Para prevenir covid-19, empresa distribui remédio sem comprovação científica

Reportagem: Lucas Koehler

A empresa de engenharia Luzville, em Joinville, está distribuindo ivermectina aos funcionários com objetivo de prevenir a covid-19. O medicamento está sendo entregue apenas para empregados que se voluntariaram ao projeto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Infectologia não recomendam o medicamento para tratamento ou prevenção da doença causada pelo novo coronavírus.

Ivermectina está sendo distribuído para funcionários da Luzville

Segundo uma funcionária que pediu anonimato, o setor de Recurso Humanos (RH) da empresa realizou um comunicado perguntando quem teria interesse em tomar “um remédio para verme que também é preventivo ao novo coronavírus” e que “um dos proprietários da empresa tinha tomado ivermectina e decidiu disponibilizar para os empregados que tinham acordo em tomar”.

Além disso, a funcionária explica que foram entregues seis cápsulas para tomar três comprimidos a cada dois dias. “Não sei se tem eficácia, mas como sei que remédio para vermes não tem contraindicação, tomei”, fala. Ela conta que o comunicado do Diálogo Diário de Segurança (DDS) da empresa ressaltava a contraindicação para pessoas hipertensas e com problemas de estômago, mas, fora isso, “não aconteceria nada grave”.

A distribuição da ivermectina, segundo a funcionária, foi realizada nos dias 13 e 14 de julho. “A maioria dos funcionários aceitou o medicamento”, conta.

Até o momento, apenas um funcionário da empresa testou positivo para a covid-19, porém, estava viajando e não teve contato com outras pessoas da Luzville. Ela afirma que todos os empregados usam máscara, utilizam álcool em gel e têm outros Equipamentos de Proteção Individual (EPI) à disposição.

O que diz a empresa

A empresa indica que se tome de dois a três comprimidos por dia, conforme o peso da pessoa

O gerente de RH da Luzville, Renan Rezende, explica que a ideia da distribuição de ivermectina para os funcionários surgiu após diretores da empresa consultarem com especialistas da saúde em São Paulo e Rio Grande do Sul e receitaram o remédio para amenizar ou prevenir o novo coronavírus. “Como somos prestadores de serviços, propomos para quem quiser, de forma voluntária, tomar o remédio”, diz.

Segundo ele, como em Joinville o número de casos está aumentando, a empresa pensou como poderia ajudar no combate ao vírus. “O objetivo é fazer a prevenção, aumentar o cuidado. Além de disponibilizar todos os EPIs adequados”, ressalta. Renan fala que não tem o número exato de pessoas que aceitaram tomar o medicamento, mas que na matriz joinvilense a aceitação foi boa.

Para o gerente, mesmo sem comprovação científica e não sendo recomendado pela Anvisa, a ação não perde sua proposta. “Como é uma forma preventiva e espontânea, cada pessoa que entender que o remédio possa ser útil, o medicamento está disponível. Se não quiser, não tem problema. Aceitar não é um regramento da empresa”, comenta.

Renan diz que a iniciativa não é realizada pensando apenas no coronavírus, mas como no combate aos vermífugos. “Eu até brinco, se não der certo para o covid-19, como alguns especialistas dizem, faz bem para outras situações”, fala.

A ação de distribuição da ivermectina não tem prazo para terminar na empresa.

Sem provas científicas

Até o momento, não existem provas ou pesquisas científicas que provam a eficácia da ivermectina à prevenção ou combate do covid-19. No dia 10 de julho, a Anvisa publicou uma nota afirmando que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da Covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”. E que “até o momento, não existem medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da Covid-19 no Brasil”.

Em junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu uma nota contra o uso da ivermectina enquanto não surgirem resultados de testes em humanos. Em julho, mais de mil médicos catarinenses lançaram um manifesto contra o uso do medicamento durante o tratamento da doença.

Para Marcelo Mulazani, médico infectologista, não existe prevenção à covid-19. “Isso já está bem descrito, como nos relatórios da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). E existem até determinação para não usar esse medicamento. A ivermectina é apenas um vermífugo, não faz nenhum sentido usar esse tipo de medicação contra o coronavírus”, afirma. O infectologista ainda diz que existem outras contraindicações, como para gestantes e crianças.

Segundo a Prefeitura de Joinville, o município não está utilizando o remédio na rede pública de saúde com a justificativa que “não há referencial para uso deste medicamento para combater o coronavírus”. A Prefeitura está avaliando o remédio, mas, até o momento, não tem posição oficial sobre uso ou distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade.


Foto: Prefeitura de Itajaí