Política no sangue e sobrenome tornam Rodrigo Fachini um vice de peso

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional”, a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina depois da queda, por enquanto temporária, de um ex-bolsonarista. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi “herdou” a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por personagens que chegaram ao poder pela função. Jango sofreu o golpe, Itamar criou o Plano Real. Mas a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que mal se conhecem os candidatos titulares. Isso aconteceu até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos 15 vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Entre todos os candidatos a vice, Rodrigo Fachini é o único político com mandato. Poderia chamá-lo de “político profissional”, mas o termo ganhou caráter pejorativo, em mais uma dessas maluquices da autoproclamada nova política. Vereador com dois mandatos, trajetória em três partidos e passagens pela centro-esquerda e pela centro-direita, Rodrigo exige do repórter que a conversa seja diferente. Como político hábil, ele sabe o que o interlocutor quer ouvir e o que tem que dizer, além de ter uma percepção aproximada do que vai ser publicado. Se eu fosse um repórter com más intenções, faria quase todos os candidatos a vice escorregarem em cascas de banana colocadas estrategicamente no meio das entrevistas, mas Rodrigo seria um dos poucos que certamente desviaria. Esta reportagem é sobre a construção desse político, como ele chegou à chapa com Darci de Matos (PSD) e o que propõe para a cidade.

Não se pode falar de Rodrigo sem considerar o peso de seu sobrenome. Muitas famílias têm o nome facilmente reconhecido em Joinville, uma cidade ainda muito provinciana, mas os Fachini têm esse peso pelo lado popular, por causa da organização política da comunidade na zona sul de Joinville e pelos trabalhos que promoveram no combate à fome, com as famosas cozinhas comunitárias que criaram. E tudo isso começou com os irmãos Luiz e João, que após serem ordenados padres foram designados para atuar em Joinville, mais especificamente no bairro Floresta. Foi na zona sul da cidade que eles começaram a trabalhar nas comunidades eclesiais de base e em outras mobilizações sociais, construindo a pastoral operária e o terceiro centro dos direitos humanos do Brasil.

João Fachini decidiu largar a batina no final dos anos 70, apaixonado por Justina Rosa. Juntos tiveram Rodrigo, Tiaraju, Maíra (jovem médica que faleceu precocemente em 2009) e Naiara. A mãe de Rodrigo se tornou líder comunitária e hoje dá nome para uma medalha de mérito do poder legislativo joinvilense. O pai não largou as atividades comunitárias, mas passou a se dedicar à carreira política no final dos anos 70, quando foi nomeado secretário no primeiro mandato de prefeito do emedebista Luiz Henrique da Silveira. João Fachini também foi o primeiro vereador do PT na cidade, o único na eleição de 1988. Em 1992, já filiado ao PDT, candidatou-se à prefeitura, sem sucesso. Ficou por anos no partido, até o início dos anos 2000, e foi nesse período pedetista que Rodrigo adentrou à política. Era natural, portanto, que o hoje candidato a vice-prefeito pelo PSDB, na chapa com o PSD, tenha começado na política pelo PDT, com uma postura um pouco mais à esquerda.

Rodrigo cresceu na convergência das lutas populares com a política tradicional, o que o levou a decidir precocemente seu futuro. “Nunca pensei em outra coisa”, disse o político que é formado em gestão pública. Desde cedo atuou como líder estudantil e logo no início da carreira atuou como coordenador de juventude do governo Marco Tebaldi (PSDB), no início dos anos 2000. E, em 2007, ele é convidado a ser candidato a vereador pelo MDB.

“O meu envolvimento com o bairro Floresta me chamou a essa responsabilidade, de dar continuidade ao trabalho feito pelo meu pai, pelo tio Luiz, e eu era, digamos, o fruto de tudo isso. Então eu me tornei candidato a vereador. Naquele momento, eu deixo de ser o filho do político João Fachini para ser o político Rodrigo Fachini”, avaliou.

Rodrigo chegou à Câmara de Vereadores em 2013, tendo sido o segundo mais votado no pleito de 2012. No parlamento, foi líder do governo, presidente da CVJ e se tornou um dos principais líderes da oposição, após brigar com o prefeito Udo Döhler e com o partido, em uma história que será melhor contada à frente.

