Derian Campos é o estrategista político em busca de um mandato

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional” e a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina são personagens recentes. O novo presidente americano foi vice de Barack Obama, o que certamente pesou na vitória em 2020. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi herdou a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por figuras que chegaram ao poder pela função. Jango assumiu o governo, começou a implantar reformas e sofreu o golpe. Itamar criou o Plano Real. E a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que a população mal pode conhecer os candidatos titulares. Bom, até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Derian Campos me lembrou um amigo que queria muito ser candidato, mas que era bom mesmo como articulador e estrategista político. São talentos distintos que somente às vezes habitam a mesma personalidade. Não sei se Derian pode ser um bom candidato, já que a posição de vice, em uma eleição atípica como esta, com 15 candidatos, é uma amostra muito pequena para avaliar. Porém, na conversa de aproximadamente uma hora e meia que tive com ele, pude perceber que o candidato a vice de Dalmo Claro na chapa pura do PSL tem aptidão para a estratégia e vontade de ir além. Ele tem uma visão apurada para o cenário político-eleitoral, briga para fazer valer suas ideias e não guarda mágoas das batalhas perdidas – algo fundamental para quem almeja avançar na carreira. A reportagem explica como Derian Campos entrou para a política, pegou carona no bolsonarismo e forçou o partido a ter um candidato ao governo do estado, tornando-se dos principais articuladores da eleição de Carlos Moisés.

Derian faz parte de um pequeno grupo de brasileiros que atua nos negócios da família. Foi assim que chegou a Joinville, para abrir e administrar uma filial da indústria do ramo plástico. Mas não foi só o perfil de negócios que veio no pacote familiar, já que o gosto pela política também veio de casa. O avô materno, que era emedebista na época do sistema bipartidário da ditadura, foi vereador e candidato a prefeito de Ubatuba, no litoral paulista. O pai, Carlos Roberto de Campos, foi vereador em Garulhos, deputado estadual, deputado federal e secretário de turismo do estado de São Paulo, além de ter sido candidato a prefeito da cidade vizinha à capital paulista em três ocasiões (chegou ao segundo turno em 2008 e 2012), sempre pelo PSDB.

Eles não foram as únicas influências do jovem. Na adolescência, Derian viveu um período nos Estados Unidos e outro na Europa. Era uma vontade do pai, visando a formação do filho. Na Inglaterra, acompanhou admirado a sucessão da conservadora Margaret Thatcher pelo trabalhista Tony Blair. “Eu não entendia muito do assunto, mas já me interessava”. Para explicar como o interesse por política vem desde a infância, narrou uma lembrança muito viva dos primeiros anos de vida, sobre a morte de Tancredo Neves, o primeiro presidente eleito (indiretamente) após a ditadura. “Eu não lembro de muita coisa dessa fase, mas disso eu lembro muito bem”. A política influenciou até a escolha da faculdade. Em 1999, Fernando Henrique Cardoso escolheu o economista Armínio Fraga como presidente do Banco Central. Como Fraga era formado pela PUC-Rio, Derian optou por estudar economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Antes de concluir a faculdade, recebeu a tarefa da família para administrar negócios em Joinville, e aqui escolheu um novo curso: publicidade e propaganda na Faculdade Ielusc. Conta que foi ali que conheceu o prefeito Udo Döhler, na internamente famosa “revolta do estacionamento”, quando os estudantes chacoalharam o carro do empresário luterano que viria a ser prefeito. Na lembrança, o concorrente à prefeitura aproveitou para cutucar o atual prefeito: “Ali ele já mostrou que era autoritário”.

Joinville foi apenas um dos endereços de Derian ao longo do período que esteve mais dedicado aos negócios. Instalou e administrou uma unidade na Eslováquia e aproveitou uma “liquidação” pós crise de 2008 para instalar uma unidade em Detroit, nos Estados Unidos. Viveu, então, lá e cá, entre negócios e ensaios de participação política. A entrada de verdade no universo político só aconteceria depois que o pai largasse a carreira, algo que ocorreu por volta de 2016. Assim, em 2018, o paulista-joinvilense decidiu entrar de cabeça e em uma disputa acirrada: o governo de Santa Catarina. No fim, não deu para Derian aparecer ao lado do 17 na urna, mas ele foi fundamental para a eleição de Carlos Moisés, o desconhecido bombeiro que recebeu mais de 2,6 milhões dos votos catarinenses no segundo turno.

