Multitarefas, Adilson Caetano Buzzi quer integrar as diferentes Joinvilles

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional”, a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina depois da queda, por enquanto temporária, de um ex-bolsonarista. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi “herdou” a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por personagens que chegaram ao poder pela função. Jango sofreu o golpe, Itamar criou o Plano Real. Mas a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que mal se conhecem os candidatos titulares. Isso aconteceu até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos 15 vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Dizem as más línguas que esquerda é coisa da juventude e, à medida que vão envelhecendo, as pessoas vão virando à direita, tornando-se mais conservadoras. O fenômeno é comum, e não é difícil encontrar idosos reaças que foram revolucionários quando tinham mais cabelo e colágeno. A esquerda também tem seus velhinhos, mas geralmente são pessoas que passaram a vida toda no mesmo campo ideológico, como José Mujica, Luiza Erundina e Plínio de Arruda Sampaio. Este já alongado preâmbulo apresenta uma sociologia amadora da terceira idade para chamar atenção à trajetória inusitada do nosso entrevistado, que ainda está longe da melhor idade e da esquerda revolucionária, mas vem caminhando para a esquerda ao longo da vida. Adilson Caetano Buzzi, vice na chapa pura do PDT encabeçada pela vereador James Schroeder, começou a militância na direita, na juventude da Arena, passou pelo PSDB e hoje, aos 62 anos, está na centro-esquerda, aparentemente confortável entre os trabalhistas. Como parece estabilizado no PDT, acho difícil acontecer, mas, pelo andar da carruagem, é capaz de se tornar um nonagenário marxista frequentador de piquetes grevistas.

Destaquei esse passeio ideológico de Buzzi pela curiosidade, porque foi uma das coisas que mais me chamou a atenção na entrevista, mas também acredito que a história diz muito sobre o PDT local e a candidatura de James Schroeder à prefeitura de Joinville. O partido que teve em Leonel Brizola sua maior figura hoje tem Ciro Gomes como seu protagonista nacional. No meio do caminho ainda teve Cristovam Buarque com uma boa candidatura à presidência, em 2006. Com a bandeira da educação à frente, a sigla tem uma identidade que oscila entre o centro e a esquerda, permitindo que inúmeras figuras que navegam entre esses dois espectros componham o partido Brasil afora. O PDT Joinville abriga essas diferentes figuras, com tendência ao centro. Não faço ideia da ideologia de James Schroeder, por exemplo, mesmo após três mandatos do pedetista na Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ). Buzzi também tende ao centro. Ao mesmo tempo, o partido sempre tem uma jovem militância que se apresenta mais à esquerda.

Essa maleabilidade permite que o partido se sinta à vontade para compor diferentes governos. Em Joinville, participou dos últimos três, pelo menos: Marco Tebaldi (PSDB), Carlito Merss (PT) e Udo Döhler (MDB). Rodrigo Coelho (para ver como o centro do PDT Joinville é expandido, que pega até franjas da direita) foi eleito vice-prefeito em 2012, pelo PDT. James Schroeder foi base do governo na câmara em todos os três mandatos.

Ter sido base dos governos não impediu o partido de tentar chegar ao comando da cidade. Atualmente no PSB, o advogado Rodrigo Bornholdt foi o principal nome do PDT municipal entre 2008 e 2020. Vice-prefeito de Marco Tebaldi entre 2005 e 2008, Bornholdt saiu do então PMDB (hoje sem o P, como nas origens) para concorrer em 2008 como representante dos trabalhistas. Na eleição vencida por Carlito Merss, ficou em quinto lugar. Não disputou em 2012 porque Rodrigo Coelho, à época no partido, foi o vice de Udo Döhler. Bornholdt tentou mais uma vez em 2016, ficando mais uma vez na quinta posição. A saída de Bornholdt (que flertou com o PSL, mas botou a mão na consciência e parou no PSB) abriu espaço para James, que resolveu encarar o desafio. Havia a possibilidade de compor com outro partido, formando uma chapa mais forte, mas em uma eleição com 15 candidaturas, em que todo mundo queria ser cabeça de chapa, não rolou. O partido, então, olhou para dentro, em busca de um nome respeitável para a tarefa, o que nos leva ao personagem principal desta reportagem.

