12 horas pedalando: a rotina de entregadores de aplicativos

Reportagem e foto: Lucas Koehler

O celular vibra. Nova notificação: é hora de trabalhar. Mochila nas costas, pé no pedal. Assim começam e terminam as diversas entregas realizadas para diferentes bairros, que pedem diversos pratos para almoçar, lanchar e jantar. Entregar comida durante o dia todo. Essa é a rotina dos entregadores de aplicativos que trabalham de bicicleta.

Em Joinville, Luan de Souza, de 18 anos, trabalha para o Uber Eats há duas semanas. Esse é o seu primeiro emprego. Amante do teatro, chegou a fundar, no começo do ano, com outras oito pessoas, um novo grupo na cidade. Entretanto, a pandemia do novo coronavírus mudou os rumos da sua vida. A arte deu espaço para o socorro financeiro. Sem palco, o rapaz explica que seu principal motivo para começar a trabalhar com aplicativos foi para ajudar o grupo com algum dinheiro que recebe com as entregas.

Por não ter carteira de habilitação, a bicicleta foi a sua única alternativa. Apesar de estar há poucos dias na função, o cadastro foi realizado há mais de um mês. A dificuldade em comprar a mochila — ou a “bag“, como costumam chamar —, atrasou o início. “Tive que comprar pela internet, com meu próprio dinheiro, a bolsa que levo os alimentos”, explica Luan, que precisou desembolsar R$ 70 para começar a trabalhar.

Sua rotina de trabalho exige que o almoço seja ainda pela manhã, pois às 11 horas ele vai para a rua. Dela, quando o movimento de pedidos é intenso, só sai às 23 horas. São 12 horas diárias de trabalho. “Se movimento estiver bom eu fico o dia inteiro na rua. Eu sempre estou comprando uma coisinha para estar me alimentando”, afirma.

Nanderson Fernandes, de 19 anos, tem um cotidiano parecido. Ele encontrou nos aplicativos de entrega uma saída durante a pandemia que, segundo ele, fechou as portas de emprego na cidade. “A única opção que me restava era trabalhar nessa área”, diz. Por não ter habilitação, também teve que recorrer à bicicleta para realizar o trabalho.

Nanderson trabalha como entregador há dois meses – Foto: Lucas Koehler

Há dois meses trabalhando para o iFood e Bee, Narderson inicia a jornada de trabalho às 11h30 e termina às 23 horas. Por vezes, o horário é estendido até a madrugada. “Eu fico até 1 hora da manhã porque geralmente faltam entregadores nesses horários”, justifica.

Antes, o jovem trabalhava no Opa Bier, na praia da Enseada, em São Francisco do Sul. Lá, também sem registro na carteira de trabalho, o salário era de R$ 1.700. Agora, ganha metade do antigo valor, variando entre R$ 800 e R$ 900 por mês.

O lazer e o descanso não estão nos planos dos fins de semana. Para Luan, sábado e domingo são dias para fazer o salário. As entregas costumam ser próximas do Centro. “Gloria, América, Iririú e Boa Vista. Quando são bairros da Zona Sul, como Adhemar Garcia ou Fátima, o número de pedidos cai”, analisa.

Por ser iniciante, Luan costuma receber R$ 50 por dia. Quem está há mais tempo na área, segundo ele, recebe até R$ 130. “Em um mês, se eu trabalhar todo dia, vou receber R$ 1.200”. Os aplicativos incentivam a busca por merecimento. O jovem de 18 anos diz que existem três níveis no aplicativo: ouro, platina e diamante. “Se eu for evoluindo no aplicativo, posso ganhar até R$ 3.000 mensais, mas tem que trabalhar todo dia e ter muita dedicação”, ressalta.

Os sentimentos pelo aplicativo são contraditórios. Ele pensa que as principais vantagens desse setor é ter descontos em locais da saúde e em algumas faculdades. A sensação de liberdade também o motiva. “O horário de trabalho sou eu quem escolho, não tenho supervisor ou patrão. Eu mesmo sou o chefe”, fala.

