Antonia Grigol é uma ponte que leva à reconstrução local do PT

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional”, a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina depois da queda, por enquanto temporária, de um ex-bolsonarista. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi “herdou” a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por personagens que chegaram ao poder pela função. Jango sofreu o golpe, Itamar criou o Plano Real. Mas a importância dos vices — para o bem e para o mal — é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que mal se conhecem os candidatos titulares. Isso aconteceu até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos 15 vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Ao chegar ao endereço do comitê informado pela assessoria do PT para entrevistar Antonia Grigol, a vice de Francisco de Assis na chapa pura do partido, tive dificuldade de encontrá-lo. Havia duas salas, uma com porta fechada e outra, menor, com a porta aberta, na qual avisto uma manicure. “É nos fundos”, ela me disse, já cansada (noto pelo tom) de responder a mesma pergunta. Entro pela garagem e reconheço o espaço que tinha visto em fotos. É espaçoso, mas pouco caracterizado, com pouquíssimos móveis utilitários. Bem diferente da “Casa Vermelha”, o tradicional quartel-general de onde o partido coordenava as campanhas anteriores. A percepção sobre o local me levou a pensar naquela que considero a principal história sobre o PT no período atual: a reconstrução do partido que dez anos anos atrás governava a cidade e tinha cinco vereadores na câmara. Peça-chave neste projeto liderado por Francisco de Assis Nunes, a enfermeira, professora universitária e ex-secretária municipal de saúde Antonia Grigol tem compreensão total da tarefa. Remetendo-nos à Dilma Rousseff, atua como uma ponte entre a esquerda do passado (tanto da militância histórica quanto dos “anos dourados” petistas) e a do presente (com grande atenção às pautas identitárias, especialmente acerca das mulheres). E também faz a união entre o PT de Assis e de Carlito, dando a liga necessária para a retomada municipal da sigla.

Antonia nasceu no fatídico ano de 1964. Era apenas uma criança nos anos mais difíceis da ditadura militar (entre o final dos anos 60 e meados dos 70). Sua atuação política tem início na adolescência, quando o regime já começava a esmorecer, em uma fase de efervescência política entre os democratas, sobretudo à esquerda. Antonia vive e participa desse momento especial da história brasileira em Itajaí, onde se graduou em enfermagem, profissão que a trouxe para Joinville em 1990 para trabalhar no sistema público municipal.

A personagem principal desta matéria nasceu em Faxinal dos Guedes, no oeste de Santa Catarina, pertinho de Xanxerê. Alfabetizada pela mãe, bem pequena já cuidava da mercearia da família, na área rural. Se a compra fosse pequena, ela mesma resolvia. Para uma compra maior, chamava os pais, que trabalhavam na lavoura à frente. A família plantava milho e trigo, além de criar suínos. A primeira vez que saiu de casa foi para estudar, e para isso teve que trabalhar como babá na casa de uma família em Xanxerê. Pouco tempo depois seus pais se mudaram para a área urbana de Faxinal dos Guedes e ela voltou para casa, concluindo os estudos básicos na cidade. No segundo grau, fez o curso de atendente de enfermagem, permitido à época, e começou a trabalhar em um hospital da região. Aos 20 anos (em 1984), mudou-se para Itajaí, onde se graduou. Formada, conseguiu o primeiro emprego na unidade de saúde do bairro Boehmerwald, na zona sul de Joinville.

Neste momento da vida, Antonia já era uma militante do PT, sempre atuante na área da saúde. “Tudo aconteceu junto na minha vida. O Partido dos Trabalhadores na época do movimento estudantil e a luta pelas questões da saúde. Em 86, quando acontece a 8ª Conferência de Saúde, eu era universitária. De 86 até a Constituição de 88, todo esse processo de construção e acompanhamento, se as propostas seriam inseridas na Constituição, eu fiz parte”, relembrou. Em Joinville, Antonia participou de diversos movimentos da área, como o que garantiu, via justiça, a nomeação do conselho municipal na década de 90, enfrentando a gestão municipal.

Depois de passar por diversas áreas da saúde de Joinville (diferentes funções em várias unidades, das unidades de bairro ao Hospital Municipal São José), Antonia Grigol trocou a enfermaria pela sala de aula, passando a dar aulas em cursos de enfermagem e coordenando o curso da Faculdade Ielusc por duas décadas. As atividades profissionais e a militância convergiram em 2009, quando Carlito Merss venceu a eleição municipal e escolheu Antonia para liderar a Secretaria da Saúde, uma das pastas mais importantes de qualquer governo.