Buzzi com James Schroeder no Caxias, onde atua como diretor

Da Arena ao trabalhistas

Adilson Caetano Buzzi é um advogado criminalista bem-sucedido, aparentemente muito tranquilo, de fino trato, com atuação em alguns setores da sociedade. É voluntário na Associação Joinvilense para Integração dos Deficientes Visuais (Ajidevi); é dirigente do centenário e tradicional Caxias Futebol Clube; e é ligado a uma entidade promotora da cultura gauchesca na cidade. Também é alguém que se mostra saudoso de uma Joinville com vida social ativa, como demonstrou em uma curiosíssima resposta sobre os problemas da cidade. Além de tudo, é alguém que sempre esteve próximo da política, participando de governos e construindo partidos. Comecemos do começo:

Ele nasceu em 1958, em Trombudo Central, uma pequena cidade próxima a Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí. Não herdou nenhuma empresa, mas também não enfrentou grandes dificuldades, já que o pai era o exator (coletor de impostos) da cidade e depois se tornou funcionário público. Os estilos dos avôs influenciou os gostos do rapaz. O avô materno tinha um sítio, onde Buzzi cresceu. “Sempre me identifiquei mais pelo lado campeiro”, conta o candidato, que participa do movimento farroupilha na cidade. O avô paterno era empresário. A infância foi vivida no interior do estado, até que, em 1974, o pai de Adilson passou em um concurso de fiscal da Fazenda e veio com a família para Joinville. No ano seguinte, o jovem entrou na Escola Técnica Tupy, no curso de mecânica. Logo que se formou, passou a trabalhar na Tupy, em uma área mais técnica, a engenharia de fábrica. Em 1986, um novo rumo: a faculdade de direito. Ele conta que, na época, havia mais de 250 candidatos por vaga no curso da Faculdade Guilherme Guimbala. A nova formação o credenciou para uma vaga no escritório de uma unidade da gigante empresa joinvilense. Trabalhou na unidade até 1996, quando abriu o próprio escritório de advocacia, que vocacionou para a área criminal, na qual atua até hoje.

Com a indumentária gauchesca, um gosto derivado da vida campeira no interior de SC

O primeiro cargo político veio no final dos anos 1990. Espiridião Amin (PP) assumiu o governo do estado e, dada as relações partidária à época, Buzzi assumiu o cargo de procurador do porto de São Francisco do Sul. Pouco tempo depois, por influência do então deputado federal Eni Voltolini (PP), foi nomeado delegado regional do trabalho de Joinville. Em 2003, quando o petista Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o governo federal, houve uma troca geral nesses cargos, evidentemente, e Buzzi deixou o Ministério do Trabalho. No mesmo ano que Lula foi eleito presidente, Luiz Henrique da Silveira (PMDB) foi eleito governador, deixando a prefeitura de Joinville para o vice, Marco Tebaldi (PSDB). E o tucano logo convidou Buzzi para trabalhar na secretaria de saúde, sempre na área jurídica. Já perto do final do governo, atuou na Agência Municipal de Regulação de Águas e Esgoto (Amae), até que decidiu deixar o governo e se dedicar ao escritório.

Como o leitor e a leitora viram acima, a nomeação de Buzzi para cargos públicos esteve ligada ao envolvimento político do hoje candidato. Tomei um susto quando ele começou a descrever a trajetória que começou pela juventude da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido dos militares no sistema bipartidário instituído em 1965. Para quem cresceu no pós-ditadura e tem muito interesse no tema, querendo mudar até o nome do bairro onde mora porque dá nome a um dos ditadores militares, ouvir que alguém integrou a Arena foi um choque. Pode ser, certamente, algum anacronismo da minha parte. Buzzi, que foi muito simpático e me tratou muito bem, em nenhum momento pareceu ter sido alguém reacionário.

Ao fim do ditadura, e da Arena, passou a integrar o PDS, um dos herdeiros do partido de direita da ditadura. Buzzi lembra alegremente das disputas políticas da época, quando participou, por exemplo, da campanha que elegeu Paulo Bauer ao Congresso Nacional. Depois passou um tempo no PPB (que depois virou PP), nos anos 1990, na fase que assumiu os cargos de procurador no porto e de delegado do trabalho em Joinville. Virou tucano quando ingressou no governo de Marco Tebaldi e pedetista em 2011, a convite do amigo James Schroeder.

“Eu gosto de estar filiado a alguma agremiação. Li os ideais do partido e me identifiquei bastante. Embora os outros também tinham coisas que me interessavam, esse completava, principalmente no que fala das pessoas, de dar mais atenção às pessoas”, comentou Buzzi, que se candidatou pela primeira vez em 2012, já pelos trabalhistas.

Adilson Caetano Buzzi, como tantos outros candidatos na eleição municipal, parece ligar muito pouco para o lado mais ideológico da política. Talvez este repórter valoriza demais, como visto neste especial, por entender que o lado prático é totalmente determinado pelo lado ideológico. Cada indivíduo na política integra um partido que ajuda a construir e cada partido tem um projeto para a sociedade –– o projeto é determinado pela ideologia. Pela nossa conversa, entendo que para Buzzi pouco importa as diferenças entre PDS e PDT, pois ele gosta mesmo é da política mais prática, dessa coisa de construir algo e contribuir para o desenvolvimento da cidade e da sociedade. É o que noto também pelo seu envolvimento em outras áreas, como as décadas de trabalho voluntário na Ajidevi e o envolvimento na reconstrução do Caxias.