No entanto, as dificuldades acompanham os quilômetros pedalados. Luan critica as condições que os entregadores precisam se submeter. “Você se cadastra no aplicativo e não ganha nada, precisa comprar tudo. Até a mochila, de R$ 70, é você quem paga. A manutenção da bicicleta também é por sua responsabilidade. Não ganhamos segurança ou instrução, nem o colete luminoso. Eles deveriam pensar mais nas pessoas que estão na rua”, desabafa.

Narderson reclama que a Bee e o iFood não oferecem nenhum tipo de suporte ao entregador. “Se acontecer algo comigo, serei imediatamente removido da plataforma. Eles não querem ter nenhum vínculo de responsabilidade”, critica.

Ele lembra que já foi hostilizado por clientes e acusado de roubar lanches. “Já me humilharam duas vezes. É difícil, mas dependo desse trabalho para ganhar o ‘pão'”, explica Nanderson. A primeira situação desagradável que passou foi com uma mulher que “aparentava ter 25 anos”. “Ela perguntou se eu não poderia procurar uma coisa melhor para fazer em vez de ficar vagando o dia todo pelas ruas”, conta.

Na segunda, a tensão foi maior. Ele lembra que buscou um lanche no Centro com o destino de entrega no bairro Iririú. Apesar da chuva, Nanderson explica que fez o possível para chegar o mais rápido possível e sem molhar a comida. A recepção foi negativa. “Mal fiz a entrega e uma mulher me mandou um texto que dizia assim: “Olha só, espero que o meu lanche não chegue frio aqui na minha casa, porque é a terceira vez que eu estou pedindo e nunca entregam para mim. Vocês sempre roubam os nossos lanches ou entregam pela metade”, recorda-se da história pouco saborosa.

Trabalhar de bike na “Cidade das Bicicletas”

Historicamente, Joinville possui apelidos que permanecem vivos até hoje no imaginário e vocabulário da região. Um deles é que o local é a “Cidade das Bicicletas”. O meio de transporte, que foi popularizado pelos trabalhadores operários a partir da década de 40, atualmente não é mais prioridade no trânsito. Os automóveis são a maioria nas ruas. Segundo dados do Detran/SC, a frota de carro na maior cidade catarinense é de 271.591. Já as motos somam 57.979.

Para o urbanista Charles Henrique Voos, Joinville não merece mais esse título. Ele afirma que a cidade não tem projeto para as bicicletas e não há ligação do uso delas com o controle do uso do solo. “O número de viagens de bike e rede cicloviária na cidade é baixa para termos esse apelido. A prioridade é para os carros”, analisa.

O urbanista pensa que, na atual infraestrutura de Joinville, os entregadores trabalham com maior vulnerabilidade. “Até o tempo corre contra esses trabalhadores, pois precisam se deslocar de uma maneira muito mais rápida do que quem pedala por lazer, por exemplo, que podem escolher o trajeto e fazer paradas durante o passeio”, reflete.

Para Charles, a cidade precisa ser rapidamente acessada, seja a pé ou por bicicleta, sendo necessário organizá-la de uma forma mais compacta e com uma estrutura que beneficia os meios de transportes não motorizados. “Não adianta criarmos quilômetros de ciclovias se a periferia está cada vez mais distante dos postos de trabalho, ou do que chamamos de ‘cidade oficial'”.

Luan Souza, de 18 anos, trabalha como entregador para a Uber Eats – Fotos: Lucas Koehler

Luan afirma com convicção: “Eles falam que Joinville é a Cidade das Bicicletas, mas as condições não existem”. Ele explica que as ciclovias só existem nas avenidas principais e reclama da qualidade do asfalto, que “é cheio de buracos e remendos”.

Nanderson fala que boa parte da cidade sequer tem ciclofaixas. Às vezes, tem que usar as calçadas e passar pelo meio dos pedestres. “Nas ciclovias têm cacos de vidro e pregos que furam os pneus umas três vezes por mês”, reclama.

