A Política em Joinville: Dez pontos negativos da campanha eleitoral

Por Felipe Silveira
Foto: Cedida por Eberson Theodoro

A coluna A Política em Joinville anda sumida, ocupada com as tarefas cotidianas do jornal e da campanha eleitoral, mas segue viva e vai surgir de vez em quando para comentar o cenário joinvilense. Isso vai ocorrer especialmente depois que passar a turbulência das eleições, porque um dos principais compromissos do jornal O Mirante é acompanhar o cotidiano da política da cidade durante o ano inteiro. E, para que isso possa ocorrer efetivamente, contamos com seu apoio, que pode ser a partir de R$ 1 por mês.

E vamos ao tema da coluna. Comento os principais pontos negativos da corrida à Prefeitura. Com pouco menos de um mês de campanha oficial e faltando menos de um mês para a eleição, em 15 de novembro, já é possível ter uma ideia da tônica deste pleito. Adianto que também comentarei os pontos positivos, mas estes exigem mais tempo de observação e reflexão. Vamos aos negativos:

1. Mesma historinha

Reduzir secretárias, asfaltar a cidade toda, cuidar das pessoas e do dinheiro público… Ok, são questões consideráveis, mas elas ocupam espaço demais das principais campanhas. Parece que só se fala nessas coisas, que só isso importa. Há propostas interessantes que poderiam ser melhor trabalhadas, mas elas somem na performance dos candidatos. Eles querem mostrar que são os melhores “cuidadores de pessoas”. A profissão de cuidador é série e, com o envelhecimento da população, promissora, mas a tarefa do prefeito é outra: administrar a cidade. O eleitor e a eleitora que são mais críticos sentem falta de apresentações mais pé no chão, menos sentimentais, que evidenciem a competência de quem quer gerir o município.

2. Tudo é muito fácil

É verdade que há muito vacilo na administração pública, o que gera demora na execução de projetos e obras, irritando as pessoas. Porém, a gestão da cidade tem muitos fatores que determinam a um ritmo diferente. Câmara de Vereadores, comunidades, Justiça, licenças, processos licitatórios, relação com servidores, orçamento limitado… tudo isso é relevante e exige atenção. Não é “só fazer”.

Os candidatos podem prometer tudo em tempo recorde, mas quem for eleito ou eleita não vai conseguir entregar. E quando o político se comporta assim, ajuda a despolitizar os eleitores, que vão cobrar depois sem compreender os processos devidos de uma administração municipal. O prefeito ou a prefeita pode se destacar por acelerar os processos, entregar obras e implantar ideias criativas, mas não vai ser em um estalar de dedos como alguns parecem sugerir em seus programas.

3. Sumiço de temas importantes

Direitos humanos, meio ambiente, cultura… Temas relevantes aparecem nos planos de governo, mas são obliterados nos discursos focados em cuidar das pessoas e reduzir a máquina pública. É raro ver algo mais detalhado sobre os temas que são urgentes, como o meio ambiente. Tudo isso é falado meio por cima.

“Vamos incentivar a cultura”, dizem. “Vamos investir em ciclo-mobilidade”, afirmam. Que diabo de promessas são essas? Não nos diz nada sobre o que o candidato vai fazer, de fato, ou se ao menos tem algum conhecimento sobre o tema. Com uma exceção ou outra, de um candidato que entende mais ou menos de algum tema, são ausências trágicas.

4. Contas não batem

Nem com o orçamento de São Paulo (SP) seria possível executar as promessas de algumas campanhas. Querem fazer tudo, em todos os lugares, resolvendo todos os problemas acumulados na história de Joinville. Não está errado ter proposta para todas as áreas, como cobrei logo acima, mas é preciso cuidar com o tom da promessa. Cada uma delas custa caro e o orçamento é limitado. Se o candidato promete o mundo, o leitor já sabe que não vai receber a rua.

5. Falta de debates

Isso não é culpa dos candidatos, mas talvez seja o ponto mais negativo do período eleitoral. Debate é fundamental à democracia e fazem muita falta. Eles ajudariam muito a resolver os pontos levantados acima. Seriam nos confrontos diretos que a sociedade saberia quem está mais preparado/a e quais são as respostas mais concretas. É no debate, e não na propaganda, que dá para ter mais noção mais clara sobre a postura e os valores dos prefeituráveis diante das questões apresentadas.

E aqui vale, mais uma vez, parabenizar estudantes de jornalismo da Faculdade Ielusc por terem realizado o primeiro e talvez único debate da eleição joinvilense, que pode ser conferido neste vídeo.

6. Excesso de candidaturas

Não tem o que fazer sobre isso. Os partidos tinham o direito de lançar as candidaturas, visando a construção da organização e/ou a contribuição que podem dar para a sociedade em uma eventual vitória. Mas é inegável que a quantidade, 15, atrapalha. Inibe a realização de debates por rádios e organizações e dissipa a atenção, do público e da imprensa. Um jornal que faz uma série de entrevistas, por exemplo, poderia fazer duas séries se houvesse a metade das candidaturas.

7. Assessorias minguadas

Falando em imprensa, vai uma reclamação sobre a falta de estrutura das assessorias. O compromisso de buscar e publicar informações é dos jornais, mas no ecossistema da produção de notícias, o papel das assessorias é fundamental. Os políticos ganhariam com a possível exposição. No entanto, há pouco material produzido pelas principais campanhas e nenhum das menores. Mais da metade dos candidatos não enviou nada para este jornal. Pode ser uma opção da coordenação de campanha, mas, na minha avaliação, é uma falha que evidencia falta de profissionalismo. Observo que a culpa não é dos assessores, mas das coordenações de campanha, que não contrataram equipes para dar conta de tudo.

8. Militância também

Considerando que cada partido tem um projeto para o país, a eleição é uma disputa para “vender” o projeto à sociedade. Assim, os partidos precisam ser fortes para que a sociedade veja neles a força da ideia. E a força de um partido está na militância. Não basta ter filiados. É preciso ter gente aguerrida que acredite na ideia e vá para a rua ou para as redes convencer as outras pessoas que tem a melhor ideia para a sociedade. São essas pessoas que vão fazer a campanha forte, que vão coordenar, montar comitê, organizar reunião, quebrar um galho na equipe de comunicação e por aí vai. E, de modo geral, a militância está fraquinha.

9. Público despolitizado

As redes sociais se tornaram um lugar insalubre, todos nós sabemos. O debate, nelas está muito ruim. Nos comentários, tanto de jornais quanto nas redes sociais dos candidatos, é só cornetagem. Sinto falta de discussões mais complexas sobre as propostas e sobre a política de modo geral.

10. Judicializações furadas

É preciso ficar de olho na conduta dos candidatos e partidos, mas é preciso cuidar com a maneira com a qual se explora as judicializações. Há algumas semanas, um candidato denunciou outro por suposta irregularidade e divulgou à imprensa. Eu não publiquei, mas teve gente que publicou. O juiz viu que não havia irregularidade e ficou por isso. As denúncias devem ser feitas, mas observo que o publico deve cuidar com a maneira como cada um explora a denúncia e o resultado judicial sobre elas.

Observação

A avaliação acima é genérica. É claro que alguns candidatos se apresentam bem, outros partidos têm militância aguerrida, algumas assessorias são boas e há propostas bem trabalhadas. Mas, em um pacotão geral, olhando à meia distância, destaco esses pontos negativos. Estão sujeitos à discordância, tanto do público quanto dos candidatos. Comentários em nossas redes sociais serão bem-vindos.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.