A família Fachini no finalzinho dos anos 70, quando o pai largou a batina e passou a se dedicar à política
Com a esposa Karla, o tio Luiz e o pai João em 2015, quando assumiu interinamente a prefeitura

Vice de um, cabeça de chapa, vice de outro

Outro personagem importante nesta reportagem é o deputado federal Rodrigo Coelho, atualmente no PSB. Com trajetória ascendente, o parlamentar era um dos favoritos à eleição municipal. E o plano, revelou Fachini na entrevista, era tê-lo como cabeça de chapa, sendo, “naturalmente”, o seu vice. Porém, como o leitor e a leitora de O Mirante já estão cansados de saber, Rodrigo Coelho está amarrado ao PSB, partido com o qual brigou e que não o deixou concorrer. Tamanha é a desavença que a direção nacional chegou a forçar o PSB local a apoiar o maior adversário do candidato apoiado por Coelho.

O plano B, segundo Fachini, era ser cabeça de chapa, mas ainda com a chancela de Coelho. O pai do deputado federal, o ex-vereador e ex-deputado João Norberto Coelho Neto, seria vice. Assim, Coelho colocaria o peso de sua base na chapa. Mas a ideia também não deu certo (Fachini não contou o motivo e eu também não perguntei), o que levou Fachini a compor a chapa de Darci por intermédio de Coelho, considerado o grande articulador da coligação que reúne PSD, PSDB, PP e PL.

Antes de formar a chapa como vice, entretanto, Fachini fez tudo que pode para ser candidato principal. Além de ter sido um dos principais críticos do governo Udo Döhler (o que dava indícios de uma candidatura), colocou o bloco na rua quase um ano antes do pleito, marcando posição e cavando a vaga de candidato. Já como pré-candidato, marcou a convenção para o primeiro dia do período estipulado pelo TSE, lançando oficialmente a campanha antes de todo mundo. Era uma forma de consolidar a chapa, evitar um sobressalto que o colocasse de vice. Porém, apesar de todo o esforço, na última hora fechou com Darci, trocando uma incerta candidatura debutante para entrar em um dos times favoritos.

Da esquerda para a centro-direita

Comunistas os Fachini nunca foram, pelo menos que eu saiba, mas a trajetória da família tem grande relação com a esquerda. Adeptos e promotores da Teologia da Libertação, os irmãos Luiz e João são considerados grandes nomes da história da esquerda local. João foi secretário em um MDB que fazia oposição à ditadura (na passagem dos anos 70 para os 80), foi eleito vereador pelo PT e viveu longo período no PDT. Até candidato ao governo do estado pelo PSOL, em 2006, ele foi. O que hoje parece estranho, na época foi mais ainda, mas o psolista João Fachini decidiu apoiar Luiz Henrique no segundo turno da eleição de 2006, quando o governador de Joinville tentava a reeleição. Foi desautorizado por Heloísa Helena, a senadora que era a principal liderança do partido à época. Anos depois João Fachini se fixou no MDB, o então partido do filho e do governador, do qual chegou a ser secretário na parte final do mandato.

No início da vida política, filiado ao PDT, Rodrigo Fachini atuou na pasta de assuntos da juventude do governo de Marco Tebaldi

Pergunto a Rodrigo Fachini sobre essa trajetória da esquerda em direção à direita, lembrando a ele (e aos leitores) que Darci de Matos sempre foi um político ligado a partidos herdeiros da ditadura, como PFL e DEM. O atual, PSD, é de centro, mas também pode ser considerado um tataraneto na Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido da ditadura. Além disso, Darci está sempre tentando colar sua imagem a Jair Bolsonaro, considerado de extrema-direita por este jornal. Pode ser uma escolha pragmática no atual cenário (a cidade deu 83% dos votos para o atual presidente no segundo turno), mas no caso de Darci também parece ser bem sincero.

“Hoje nós vivemos em um momento em que você defender uma bandeira de esquerda é algo muito difícil. Agora, se tem uma coisa que eu não vou perder, tirando um pouco a coisa de direita e esquerda, é essa visão humanista. A gestão pública precisa dar mais liberdade para o mercado e hoje defendo uma linha mais liberal, mas esse lado mais humanista, de uma mão mais solidária, eu nunca vou perder”, garantiu o candidato.

Fachini destaca que todos sabem que a atuação de sua família sempre foi ligada à esquerda, lembrando que seu pai atuou na formação das primeiras associações de moradores da cidade, mas que o momento é outro. “Se tu me perguntar se eu sou de direita ou de esquerda, eu vou dizer que sou um cara que defende o livre mercado, mas não vou jamais perder essa questão humanista […] É por isso que estou na política.”