Antonia é da ala do PT ligada ao ex-prefeito Carlito Merss e ao ex-presidente Lula

O PT de Antonia Grigol

A história dessa candidatura, de Antonia Grigol e da reconstrução do PT municipal não pode ser contada nem compreendida sem entender o contexto partidário e nacional que nos trouxe até aqui.

O PT é um dos gigantes nacionais, assim como PSDB, MDB e os herdeiros políticos da Arena (PFL, PP e DEM). Foram esses partidos, com dissidências aqui e acolá, que disputaram o poder após a derrocada da ditadura. Tucanos e petistas protagonizaram, com o MDB (que durante bom tempo foi PMDB) sendo o fiel da balança. Em 2002, o partido criado no seio do movimento sindical e social e da igreja católica chegou ao poder, com Lula. Com a eleição de Dilma Rousseff em 2010, foram 14 anos dentro do Palácio do Planalto, em um período considerado “anos dourados” para os adeptos e um “tempo de trevas” para os detratores. Sou uma pessoa de esquerda, que chegou a ser filiada ao PT, e não acho que tenham sido exatamente anos dourados, que não houve inúmeros problemas. Porém, negar os avanços econômicos e sociais do período é uma desconexão com a realidade que foi muito estimulada por agentes econômicos.

Foi no meio desse período petista, no auge da aprovação de Lula, que Joinville decidiu dar uma chance para Carlito Merss, o economista, professor e político (foi vereador, deputado estadual e federal) que disputava a prefeitura pela quarta vez. Em 2008, o petista foi o mais votado do primeiro turno, deixando pelo caminho nomes de peso, como Mauro Mariani (PMDB) e Kennedy Nunes (à época no PP), e vencendo Darci de Matos (à época no DEM) no segundo turno.

Mas se o PT estava em seu auge, isso significa que houve uma derrocada. Nacional e localmente, o PT sofria ataques da oposição, era tratado injustamente por uma imprensa pouco republicana (o rádio em Joinville era muito pouco profissional) e também pagava pelos próprios erros, como o mensalão. Era a combinação perfeita para dar tudo errado. Carlito tentou a reeleição, sem sucesso. Apesar de ter sofrido um ataque judicial às vésperas do pleito, nada indicava que fosse ao segundo turno, mas nunca saberemos como seria seu desempenho se a Justiça não o tirasse da disputa às vésperas do pleito.

Ao mesmo tempo que o PT descia a ladeira da popularidade, a extrema-direita ia crescendo, até desembocar em Jair Bolsonaro, um deputado do baixo clero que se tornou o “mito” da direita e foi eleito presidente do Brasil com 262.556 votos (83,18%) joinvilenses no segundo turno de 2018. Fernando Haddad, o candidato petista que enfrentou Bolsonaro na disputa, recebeu 53.088 votos (16,82%) na cidade. O número chocante mostra como uma cidade governada pelo PT se tornou majoritariamente bolsonarista em menos de dez anos. Naquele momento da história, Lula estava preso aqui pertinho, em Curitiba, pela ação bastante irregular de um juiz que foi escolhido ministro de Bolsonaro.

No comício de Fernando Haddad em Florianópolis, em 2018

O PT vivia seu pior momento histórico nacional e localmente. Além de perder o Executivo, teve a presença diminuída no Legislativo. Em 2012, foram eleitos pela sigla os vereadores Adilson Mariano, Lioilson Corrêa e Manoel Bento. Os dois primeiros deixaram o partido no final do mandato. Mariano, pelo PSOL, não conseguiu a reeleição em 2016. Lioilson conseguiu, mas pelo PSC. Bento seguiu no PT, mas, naquele ano, o partido não elegeu vereadores, deixando a câmara municipal sem uma representação de esquerda no último mandato. Já na disputa à prefeitura, Carlito Merss foi o nome dos petistas, com Assis de vice, já sinalizando uma união de forças tradicionalmente concorrentes dentro do partido.

