo ambos do PT? Por que o PSOL e o PT se coligaram em Florianópolis e não se coligaram em Joinville? Por que o discurso de um sujeito de esquerda é diferente de outro? Simplesmente porque há grandes diferenças, com base histórica, na esquerda. Alguns acreditam que a melhor solução é reformar o Estado, outros não veem saída que não seja derrubar o sistema. E há quem queira derrubar o sistema por dentro do Estado. Chamar todo mundo de petista e comunista é coisa de olavista, coisa que ninguém com bom senso deveria ser.