Um mês de transporte coletivo: usuários relatam descumprimento de medidas

Um mês após a volta do transporte coletivo, o número de casos de covid-19 em Joinville aumentou em 560%

Reportagem: Camila Freitas
Edição: Fernando Costa
Foto: Mauro Arthur Schlieck/CVJ

Há aglomeração de pessoas no embarque e desembarque dos ônibus – Foto: cedida por Alexandre Hyppolito

Joinville é a cidade com maior número de casos de covid-19 em Santa Catarina. Desde a volta do transporte coletivo, no dia 8 de junho, a maior cidade do estado passou de 508 casos confirmados para 3.354 mil, tendo um aumento de 560%.

O mês de junho começou com um novo decreto do governo estadual, o 630. O documento permitiu que os municípios possam estabelecer medidas próprias de combate ao novo coronavírus.

No dia 2 de junho, a Prefeitura de Joinville publicou a portaria 113/2020, antecipando a volta do transporte coletivo e definindo regras para “ônibus, micro-ônibus, furgões e demais veículos destinados ao transporte coletivo de passageiros”.

Entre as regras de higiene e limpeza apontadas no documento estão: a desinfecção dos veículos duas vezes ao dia; a circulação dos mesmos com as janelas abertas; lotação máxima de 60% da capacidade dos ônibus; a não utilização do meio de transporte por pessoas acima dos 60 anos e o uso obrigatório de máscara de proteção.

No dia 17 de junho, nove dias após o retorno do transporte coletivo, o secretário da Infraestrutura Urbana Romualdo França, afirmou, em reunião virtual da Comissão de Cidadania da Câmara de Vereadores de Joinville, que o limite de lotação de 60% da capacidade dos veículos estava sendo cumprido pela empresas que operam o serviço na cidade.

Um mês após a liberação do transporte coletivo, ainda há joinvilenses que relatam situações de descumprimento das regras apresentadas pela prefeitura, como o não uso de máscaras, a não abertura de janelas, a lotação dos ônibus e aglomerações nos terminais.

Usuários apontam descumprimento das medidas

“Dependendo do horário e da linha de ônibus, é possível ver várias pessoas em pé e todos os bancos ocupados, praticamente lotado. Onde fica o distanciamento?”, pergunta a auxiliar administrativa Thaís Kamanski, de 23 anos, moradora da zona Leste da cidade.

Já o designer Alexandre Hyppolito, de 21 anos, percebe que o número de passageiros diminuiu, mas as pessoas não estão cumprindo o distanciamento mínimo de 1,5 metro indicado pela OMS. “No terminal não estão cumprindo distanciamento, a hora que o ônibus chega dá um leve aglomero, e os 1,5 metro, onde ficam?”, questiona.

Ele acredita que o cuidado na utilização do transporte coletivo deve ser preocupação do passageiro e da empresa de transporte: “ninguém precisa me avisar o que é certo e o que é errado, mas acho papel da empresa averiguar e reclamar”.

A auditora Jeniffer Krueger, de 20 anos, afirma já ter utilizado, no retorno do trabalho, ônibus com lotação maior do que é permitido: “Nos horários de pico o limite não está sendo respeitado, sempre estão cheios, com muito mais que 60% [da capacidade]”.

Passageiros não fazem o uso correto das máscaras de proteção – Foto: cedida por Thaís Kamanski

Uso de máscaras de proteção

“O motorista das linhas que utilizo e os profissionais da Gidion/Transtusa utilizam máscaras corretamente, mas muitos passageiros fazem o uso de forma incorreta, com o nariz de fora, por exemplo”, relata Thaís.

Mesmo percebendo uma assiduidade nos passageiros sobre uso de máscaras, Alexandre nota que tem usuários descumprindo a portaria: “vi um senhor tirando a máscara da frente da boca para poder falar com uma mulher”.

Janelas fechadas e emperradas

De acordo com a portaria 113, as linhas que não possuem janelas travadas devem circular com as mesmas abertas, mas Thais, Alexandre e Jeniffer já notaram falhas nesse cumprimento.