Sou pouca coisa mais novo que meu entrevistado daquela tarde e tenho uma trajetória um pouco mais à esquerda. Ao longo desses anos em que acompanhei as transições de Fachini, vi muitos colegas de ideologia se revoltarem com a direção à centro-direita tomada por Fachini. Para mim, no entanto, Fachini é apenas um político pragmático, sincero quando destaca seu lado solidário que veio no pacote familiar. Se antes acreditava em uma estrutura estatal maior (uma resposta mais à esquerda para os problemas da sociedade), hoje está mais convencido de que boa parte das soluções estão nas parcerias público-privadas (uma proposta mais à direita).

Racha com Udo

Fachini deixou o PDT e entrou no MDB (que ainda tinha o P) em 2007, no grande evento promovido pelo partido para celebrar a transferência de título de Mauro Mariani, de Rio Negrinho para Joinville. O projeto de LHS era eleger o proeminente político do Planalto Norte como prefeito de Joinville para que fosse seu sucessor. Não deu, já que a cidade rejeitou Mariani e elegeu o petista Carlito Merss, este alavancado pelo sucesso do governo Lula. Darci de Matos também estava naquela disputa, pelo DEM, e foi ao segundo turno com o petista. Cabe destacar que Fachini sempre foi próximo de Mauro Mariani.

O político da zona sul, que atuou em pastas do governo relacionadas à juventude e tinha a atuação no bairro como trunfo, conta que levou 400 filiados para o MDB naquela ocasião. A base de apoiadores o ajudou a conquistar mais de 2 mil votos na primeira tentativa de chegar à Câmara de Vereadores de Joinville, mas o número não foi suficiente. No governo Carlito, chegou a ser secretário regional no bairro Itaum, e foi o primeiro a deixar o cargo após a decisão do MDB de deixar o governo petista, em 2011. Foi eleito pela primeira vez em 2012, aos 34 anos, com 4.432 votos – o quinto mais votado naquele pleito.

Nos dois primeiros anos, foi o líder do governo Udo Döhler, que também estava em seu primeiro mandato. A relação era boa, com elogios mútuos, muito diferente dos últimos dois anos, período em que Fachini se tornou um dos maiores críticos, batendo no governo um dia e outro também. O racha, segundo o agora tucano, ocorreu no final de 2014, quando colocou seu nome na disputa à presidência do Legislativo contra a vontade do prefeito. Vencedor na ocasião, ele diz que ficaram meses sem se falar e que cobrou o repasse constitucional sem atrasos, sob pena de acionar o Tribunal de Contas. Puxo pela memória e não lembro do racha naquele momento, talvez porque não tenha vindo a público mesmo. De qualquer forma, é a versão de Fachini para um fato histórico da municipalidade.

Rodrigo Fachini tem dois mandatos na CVJ

Ainda no MDB, Fachini foi o segundo mais votado em 2016, com 6.243 votos. Ficou atrás de Krelling, que chegou à CVJ com um recorde de votos, mais de 10 mil. Em 2018, os dois emedebistas tentaram uma vaga na Assembleia Legislativa. Krelling conseguiu a vaga e foi mais ou menos nesse período que as críticas de Fachini ao governo Udo se tornaram constantes. Impedido de falar no tempo do partido pelo líder do governo, à época o vereador Mauricinho Soares, Fachini pediu o mandato à Justiça e conseguiu, em um acordo no TRE. Isso aconteceu no começo de 2020, o singular ano da pandemia de coronavírus.

Como o político hábil que é, como destaquei no começo, o candidato aproveita os espaços para falar de suas glórias. Evito levantar a bola, mas também seria injusto suprimir do texto os orgulhos de Fachini. Entre eles estão a criação do prêmio Jovem Autor, a lei de combate à dengue e, sobretudo, a economia gerada durante sua presidência, quando devolveu cerca de R$ 15 milhões ao Executivo. Conta que atuou para coibir viagens e cortou diárias e comissionados.

Em campanha, o candidato também aproveita as brechas para criticar o adversário. Segundo ele, a economia feita por Fernando Krelling, o candidato a prefeito pelo MDB durante a presidência da câmara foi maior, mas apenas porque ele deu início ao processo. Além disso, ele acusa o emedebista de sucatear o legislativo no período.

Joinville: “Face de Cristo”

Luiz e João Fachini estudaram teologia na Suíça e um dos colegas de batina do pai de Rodrigo se tornou um dos principais assessores de Dom Paulo Evaristo Arns. Essa relação possibilitou a visita do “cardeal da resistência” a Joinville nos anos 70, onde ele disse a célebre frase sobre a cidade ser como a face de Cristo: um rosto bonito, com uma coroa de espinhos ao redor, aludindo a uma periferia muito pobre e sofrida. Esta pequena passagem que Rodrigo memoriza apareceu mais de uma vez na conversa e tem a ver com um dos temas abordados em todas as entrevistas.