Derian Campos é natural de Garulhos e veio para Joinville aos 20 anos, para cuidar dos negócios da família

Meio liberal, meio conservador

Antes de falar sobre a importância de Derian Campos para a eleição de Carlos Moisés, é preciso entender melhor quem é Derian. Sou um repórter que gosta de falar de política e ideologia, sem dissociar as duas coisas, e acredito que entendo um pouco sobre o tema. Tento, em todas as minhas relações, entender qual é a ideologia do meu interlocutor, mesmo que a própria pessoa não tenha tanta clareza. Algumas dizem que não gostam de política e que não são “nada”, em termos ideológicos. Porém, basta conversar um pouco para ver os sinais para um lado ou para o outro, um liberalismo que aflora aqui, um autoritarismo que se revela acolá. Outras pessoas juram que são uma coisa, mas no meio da conversa se revelam outras. Já vi pessoas que se diziam de direita, por exemplo, querer arrancar a cabeça do patrão, fechar escolas particulares e universalizar o acesso à saúde e educação. Não faz sentido, né? Ideologia é uma coisa complicada mesmo.

No caso de Derian Campos, embora tenhamos falado bastante sobre o assunto, juro que não entendi muito bem. Ele é de direita, claro, mas na conversa aponta vários caminhos, oscilando entre liberalismo e conservadorismo. O próprio falou, em diferentes momentos, que essa é uma questão menor. O avô era do MDB, o pai do PSDB e o seu primeiro partido foi o PV. “Pra tu ter uma ideia, eu escolhi o PV porque a minha filha nasceu no dia da água… não, do meio ambiente”, revelou. Na ocasião, ele participou da campanha de Rogério Novaes.

Anos depois teve uma rápida passagem pelo PSB, o “partido socialista” que teve uma breve aventura à direita no estado. O leitor e a leitora de O Mirante já estão cansados dessa explicação, mas repito para quem chegou agora. O político pernambucano Eduardo Campos construía o projeto para chegar ao governo federal em 2014, apresentando uma “terceira via” para um país polarizado entre PT e PSDB. Ele precisava marcar presença em todos os estados e desceu à Santa Catarina para filiar Paulinho Bornhausen, alguém que jamais pode ser chamado de esquerda, mas com um sobrenome poderoso e capital político. Foi nessa aventura direitosa que o atual deputado federal Rodrigo Coelho chegou ao PSB. Com a morte de Eduardo Campos durante a campanha de 2014, em um acidente de avião na noite que deu uma grande entrevista ao Jornal Nacional, o PSB começou a se reconstruir novamente à esquerda. É por isso, inclusive, que o partido e Rodrigo brigaram, impedindo, inclusive, a candidatura do joinvilense à prefeitura. Ele seria um dos favoritos.

“Eu fui muito amigo do Rodrigo Coelho e na época o Ninfo König foi para o PSB. Os caras me convidaram e eu fui. ‘Mas é um partido de esquerda, de direita’, dizem. Cara, eu nunca me importei com isso, eu achava que esses caras fariam bem para o estado”, contou. Na época, ele virou vice presidente do PSB Joinville. “E depois, pra explicar?”, brincou.

Derian Campos participou ativamente da campanha de Jair Bolsonaro em 2018

Podemos cravar, contudo, que Derian é de direita, com variações liberais e conservadoras. Apesar da postura simpática à democracia demonstrada no encontro, ele votou, fez campanha e queria ser o candidato do cara que disse que queria “fuzilar a petralhada”, estimulou a perseguição de jornalistas e repetidas vezes desrespeitou a memória dos assassinados pela ditadura.