Foi neste cenário de predominância do bolsonarismo e fragilidade do partido que, em 2019, Assis teve a oportunidade de assumir o comando. Partidos sempre tem disputas internas, mas nos de esquerda elas são mais marcadas, com as chamadas correntes/tendências historicamente constituídas. Em Joinville, três forças disputaram a liderança do PT ao longo da história. Carlito Merss, Marquinhos Fernandes e Antonia Grigol compunham a corrente “Construindo um Novo Brasil”, a mesma de Lula, que predominava; Francisco de Assis Nunes, que hoje compõe a corrente “Militância Socialista”, era da “Articulação de Esquerda” e sempre liderou a segunda força na disputa interna local; e ainda havia a tendência “O Trabalho”, que tinha nomes como Adilson Mariano e Oswaldo de França (a Esquerda Marxista é uma dissidência de O Trabalho que foi para o PSOL depois de alguns anos no PT).

Devagarinho, sob a batuta de Assis, o partido começou a retomar as atividades com mais frequência, já articulando o projeto eleitoral de 2020. Com Bolsonaro e seus inúmeros absurdos no governo federal, crescia gradativamente a oposição, e os protestos nacionais ganharam corpo local. Ao mesmo tempo em que o ódio ao partido foi arrefecendo, cresceu também o senso de responsabilidade de militantes que começaram a se sentir mais confortáveis para voltar (ou até mesmo começar) a militar. O resultado disso é que no último ano vimos um reaquecimento petista em Joinville.

Contudo, não bastava a mera liderança do atual candidato a prefeito. Por 30 anos o PT local se formou em torno de Carlito e era preciso que o grupo do ex-prefeito abraçasse o atual projeto. Foi o que aconteceu, antes mesmo de Antonia ser cogitada como a vice. No reaquecimento da sigla, o PT foi se reaglutinando, passando por cima de arestas históricas, como se não existissem ou se não houvesse tempo para elas neste momento da história. É o que explicou a candidata a vice:

“Aqui em Joinville, se existiu rivalidade, ela diminui com o tempo. Porque hoje não temos essas diferenças. Quando o Assis me convida para ser vice dele, por exemplo, eu não fico pensando ‘ai, eu sou de outra corrente’. Não! Eu quero construir o PT. Nós temos muito mais coisas que convergem do que nos afastam. O nosso objetivo final é o mesmo e as nossas divergências são para o processo”, explica.

É dentro desse contexto que a reportagem aponta Antonia Grigol como uma ponte entre dois PTs. O PT histórico, pois ela participou da construção do partido desde o início, passando pelo PT do auge, dos anos Lula e Dilma, e chegando a esse PT que precisa e quer se reconstruir após a ressaca bolsonarista. Além disso, ela é uma peça-chave entre os diferentes PTs internos que agora buscam ser o mesmo. Por fim, ainda marca uma transição que ocorre na esquerda, cada dia mais ligada às causas identitárias. Além do protagonismo feminino que traz à chapa, a candidata ainda aborda com frequência diversas outras pautas, como a LGBTQIA e o combate ao racismo.

Desigualdade

Para todos os entrevistados perguntei sobre o principal problema de Joinville. Depois que eles respondiam, eu dizia qual é o principal problema na minha opinião — é brutal desigualdade social — e pedia para a pessoa comentar. No meu entendimento, e disse isso a Antonia, ela tem o mesmo diagnóstico (comum à esquerda), embora não tenha respondido com as mesmas palavras. Na resposta, a petista já saiu propondo o que considera a solução, ou parte dela.

Antonia em Cuba, em visita ao mausoléu do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara

“Eu falo para você que saúde é resultante de habitação, transporte, segurança, cultura, cultura da paz, processo de trabalho saudável, educação, acesso a serviço de saúde… Essa é a nossa concepção. Para que Joinville tenha equilíbrio, eu percebo que falta atualmente a infraestrutura, acesso a serviço de saúde, acesso à educação, especialmente à educação básica, que é uma pauta das mulheres feministas”, disse a candidata. Antonia ainda engatou a questão da falta de espaço públicos que sirvam para as pessoas relaxarem e fazer atividades físicas, algo que ajuda a promover a desmedicação e melhora a qualidade de vida. E finalizou com o tema da mobilidade, também o relacionando à qualidade de vida.

Quando menciono a desigualdade social, Antonia concorda que temos o mesmo diagnóstico sobre a cidade, apesar de ela ter se alongado na resposta cheia de exemplos. Ela destacou que Joinville tem 60 ocupações urbanas e “se há ocupações, há desigualdades, e ela [a cidade] é muito desigual”.

“A gente só combate isso com política pública séria, que se propõe a cuidar da vida das pessoas, e não privatizando os serviços do Estado. A partir do momento que eu privatizo, a pessoa vai precisar comprar esse serviço, e como ela vai comprar se ela não consegue comprar comida?”, retorquiu.