“Nos dias de chuva as janelas chegam a ficar embaçadas, porque estão todas fechadas. Mesmo nos dias de sol, várias janelas ficam fechadas”, afirma Thaís. E a passageira, que utiliza as linhas Comasa/Iririú e Iririú/Centro, afirma que há janelas emperradas nos ônibus, “que não são possíveis de abrir”.

Alexandre e Jeniffer, que utilizam as linhas Norte/ Sul, observaram um maior volume de janelas abertas, mas também lembram que há janelas emperradas, fator que diminui a circulação de ar dentro dos ônibus.

O que diz a Vigilância Sanitária

De acordo com a Vigilância Sanitária, os ônibus que compõem a frota do transporte coletivo joinvilense variam na sua lotação, tendo diferentes capacidades de acordo com o modelo.

Segundo o órgão, o número de passageiros – levando em consideração a capacidade máxima de 60% – nos veículos pode variar entre 79 e 24 pessoas, dependendo do modelo do veículo.

A Vigilância Sanitária explica que a lotação dos ônibus, de 60% da sua capacidade nominal, está sendo cumprida, conforme previsto na portaria, permitindo o transporte de pessoas sentadas e em pé.

“Informamos ainda que, em média, os ônibus convencionais dispõe de 34 assentos, ou seja, nesta média, ainda cabem 17 pessoas em pé, o que aparentemente dá a sensação de excesso de passageiros”, afirma o órgão.

O que dizem as empresas que operam o serviço

Para ilustrar como fica a capacidade atual de 60% em um ônibus comum, a assessoria das empresas Gidion e Transtusa criou uma imagem onde apresenta um ônibus com capacidade de 85 pessoas sendo ocupado por 51 (60% da lotação máxima):

Com 51 pessoas dentro de um ônibus, 35 passageiros poderiam ir sentados, enquanto 16 iriam em pé. A partir da imagem disponibilizada pela assessoria das empresas, é possível ver que a lotação de 60% não respeita a recomendação da OMS de distanciamento de 1,5 metro entre as pessoas.

A assessoria das empresas Gidion e Transtusa informa que, para evitar o aglomero de pessoas dentro de um coletivo, disponibiliza, nos horários de pico, frotas extras nos terminais.

Higienização e fiscalização

Ônibus são higienizados com produtos que agem durante o dia – Foto: Prefeitura de Joinville

A Prefeitura de Joinville explica que os terminais são higienizados durante a madrugada e que a higienização diária interna dos ônibus é monitorado por fiscais da Vigilância Sanitária.

A fiscalização conta com apoio da Secretaria da Infraestrutura Urbana, atuando nos terminais para orientar o distanciamento social, o uso de máscaras e demais exigências da portaria, como também as barreiras de medição de temperatura e de testagens rápidas.

Responsabilidade dos usuários

De acordo com a Vigilância Sanitária, a sensação de lotação dos coletivos se dá pelos passageiros em pé: “Em média, os ônibus convencionais dispõem de 34 assentos, ou seja, ainda cabem 17 pessoas em pé, o que aparentemente dá a sensação de excesso de passageiros”.

O órgão ressalta que foi permitida a retomada das atividades para esse serviço contando com os cuidados dos passageiros sobre evitar conversar no ônibus, o uso de máscaras e higienização das mãos.

Já a Prefeitura de Joinville afirma que a segurança dos passageiros deve ser também de responsabilidade dos mesmos, evitando aglomerações nos momentos de entrada e saída dos ônibus.

Canais para denúncias

A assessoria das empresas de transporte coletivo afirmou desconhecer os problemas citado pelos passageiros, mas disse que irá verificar e arrumar as linhas informadas. Também reforçou a utilização do Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) que é disponibilizado para o recebimento de informações e denúncias: 0800 47 5001.

Para a realização de denúncias relacionadas ao não cumprimento das medidas estabelecidas para o funcionamento do transporte coletivo na cidade, a Prefeitura de Joinville disponibiliza o canal Web-Saúde, por meio do WhatsApp (47) 3481-5165, além da Ouvidoria, que pode ser contactada através do e-mail [email protected] ou via formulário online.