Isolamento social reduz acidentes de trânsito e aumenta incêndios em Joinville

Reportagem: Bruno Nunes
Edição: Fernando Costa
Foto: CBMSC

O estado de emergência decretado pelo governo de Santa Catarina há exatamente cinco meses atrás, no dia 17 de março, por conta dos primeiros casos de covid-19 no estado, estabeleceu medidas de isolamento social que, do momento do decreto até o dia 13 de abril deste ano, quando começaram as flexibilizações, resultaram numa queda de 33% na média de acidentes de trânsito em Joinville, em comparação com o mesmo período no ano anterior. Por outro lado, o isolamento contribuiu para um aumento de 145% no número de incêndios na cidade ao analisar os mesmos períodos de tempo.

O levantamento é resultado da análise de mais de 3,9 mil ocorrências registradas pelo Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville (CBVJ) entre 2019 e o primeiro semestre de 2020, realizado a partir da utilização de um algoritmo que coletou dados de todas as ocorrências publicadas na conta do Twitter do CBVJ.

O período de isolamento social decretado pelo governo estadual durou 28 dias. A suspensão do transporte público e de serviços não essenciais — como comércio, shoppings, bares e academias — fez as pessoas passarem mais tempo em casa. Após afrouxamento das medidas de combate ao coronavírus, número de ocorrências voltou a subir. Mesmo com a diminuição temporária, o número de ocorrências no primeiro semestre foi ligeiramente maior do que no ano passado.

De acordo com Carlos Kelm, comandante do CBVJ, a diminuição do número de ocorrências por conta do decreto estadual foi sentida pelos bombeiros. “Eu lembro que naquela época as ambulâncias ficavam mais tempo paradas aqui. Geralmente são dez ou 12 ocorrências por dia, mas naquela época não foi assim”.

As emergências na cidade são divididas entre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o CBVJ. O primeiro atende casos clínicos, que ocorrem quando alguém está doente ou passa mal. Já os bombeiros cuidam das ocorrências com trauma, que é o caso dos acidentes de trânsito, por exemplo. Assim, a diminuição no número de ocorrências dos bombeiros significa menos gente indo parar nos leitos de hospital, um dos recursos mais valiosos no combate à covid-19.

O tipo de acidente de trânsito que os bombeiros mais atendem é entre carros e motos, representando mais da metade (55,9%) do total. Também é o acidente que costuma trazer mais riscos aos envolvidos, já que os motociclistas têm pouca ou nenhuma proteção. Foi justamente esse tipo de ocorrência que teve a queda mais significativa durante o período de isolamento. A partir da quarta semana de isolamento, o número voltou a crescer.

Além da maior circulação de gente por conta da flexibilização, um dos fatores que contribuiu para o aumento foi a entrega de comida, alternativa usada enquanto os restaurantes estavam fechados. O aumento da atividade dos entregadores deixa eles mais sujeitos a acidentes. Segundo o comandante Kelm, as ocorrências dos bombeiros não tem registros de profissão, mas é muito comum ver motos acidentadas com caixas de entrega.

Ao mesmo tempo em que diminuíram os acidentes enquanto as pessoas ficaram em casa, outra ocorrência passou a se tornar mais comum: os incêndios. De uma média de 9,45 por semana, as ocorrências de incêndios saltaram para 27,6 por semana após o decreto que estipulou o isolamento social. Isso representa um aumento de 191% no número de incêndios semanais. A maior parte são incêndios em vegetação.

De acordo com o comandante da CBVJ, o aumento é uma combinação entre um período de seca com o aumento do tempo das pessoas em suas casas. “As pessoas estão dentro de casa e decidem queimar lixo ou capinar o terreno e queimar o capim que cortou. Aí, com o mato seco, o vento espalha a brasa e pega fogo no terreno do lado”, afirmou.

A maior parte das ocorrências de incêndios no primeiro semestre de 2020 está concentrada na zona sul da cidade, especialmente em bairros como Paranaguamirim, Fátima e Adhemar Garcia. A explicação é o fato de serem bairros muito populosos que ainda contam com áreas verdes e terrenos vazios entre os loteamentos.

Apesar de preocupantes, os incêndios em vegetação não costumam resultar em mortes ou ferimentos. Ainda sim, que colocar fogo em lixo doméstico é crime ambiental e pode inclusive resultar em multa e até quatro anos de prisão.