Justiça seja feita, há poucas diferenças de diagnóstico entre candidatos à direita e à esquerda. Quase todo mundo, do Novo ao PT, passando pelo PSL e pelo PDT, destaca a desigualdade a partir das suas concretudes. A falta de infraestrutura, de serviços… A ideia de trazer este tema para esta série de reportagens também tem o objetivo de dar nomes às coisas. Mais ou menos como se disséssemos: “Você aí, que não para de falar de asfalto, você está reclamando da brutal desigualdade. Enfrente-a!”

Cabe ainda destacar que, de modo geral, a resposta de Antonia tem a ver com a concepção de transformação social defendida pela candidata. Em mais de uma vez durante nossa conversa ela mencionou o termo “Estado de Bem-estar Social”, uma informação importante à esquerda, que se divide entre revolucionários e reformistas, entre aqueles que almejam uma sociedade socialista a partir da tomada dos meios de produção e outros que buscam construir uma sociedade mais ou menos aos moldes do norte europeu (sem o caráter imperialista, é claro). Antonia se inscreve no segundo grupo.

De onde virá o dinheiro

Como o social-democrata à esquerda que sou, tenho que me policiar para entrevistar pessoas de ideologia aproximada. Não posso, simplesmente, ficar levantando bolas para os entrevistados cortarem (para quem não entende a metáfora comum no jornalismo, ela é relacionada ao vôlei, modalidade esportiva em que um atleta precisa levantar bolas com esmero para que o outro possa cortar com precisão e marcar o ponto). Preciso, como jornalista, ouvir as ideias dos entrevistados, reportá-las com fidedignidade e também pensar em perguntas que confrontem meu interlocutor. Para pessoas de direita, costumo perguntar como querem fazer bons governos se só falam em reduzir o Estado e cortar custos que, na prática, são serviços para a população. Para a esquerda é quase o contrário. Como pretendem pagar por todos esses serviços públicos que estão prometendo, se pouco se fala na economia de recursos? Não se trata de uma pegadinha para nenhum dos grupos, mas sim a curiosidade sobre propostas reais de cada um para a gestão pública.

Para a vice petista, a saída está em taxar os super-ricos — “não a classe média que se acha rica” — e aí é possível fazer as coisas, desde que com racionalidade dos recursos públicos. Não há muitas possibilidades de fazer isso em âmbito municipal e Antonia sabe disso. A ampliação dos recursos municipais depende de algo maior, mas isso não a impede de criticar o “Estado liberal” em âmbito municipal. No decorrer desse assunto, chegamos em uma área que candidata conhece com profundidade e ela contou um exemplo chocante.

Secretaria de saúde no governo de Carlito Merss

Segundo Antonia, a ala para gestantes do Hospital Infantil de Joinville foi fechada porque o número de partos era baixo e isso prejudicava os números do hospital estadual administrado por uma Organização Social (OS). “Como tinha apenas um parto por dia, a gente tinha o parto mais caro do Brasil. Era preciso que 14 meninas parissem todos os dia para dar lucro para o hospital. Essa é a lógica do capital, é com essa lógica que a gente precisa romper”, explicou a candidata. A mesma coisa aconteceu com a ala de queimados. “Para dar lucro, seria preciso queimar uma criança por dia”, argumentou.

Em suma…

Toda esta série de textos enormes que você está lendo (Os vices como você nunca viu) têm apenas uma parte do que falou cada candidato e candidata. As matérias teriam o quíntuplo do tamanho se fossem uma transcrição literal da conversa. Mas a ideia do especial é outra. É mostrar como as origens e as trajetórias formam uma visão de mundo, como os indivíduos apresentados se juntam a organizações e como tudo isso aparece como proposta de gestão da cidade.

Como tenho grande afinidade com a candidata e a conheço há algum tempo, nossa conversa foi cheia de concordâncias sobre variados assuntos ideológicos e práticos que podem ser resumidos como uma crítica ao capitalismo e a reforma do Estado via políticas públicas. Como em todos os textos, busquei apresentar o indivíduo como parte de outra história, neste caso, a reconstrução do PT em Joinville. Nesse contexto, vi Antonia Grigol como uma liga, um elo, uma ponte. Ela, que concorre pela primeira vez, esperou outro partido definir entraria na coligação com o PT. Como a outra sigla descartou a possibilidade, ela assumiu a tarefa de levar o partido novamente ao local em que já esteve.