Jonathan Prateat fala sobre educação, design e combate ao racismo

Texto: Felipe Silveira
Fotos: Arquivo pessoal

No dia 27 de agosto, Joinville foi cenário de um crime cada vez mais comum no Brasil. Um grupo de vagabundos invadiu uma conferência online para fazer xingamentos racistas contra o designer e professor Jonathan Prateat, convidado do seminário Curricularizando a Extensão, promovido pelo Núcleo de Educação da Associação Empresarial de Joinville (Acij).

O objeto era impedir a fala do professor, obstruir o debate e dificultar que sua mensagem vá mais longe. É por esse motivo que O Mirante, além de noticiar o fato, perguntou para Jonathan Prateat sobre sua carreira, seus projetos e suas ideias.

Natural de Itajaí, Jonathan tem 37 anos e mora em Joinville desde 1999. Tem duas graduações (Design Gráfico  pela Univille e Produção Multimídia pela Anhanguera) e mestrado em Design e Expressão Gráfica. Como passou em primeiro lugar no vestibular e ganhou bolsa de 100%, cursou as duas faculdades ao mesmo tempo. Trabalha com design desde 2002 e como docente desde 2009. É professor dos cursos de Design e Publicidade Propaganda e das especializações em Design da Univille.

Na instituição, atua e coordena vários projetos, como Freeling – Design de Tudo, o escritório modelo de design e comunicação que insere os estudantes dos cursos em projetos reais de demandas oriundas de alguns setores da universidade, instituições de caráter cultural, artístico, educacional, social, ações sociais e microempresas e MEI. Também atua no Freeling Futuro, projeto que ensina introdução ao design e à publicidade para estudantes de ensino médio em escolas públicas de periferia.

Também está envolvido em uma pesquisa sobre o protagonismo dos imigrantes haitianos joinvilenses nas redes sociais e no Projeto Caminho Curto, que atua junto à comunidade quilombola Beco do Caminho Curto. O professor ainda faz parte do Comitê para Educação em Direitos Humanos da Univille.

Racismo e luta antirracista

Ele conta que chegou a criar, em 2005, juntamente com outras amigas e amigos, o Movimento de Consciência Negra Brasil-Nagô, mas logo teve que se afastar em função de estar cursando as duas faculdades e trabalhando. “De lá pra cá, minha relação com causas sociais vieram do meu trabalho como docente. Quase todos os projetos que desenvolvo com meus estudantes, e os debates em sala de aula, tratam de questões relativas à negritude, mas também com muita abertura para que outros grupos se manifestem, como LGBTQIA+, mulheres, imigrantes, entre outros”, comenta.

Para o professor, o Brasil nunca conseguiu aprender a não ser racista. Ele destaca que algumas leis e a pressão de movimentos sociais vem contribuindo para mais representatividade e debates em espaços anteriormente inacessíveis, isso nos últimos anos, e muitíssimo pouco perto do que deveria. “No entanto, o racismo do cotidiano, a manutenção da invisibilidade negra na política, na educação, na mídia, nos espaços de poder, o olhar racista do dia-a-dia, permanecem”.

Jonathan destaca que são poucos os negros e negras com poder de influenciar decisões, principalmente nas esferas políticas maiores, e que este é um momento crítico no qual discursos de figuras de poder ratificam o racismo. Segundo ele, a negativa a ações afirmativas mostram o quanto há grupos interessados em manter a estratificação social como ela foi construída a partir do colonialismo e da escravidão.

“Vivemos tempos em que a violência interessa mais do que a educação. Deseja-se armas, mas não a real inclusão da história e cultura afro-brasileira nas escolas. Armas que matam quem? Ausência de educação para continuar ignorando a quem? Questiona-se a ciência, e violenta-se as religiões de matriz africana. Questiona-se a violência na cidade, violentando a população com a segregação, com tiros, socos e outras desumanidades, culpados ou não. A justiça não vale do mesmo modo para todos. E todxs tem cor. Casos como o meu são apenas uma ponta pequena de iceberg, quando o país precisa olhar para o que está oculto aos olhos. Ocultos porque os olhos estão fechados, não porque o racismo esteja escondido” aponta.

O caso em questão é a invasão do seminário. O professor foi convidado para falar, junto com a professora Sirlei de Souza e a bolsista Kamila Baek, sobre o projeto desenvolvido junto à comunidade do Beco do Caminho Curto. Na ocasião, sua fala foi interrompida por alguém que invadiu a live e começou a proferir xingamentos racistas. O invasor ainda inseriu um vídeo de sexo na tela e o seminário foi cancelado para ser realizado em outra data. Para Jonathan, é preciso que haja um esforço de profissionais de tecnologia para mais segurança, sobretudo com o advento das reuniões virtualizadas decorrentes do isolamento social.

“Além disso, todos os crimes de racismo precisam ser tratados como crime de fato, julgados, e seus criminosos punidos. E, mais importante ainda, a educação não pode ser mais um projeto de segregação, ensinando apenas parte da história, mas de inclusão”, finaliza.

Professor Jonathan Prateat e turma de estudantes

Enfrentamento ao racismo no design e na educação

Segundo Jonathan Prateat, o design ainda é um campo bastante branco, e isso se dá por vários fatores. Um deles é que campos que se relacionam com arte ou tecnologia acabam se tornando secundários para grupos cuja necessidade de sobrevivência surge ainda na infância ou adolescência. Assim, a busca por profissões que não exijam formação, ou ainda, a formação em profissões que tradicionalmente admitem com frequência, é prioridade.

“Além disso, o curso é caro, exige tempo, treinamento, inserção em tecnologia, acesso a coisas que o povo negro, em sua maioria, ainda não tem à mão. Mais ainda, as expressões estéticas e culturais exibidas no design, têm referências eurocêntricas, e quando reproduzem negritude, é a partir de esteriótipos e clichês”

O professor, que já foi convidado para falar sobre “Design Preto Brasileiro” pela Associação de Designers Gráficos do Brasil, espera que as associações e grupos de designers do país trabalhem em ações que possam levar o design a espaços negros, a expressar negritude, a ampliar seu potencial por meio da diversidade.

Já no que tange à educação, Jonathan defende a necessidade de falar sobre negritude, história negra, religiões de matriz-africana, África e suas contribuições e estética negra. “Piadas, bullying, desrespeito e eurocentrismo no ensino são nocivos para a manutenção do racismo na educação”, afirma.

Notas de repúdio

O caso de racismo motivou a publicação de diversas notas de repúdio sobre o tema. A Univille prestou solidariedade e disse que o caso “mostra também a urgência de se promover mais ações de ensino, pesquisa e extensão voltadas para as questões raciais, sobretudo quando o racismo estrutural se apresenta de forma tão evidente”.

O Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) destacou que, desde o início da pandemia, situações como esta vem se repetindo em videoconferências e outras formas de encontro virtual. “É inadmissível que esses discursos e atos de ódio continuem ocorrendo e, desta forma, o COMPIR, através de seus conselheiros, se solidariza com o Professor Jonathan Prateat e presta total apoio para que medidas cabíveis sejam tomadas”, registra a nota.

O Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), por meio do setorial de Cultura Popular, Diversidade e Identidade, repudiou o ato racista: “Qualquer tipo de preconceito e discurso de ódio não deve ser tolerado. Reconhecemos a importância da diversidade em nossa formação cultural e social. É ela fonte de nossa riqueza”.

De acordo com matéria do veículo G1, a polícia civil investiga o caso.