Voluntários desenvolvem sistema usado no enfrentamento à covid-19 em Joinville

Hoje, com alguns cliques no celular ou no computador, qualquer joinvilense pode agendar um teste rápido para descobrir se já teve com o coronavírus. Parece simples, mas nem sempre as coisas são como parecem. Além da disponibilidade de testes (um desafio orçamentário para as prefeituras), é preciso dispor de uma estrutura técnica para oferecer o serviço e suportar a demanda, algo que não surge em um passe de mágica. Esta é a história de como um grupo de desenvolvedores voluntários resolveu o problema.

Por volta do mês de abril, no início da pandemia de coronavírus, de uma epidemia de dengue e às portas de um possível surto de gripe, servidores da área de tecnologia da Secretária da Saúde decidiram pedir ajuda para profissionais de engenharia de software para desenvolver um sistema de agendamento para vacinação, o que evitaria aglomerações e facilitaria os processos para profissionais de saúde e para a comunidade. O projeto foi um sucesso, mas, após o fim da campanha, no meio do ano, a secretaria procurou o grupo com um desafio ainda maior: adaptar o sistema para agendar um grande volume de testes de covid-19.

Lauro (topo), Gabriela e Pedro formaram a equipe que desenvolveu o sistema de agendamento para a Secretaria da Saúde

Lauro Gripa Neto, que é engenheiro de software na Magrathea Labs, foi procurado e assumiu a tarefa. Líder técnico do projeto, ele contou com a participação dos voluntários Pedro Cervi e Gabriela Mafra para construir o sistema, que ainda teve colaborações pontuais de Gustavo Diel, Diogo Trentini, Vitor Batista, Vinícius Gasparini, Eduardo Fonseca, Daniel André da Silva e Alan Fachini, todos da Magrathea Labs. Além deles, atuaram no projeto os servidores da área de TI da secretaria, Denis Oliveira e Mateus Bittencourt.

“A gente não tinha uma noção clara de qual seria a demanda. Toda a parte de agendamento foi feita de forma voluntária, tanto o desenvolvimento do sistema, quanto o pagamento do servidor onde o sistema roda. Fizemos tudo o mais rápido possível, dado a urgência da situação”, revelou Lauro, que chegou a virar um fim de semana trabalhando junto com o grupo para entregar o sistema no prazo solicitado.

“Tivemos que sacrificar algumas horas de descanso, mas estou muito orgulhoso do trabalho de todo time, ainda mais por estarmos fazendo tudo de forma voluntária e aberta”, comentou.

O Agenda Saúde, como foi chamado o sistema adaptado, já recebeu mais de 50 mil visitantes únicos e mais de 1,2 milhão de acessos. Tem quase 31 pacientes cadastrados e mais de 17 mil agendamentos. Nas primeiras semanas, recebeu cerca de 1,5 mil visitantes por dia, com um pico de 7 mil visitantes no dia 21 de setembro, quando houve nova divulgação da Prefeitura.

“Curiosamente, aos poucos as pessoas começaram a aprender sobre o sistema e descobriram que as vagas são liberadas automaticamente na virada do dia, após a meia noite. Então os picos do sistema geralmente acontecem durante a tarde e bem no início da madrugada. Não estávamos preparados para essa demanda e isso gerou algumas instabilidades do sistema. Tive que correr pra aumentar a capacidade e permitir que as pessoas continuassem acessando. Nosso custo aumentou bastante e agora estamos vendo formas de desonerar os voluntários, mas o mais importante é que as pessoas estão conseguindo agendar suas vagas”, contou Lauro.

Apesar de todo o trabalho e dos custos, os voluntários revelaram grandes satisfação em poder contribuir, mostrando que todo mundo pode fazer algo dentro de sua área de atuação. Para Pedro Cervi, a pandemia de coronavírus é um dos maiores desafios da geração.

“Fiquei muito feliz de poder contribuir minimamente para enfrentar esse desafio mesmo que numa esfera local. Foi muito bom ver também que nesse cenário caótico muitas pessoas se sensibilizaram e buscaram fazer o que estava a seu alcance para lidar com esse problema”, afirmou.

Gabriela Mafra conta que é comum aos desenvolvedores a busca de projetos colaborativos, tanto para a demonstração de conhecimento ou para a prática de uma nova ferramenta, mas revelou uma satisfação especial com a oportunidade de contribuir em um projeto com tanto impacto.

Sistema recebeu mais de 1,2 milhão de acessos

Já Mateus Bittencourt, que atua na Secretaria da Saúde, revela a satisfação por ter feito a ponte entre a necessidade da comunidade e os voluntários que realizaram o trabalho. “Sinto que minha maior contribuição nesse projeto foi ter conseguido conectar essa demanda com desenvolvedores profissionais que abraçaram a causa. Sem eles o sistema não teria saído do papel”, destacou o servidor que também contribuiu na execução do sistema.

Tecnologia compartilhada

A tecnologia utilizada como base foi o framework Ruby on Rails. O código é aberto e está disponível para contribuição da comunidade no GitHub. Mais que isso, é permitido que o sistema seja copiado por qualquer prefeitura que queira ter uma uma versão própria em sua cidade. O próximo objetivo é tornar esse processo de cópia o mais simples possível.

O Agenda Saúde foi um dos temas abordados no Hacktoberfest Joinville, um evento realizado pela comunidade ligada à tecnologia em Joinville como parte do Hacktoberfest, um evento global que celebra o software de código aberto durante o mês de outubro.

Entre os vários eventos organizados, alguns encontros dedicados a contribuição em sistemas públicos como o Agenda Saúde, em que desenvolvedores apresentam o sistema para novas pessoas e, assim, possam recrutar mais voluntários que queiram colaborar na manutenção e evolução do sistema.


Texto: Felipe Silveira
Fotos: Arquivos pessoais