Candidato atua como advogado criminalista desde o final dos anos 1990

O saudoso sociável

Depois do susto que tomei com a resposta sobre a Arena, fui surpreendido mais uma vez por Buzzi quando lhe perguntei sobre o principal problema da cidade. Quem acompanha este especial sobre os vices já sabe que pergunto aos entrevistados sobre o tema para depois jogar o tema da desigualdade social à mesa.

Para Buzzi, a cidade oferece oportunidades laborativas, mas não é só isso que as pessoas precisam. O candidato defende que as pessoas precisam de oportunidades para se divertir, e isso tem a ver com certo espírito da cidade que se perdeu. “A gente tinha opção para colocar um pouco mais de alegria na face. Joinville se tornou uma cidade só de gente trabalhadora, pois não oferece oportunidades de diversão, de alegria”, comentou o candidato, lembrando de uma infinidade de clubes e eventos sociais que foram fechados ao longo dos anos.

A origem do problema, ele diz, vem de longe. Segundo Buzzi, quando as grandes empresas criaram as associações recreativas, mesmo que tivessem boa intenção, elas tiraram um pouco do convívio social. “Isso foi dizimando toda uma cadeia de entretenimento na nossa cidade”, explicou.

Chamo Buzzi de saudoso sociável porque, além das suas inúmeras participações sociais que ele registra ao longo da conversa, também demonstrou um curioso saudosismo nesta parte da conversa, relacionando o tema com a política, a ponto de falar sobre isso quando perguntado sobre o principal problema da cidade. Foi, sem dúvida, uma resposta bastante original.

“Onde falta pão tem confusão”

Quando eu estava prestes a jogar o tema desigualdade à mesa, o candidato falou sobre o assunto, mas com suas palavras. Ele declamou um poema no estilo gauchesco sobre a expansão da cidade, explicando que esse desenvolvimento formou diferentes cidades dentro da mesma. “Existe uma primeira Joinville, uma segunda Joinville, a qual me incluo, e uma terceira Joinville. Nós temos uma séria obrigação de acomodar e dar um pouquinho mais de conforto para essa terceira Joinville”.

Menciono, então, o tema da desigualdade social e o candidato se sente à vontade para expor seus conhecimentos sobre o assunto. Faz um longo discurso de combate às desigualdades, citando sua experiência como advogado criminalista em Joinville. Conta que, na ausência do Estado, o crime organizado seduz jovens cada vez mais novos, tornando o fosso social cada vez mais profundo e gerando uma sociedade violenta. “Onde falta pão tem confusão”, cita. Aliás, a conversa com Buzzi é cheia desses ditos populares e anedotas, o que a torna mais divertida.

“Tem solução, sim”, ele responde depois de conversar sobre o tamanho do problema gerado pela desigualdade, que parece insolúvel quando analisamos sob o prisma da criminalidade. Conta que, ao visitar um bairro mais desenvolvido, ouviu dos moradores que a necessidade atual era de mais polícia, enquanto na visita a um bairro mais afastado, a necessidade dos moradores era de cursos profissionalizantes. “Olha só a cultura do povo: os de cá tem medo dos de lá”.

Buzzi aponta que a solução está na educação integral, citando a proposta do partido de construir cinco escolas que vão funcionar em período integral, com oferta de educação qualificada, ao estilo dos Cieps brizolistas. “Não é só o tempo, mas a educação integral. Não adianta fazer um depósito de jovens e adolescentes e não dar uma orientação. A partir do momento que oferecermos isso, nós vamos descobrir muitos valores, de gente que estava ali só esperando uma oportunidade”, prevê o advogado.

Em suma…

O candidato do PDT me recebeu em seu escritório, localizado na Via Gastronômica, em obras naquela manhã. Com o chimarrão à mão e bom humor, não demonstrou irritação com a obra em nenhum momento. Nem pressa. Conversamos longamente sobre vários assuntos (apenas 1/5 vem para o texto final) e ele disse que separou a manhã para conversar comigo. Depois que me contou tudo que faz – trabalha no escritório, dirige o Caxias, participa do partido, disputa a prefeitura, atua como voluntário… -, me perguntei: “Será que o dia desse homem tem 36 horas?”. Bom, até agora não sei. Adilson Caetano Buzzi me chamou a atenção por ser essa pessoa multitarefas, mas sempre muito tranquilo e focado na construção de algo na sociedade. A trajetória da direita para a centro-esquerda, que tanto me surpreendeu e foi relatada no começo desse texto, se dissipa quando percebemos que o candidato é esse sujeito envolvido com a sociedade em que vive, sem com um trabalho voluntário aqui, um clube de futebol e uma associação gauchesca acolá. E, agora, quem sabe, uma prefeitura.