Pergunto para todos os candidatos sobre o principal problema de Joinville. O objetivo é ouvir a resposta, mas também confrontar com a minha ideia acerca do principal problema, que é a desigualdade. Com a habilidade política de sacar o rumo da conversa, e também por um vacilo do repórter que deu a pista, Rodrigo logo percebeu o que eu queria ouvir e tascou: “A desigualdade social, com certeza.”

Mas também não posso dizer que Rodrigo não acredita nisso. A trajetória da família, independentemente de críticas às escolhas políticas que uma pessoa ou outra pode ter, o credenciam a cravar a alternativa. Além disso, durante todo o encontro a desigualdade foi assunto. Caso seja eleito, o governo não poderá alegar desconhecimento sobre o problema que qualquer eleito deverá combater.

Maior contribuição ao plano de governo

Quase todos os candidatos dizem que participaram de toda a elaboração do plano de governo apresentado à população. Acredito, porque é natural que seja assim, mas questiono qual foi a contribuição específica do vice na elaboração. Rodrigo Fachini se orgulha do projeto que visa transformar Joinville em uma cidade bilíngue, fortalecendo o ensino de inglês na educação municipal.

Burocracia e meio ambiente

Candidato acredita que as regras devem existir, mas não podem inviabilizar o desenvolvimento da cidade

Este jornal não é contra burocracia e acredita que questão está banalizada no debate político e eleitoral. Burocracia é fundamental para evitar o conchavo, a negociata atrás da porta e a corrupção. Claro que há questões a arrumar, mas, no atual debate, a coitada é apontada como a razão de todos os males. Pergunto aos candidatos o que acham, mais para saber como reagem diante de um problema sem solução. É fácil responder a interlocutores com uma visão simplória acerca da burocracia, mas vai fica mais difícil quando a realidade impor os limites do que se pode e do que não se pode fazer. Por mais que as campanhas precisem de discursos fáceis, nos quais tudo dá para fazer, a política real é bem mais complicada. Um projeto de lei precisa lidar com a comunidade afetada, imprensa e parlamento; precisa respeitar leis ambientais, municipais, estaduais, a Constituição e as leis da física; e precisa de um tempo próprio de maturação.

Fachini sabe de tudo isso e dá uma longa resposta com um exemplo relacionado ao meio ambiente. Comenta que a distância exigida às margens dos rios inviabiliza o desenvolvimento da área urbana, ainda mais em uma cidade em que, ao furar o chão, você pode achar um novo rio.

“Nós precisaríamos ter um outro olhar para alguns regramentos ambientais, respeitando especialmente essa questão da área urbana consolidada. A desburocratização não pode virar uma terra de ninguém. Tem que ter regras, mas as regras têm que respeitar e reconhecer a importância de uma cidade como Joinville no contexto econômico. Não dá para levar três, quatro ou cinco anos para dar uma licença para um cara construir um prédio”, explica. Como solução, o candidato sugere diálogo e maior autonomia para os servidores públicos, de modo que eles tenham segurança jurídica para liberar as licenças.

O Mirante também questionou todos os candidatos e candidatas sobre meio ambiente. A ideia é saber com qual profundidade o candidato trata o tema, já que este é problema urgente da humanidade, presa em uma bola (a Terra é redonda, ok?) que está em pleno aquecimento. E o tema também se justifica pela geografia de Joinville, que tem uma exuberante mata atlântica, área urbana industrial, uma grande área rural e a baía Babitonga.

Rodrigo se comprometeu com a proteção do cinturão verde da cidade, dos morros e dos mangues. Disse que trouxe o presidente da agência nacional de mineração para discutir regras sobre o setor. Chamou de hipocrisia um projeto que visava impedir a retirada de saibro na cidade. “A gente precisa ter regras claras, mas essas regras não podem trancar o desenvolvimento”.

Em suma…

Rodrigo Fachini é um político de transições, como vimos neste texto. Nasceu em Florianópolis, mas ainda criança veio para Joinville. Da esquerda tem ido em direção à direita, fixando-se mais ou menos pelo centro, pelo menos até aqui. De líder do governo na câmara, passou a ser um dos principais nomes da oposição. Candidato que há mais tempo havia lançado pré-candidatura, tornou-se o vice com o maior peso político do pleito. Percorrer esses caminhos sem quebrar a cara no muro ou cair no barranco exige uma habilidade que poucos políticos têm. E este, certamente, é um dos fatores que pode levá-lo, junto com Darci de Matos, à prefeitura. E, talvez, além.