Em algum momento da conversa mencionou o estranhamento que sente quando candidatos de esquerda são pouco simpáticos com ele, nos encontros que a campanha proporciona. “Você vai cumprimentar os caras e eles ficam meio assim”. Como um sujeito que não consegue ser muito grosseiro mesmo quando quer, além do próprio compromisso que a minha função exige, entendi o que Derian quis dizer, mas como alguém de esquerda também entendo as indignações de militantes mais aguerridos com figuras célebres do bolsonarismo local. Diante de tudo isso, minha impressão é que Derian passa por cima de aspectos desagradáveis da direita porque o espectro atende melhor suas expectativas à direita. Além disso, Derian me parece sempre disposto a apostar no cavalo certo. Foi assim que parou no bolsonarismo e assim que ajudou a eleger um governador em Santa Catarina.

O pré-candidato que “elegeu” o governador

“Cê tá louco”. Foi assim que o pai, um experiente político, reagiu ao ouvir que o filho, sem experiência, queria ser candidato ao governo do estado em 2018. Isso não impediu Derian, que já observava o movimento e acreditava que o atual presidente iria atropelar na eleição, de articular a candidatura. Havia, porém, um muro quase intransponível: o próprio Jair Bolsonaro.

Segundo Derian Campos, o atual presidente não queria representantes específicos nos estados, já que podia ter “todos os candidatos” o apoiando, uma estratégia também adotada no pleito atual. Porém, o empresário de Joinville estava convencido da ideia e disposto a arriscar. “Os adversários, tanto do Bolsonaro quanto do Moisés, eram muito ruins”, afirmou.

O cara de Bolsonaro em Santa Catarina era Lucas Esmeraldino. Cada vez vez que Derian avançava sobre a pauta “governo do estado”, recebia um redondo “não”. Ordens do chefe. O joinvilense, então, resolveu dar a volta no tubaronense e tratar diretamente com quem mandava. Embarcou para Brasília e encontrou Jair Bolsonaro no Congresso Nacional.

“CADÊ O LUCAS ESMERALDINO?”

Foi assim que o ainda parlamentar recebeu Derian. “Eu não converso com ninguém de Santa Catarina sem o Lucas junto. E Santa Catarina não vai ter candidato a governador”, justificou, encerrando o papo e frustrando o empresário de Joinville. Derian contou para Esmeraldino, mas não desistiu da ideia. Continuou articulando a candidatura, enquanto o bombeiro Carlos Moisés da Silva era apenas um tesoureiro muito próximo do líder estadual.

Derian conta que começou a falar sobre a candidatura no início de 2018 em um grupo de WhatsApp com todos os candidatos e presidentes municipais do partido. Ele falava que era o único de Joinville que seria candidato a governador, era da direita conservadora e pró-Trump, coisas que o davam crédito como candidato. “Ninguém havia manifestado interesse pelo cargo e eu virei, naquele grupo, o candidato a governador”, explicou o joinvilense, que começou a atiçar a campanha na base do PSL.

O então tesoureiro Carlos Moisés; o principal articulador do PSL de SC, Lucas Esmeraldino; e Derian Campos, que queria emplacar a candidatura ao governo contra a vontade de Bolsonaro

Em determinado momento, segundo Derian, o grupo estava tão incendiado com a ideia que Lucas Esmeraldino foi obrigado a anunciar a pré-candidatura. Foi nesse momento que surgiu Carlos Moisés como candidato, articulado por Esmeraldino, que era candidato ao Senado. Quando ocorreu a convenção do PSL, o partido tinha três propostas à mesa: Derian, Moisés e não ter candidato, atendendo a vontade de Bolsonaro. Como Derian estava em São Paulo e não apareceu no dia, e a militância estava ávida por uma candidatura, o comandante dos bombeiros foi aclamado.

A candidatura de Moisés melou a relação de Bolsonaro com o PSL de SC. Segundo Derian, ele parou de falar com Lucas Esmeraldino naquele momento e o único apoio do líder bolsonarista ao candidato catarinense foi um videozinho mixuruca. Quando assumiu o governo, algo que conseguiu pela carona no cometa 17, Moisés também deixou de ser bolsonarista. Para Derian, que foi secretário de relações internacionais de SC, foi um erro que está relacionado à personalidade do governador afastado, ao qual faz críticas e elogios.