Empregadores virtuais

Desemprego, crise econômica, sensação de não ter supervisores. A necessidade alimenta a existência dos aplicativos e de seus trabalhadores. Para a socióloga Valdete Daufemback, as pessoas optam por trabalhar na precariedade por conta de liberdade, para não ter patrão, podem se encaixar em duas situações: são movidos pela ideia de “empreendedorismo”, trocando direitos trabalhistas por vantagens de não “contribuir com o governo” com pagamentos de impostos, ou, enquanto empregadas formais, eram tão submissas a uma rotina de trabalho exaustiva e sem valorização que buscam essa falsa impressão de liberdade. “No fundo, desejam um patrão invisível, um aplicativo que lhes favoreça isso”, pensa.

Valdete diz que o mercado atual é voraz, competitivo e enganador. Ela ressalta que durante e após a pandemia da covid-19, os empregadores devem encontrar possibilidades para “uberizar” outros setores, como o da educação. Para ela, as pessoas terão que fazer como no século 18 para encarar as novas formas de empregabilidade, se organizando em associações e cooperativas.

A advogada Larissa Feldhaus explica que os aplicativos que intermedeiam serviços, como iFood, Bee ou Uber Eats, não tem qualquer vínculo ou responsabilidade trabalhista com as pessoas que realizam serviços por eles. Os entregadores são considerados prestadores de serviços autônomos que captam clientes através dos aplicativos.

Porém, para ela, as leis de trabalho devem ser interpretadas junto a realidade das pessoas que são afetadas, inclusive na rotina dos entregadores de aplicativos. “Existem diversas decisões judiciais reconhecendo o vínculo de emprego, mas tanto o Supremo Tribunal Federal (STF), quanto o Tribunal Superior do Trabalho (TST) negam o vínculo, tratando os motoristas e entregadores como autônomos”, explica.

Larissa pensa que os aplicativos, a legislação e os juízes precisam de um olhar mais humanizado para avaliar a situação. Ela afirma que não é razoável que seja permitido a um trabalhador ter jornadas extensas, com baixa remuneração e nenhuma contrapartida que lhe seja benéfica. “A ideia que essas pessoas ‘trabalham quando querem’ é uma falácia no mundo de hoje. Não há querer, mas uma extrema necessidade de se manter vivo”, critica.

Entregadores realizam paralisação em São Paulo – Foto: Treta/Reprodução

Mesmo com normas e leis trabalhistas regulamentando o uso e fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e formas corretas da prestação do serviço de entrega, os aplicativos não os fornecem, assim como há falta de remuneração por insalubridade e periculosidade. Larissa usa o exemplo do Reino Unido, onde foi reconhecido o vínculo trabalhista no setor, garantido o direito de valor mínimo pela hora trabalhada e férias remuneradas.

Para a advogada, pela peculiaridade das relações entre os aplicativos e os prestadores, é difícil garantir todos os direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas algo deve ser garantido aos trabalhadores. “Pelo menos uma remuneração mínima da hora trabalhada, valor de férias proporcionais, limite de jornada, etc”, pensa.

Larissa afirma que a lei brasileira precisa se atualizar para a nova realidade sem esquecer dos direitos e da qualidade de vida dos prestadores. “Não adiantam legislações que somente isentam os aplicativos, é necessário que criem uma situação mínima de direitos e deveres nestas relações”, finaliza.

Greve nacional

Os entregadores de aplicativos estão organizando uma paralisação nacional para o dia 1º de julho. Entre as reivindicações estão a maior transparência sobre as formas de pagamento adotadas pelas plataformas, aumento dos valores mínimos para cada entrega, mais segurança e fim dos sistemas de pontuação, bloqueios e “exclusões indevidas”.

A página Treta, que está fazendo divulgação de materiais sobre a greve, além de explicar os motivos da paralisação, também pede que os usuários dos aplicativos não façam pedidos na data (veja o vídeo abaixo).

Em uma das publicações, o movimento afirma que os participantes não pertencem a nenhum sindicato ou partido político. Nas redes sociais, um grupo chamado “Entregadores Antifascistas”, que participaram de manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro, apoia a paralisação marcada para o início de julho.