Em busca de um mandato

Com a eleição de 2018 e o racha de Moisés com o bolsonarismo, o poder do PSL ficou dividido em dois grupos. Derian, aliado ao governador, de um lado, e o deputado federal Coronel Armando, militar e bolsonarista roxo, de outro. O parlamentar descobriu que tinha a prerrogativa de ser presidente municipal e assumiu a função. Nesse período, Derian lançou seu nome como pré-candidato a prefeito. Armando também, e o racha municipal virou público.

A treta no PSL foi involuntariamente resolvida por Jair Bolsonaro, que decidiu criar um novo partido e levou o bolsonarismo mais radical junto. Hoje Coronel Armando segue no PSL, mas apenas para não perder o mandato, a já avisou que vai acompanhar o presidente assim que possível. Com isso, Derian voltou à presidência e à pré-campanha.

Derian, que foi secretário de assuntos internacionais no governo Moisés, já se mostrou um articulador preparado, mas sonha em entrar para a política como candidato eleito

Mas havia mais um muro, dessa vez estadual. O partido, segundo o agora candidato a vice, queria alguém mais experiente. O primeiro nome aventado foi o de Rodrigo Bornholdt (ex-PDT e atual PSB), que topou, mas desistiu da ideia dias depois. “Eu fui contra, não tinha nada a ver”, disse Derian. E não tinha mesmo, tanto que a informação chocou todo mundo que acompanha a política de Joinville à época.

Quando surgiu o nome do médico Dalmo Claro, Derian topou, mas não sem se indignar um pouco: “Por que não eu?”. Para Derian, as lideranças estaduais deveriam ouvi-lo mais, porque é ele quem está em Joinville e conhece a dinâmica local. Apesar de tudo isso, ele gostava do nome de Dalmo e ficou satisfeito com o convite para o vice.

O principal problema

Joinville é uma cidade muito desigual. Não é opinião, mas informação. Se alguém tiver dúvidas, terei prazer em levar a pessoa em um passeio pela cidade, mostrando a região central rica e a periferia pobre. Quando pensei neste projeto, sabia que esta seria a questão principal, que levei para todas as entrevistas. Contudo, propus um exercício diferente. Primeiro perguntei ao entrevistado sobre o principal problema da cidade, em termos gerais e históricos. Quero saber, de fato, o que a pessoa pensa e imagino que os leitores também queiram saber. Depois que respondem, afirmo que o principal problema é a desigualdade social, e peço para a pessoa avaliar e sugerir soluções. É aí que se revelam os entendimentos, as ideologias, o senso de prioridade e as propostas.

Para Derian Campos, o prefeito deixou a desejar na hora de dialogar e se envolver com os problemas, e isso é a origem de todos os problemas, que ele resume em quatro: mobilidade urbana, saúde pública, segurança pública e espaços de lazer. Apesar de mencionar na lista, Derian evita falar da falta de parques e se a cidade está feia ou não. “Eu acho que as pessoas têm necessidades diferentes. Você vai numa invasão lá no Morro do Meio falar de parque para o cara com carro importado brincar com as crianças? No lugar com o esgoto a céu aberto?”, comentou.

Quando falo de desigualdades, Derian diz que concorda 100% comigo. Ele lembra que em vários momentos da conversa falamos sobre problemas acerca da desigualdade, o que é verdade, e cita que há um “muro invisível” entre o centro e a periferia. Para Derian, se o prefeito se envolvesse com os problemas de verdade, o “prefeito derrubaria esse muro”.

Em suma…

Derian Campos adora política e já demonstrou ter tato para a coisa. Esta reportagem traz a versão dele sobre a eleição de Carlos Moisés, na qual teve papel fundamental. Talvez Lucas Esmeraldino, o governador (afastado) e o próprio presidente tenham versões diferentes, mas ela é bem crível quando a relacionamos com a cronologia dos fatos. Para mim, demonstrou uma visão apurada para o jogo chamado política. Embora eu deteste sua escolha pelo bolsonarismo, não pude deixar de achar que boa parte dela foi estratégia. Durante toda a conversa, Derian distribuiu mais elogios do que críticas para figuras de esquerda, centro e direita. Percebi, não só por isso, que sua genuína paixão por política o torna um bom jogador e que ele tende a continuar no jogo mesmo depois de passar a onda bolsonarista que ajudou a construir.