A política em Joinville: A cultura de Udo Döhler

Por Felipe Silveira
Foto: Jessica Michels

Um leitor sugeriu, dias atrás, que a coluna mencione quais são os méritos (aqui como sinônimo de virtudes) do governo Udo Döhler quando houver menção à existência deles. É uma observação importante e a resposta é que tudo isso será detalhado no decorrer das edições. À medida que o governo se aproxima do ocaso, tema a tema será detalhado. Nem sempre todas as ideias que aparecem em um texto podem ser desenvolvidas, mas elas ainda serão, com a devida apuração e reflexão.

Mas, já que o tema veio à tona, eu diria que Udo vai se gabar, ao final do mandato, do que fez na saúde e na educação. E, por incrível que pareça, da pavimentação (calma, vamos abordar o tema outro dia). Tudo é discutível, mas jornalistas e público sempre resumem governos em bons, médios ou ruins em áreas específicas. Sendo assim, o governo tem, pelo menos, bons números nessas duas áreas, dentro do que se propôs a fazer.

Por outro lado, há aspectos trágicos dos quase oito anos de governo. E aí chegamos ao tema da coluna de hoje. A gestão cultural foi uma lástima. Descaso com os espaços/equipamentos e com as festas populares, falta de obras, relação truncada com profissionais do setor, criação de regras absurdas que dificultam o acesso a recursos, fusão com a gestão do turismo e atrasos nos editais resumem os oito anos da gestão que promoveu, nas palavras de várias pessoas do setor, um “desmonte da cultura”.

Udo Döhler herdou uma Prefeitura em que a cultura ascendia, aos trancos e barrancos, com erros e acertos de seus gestores. Luiz Henrique da Silveira (PMDB) sempre valorizou a arte em seus textos e discursos. Inaugurou o Centreventos Cau Hansen e trouxe para Joinville a Escola Bolshoi, para citar os feitos dos quais mais se orgulhava. Na sequência, Marco Tebaldi (PSDB) instalou o Simdec. Seu vice, Rodrigo Bornholdt (à época no MDB), geria a extinta Fundação Cultural de Joinville (FCJ) e é apontado como alguém que contribuiu para a área. A retomada do Carnaval de rua, por exemplo, ocorreu no período. Nos quatro anos em que Carlito Merss ocupou o gabinete da Herman Lepper, a cultura foi tratada com carinho. Silvestre Ferreira, artista e produtor respeitadíssimo pela categoria, conduziu a pasta que valorizou o fazedor cultural.

O lojista Raulino Esbiteskoski era um peixe fora da água ao assumir o comando da Secult – Foto: SindLojas

Todos os governos mencionados também erraram na condução do setor. Alguns podem ser acusados de elitismo, outros de falta de cuidados com os equipamentos, entre outros temas debatíveis. Mas, no resumo da ópera, levaram a cultura de Joinville à frente. Diferentemente de Udo Döhler. Seus antecessores ficaram marcados como amigos da cultura. Udo não ficará.

O atual prefeito extinguiu a FCJ e misturou cultura, turismo e lazer na Secult, pasta que colocou sob tutela do empresário lojista Raulino Esbiteskoski. Nada fez sentido, já que Raulino não tinha experiência no setor e confirmou isso em entrevista, com sinceridade espantosa, ao jornal A Notícia. Na mesma conversa, disse que buscaria diálogo com o setor, algo que ficou longe de acontecer.

Tudo isso aconteceu sob protestos dos agentes culturais do município. “Retrocesso não”, “Ocupa Cidadela” e “Eu defendo o Simdec” foram algumas das mobilizações realizadas pelos profissionais (e amadores) da área ao longo dos anos. Houve, e ainda há, luta.

Ressalva

Por definição, um governo não pode ser perfeito, totalmente bom, já que seu papel é administrar o conflito de interesses sociais e econômicos que é a política. Mas também é muito difícil que seja totalmente ruim. Até um relógio parado está certo duas vezes ao dia. É evidente que houve ações positivas durante a gestão. O próprio Carnaval chegou a ser uma festa bem grande neste governo. E há sempre que se valorizar o esforço de realização dos servidores e de alguns gerentes da pasta. Contudo, a média do governo é péssima.

Protesto contra fusão de pastas ocorreu no Carnaval – Foto: Cedida por Jessica Michels

Carta aberta

Udo tem a chance, nesta reta final de governo, de redimir sua desastrosa gestão cultural. Pelo menos em parte. Um grupo de agentes culturais mobilizados em torno do Movimento Mobiliza Cultura Joinville enviou uma carta de reivindicações à Secult com seis propostas de ações emergenciais para auxiliar a classe artística durante a pandemia da covid-19. Em breve mais detalhes serão publicados aqui no jornal O Mirante.

As ações propostas têm como objetivo socorrer os trabalhadores da cadeia produtiva da cultura que estão em situação precária; garantir a manutenção de grupos, empresas e instituições culturais que estão impossibilitadas de realizar suas atividades; promover atividades artísticas e culturais que possam contribuir com a manutenção do patrimônio cultural de Joinville e com o bem estar social da comunidade joinvilense; e garantir a recuperação econômica do setor no período pós-pandêmico.

Responder a carta, dialogar com as pessoas e propor algo efetivo para setor podem ser maneiras de diminuir o impacto negativo da gestão.

Economia

Não deve ser o principal ponto do debate quando o assunto é cultura, mas o governo deveria saber do potencial econômico do setor. Só em 2017, a indústria criativa foi responsável por injetar R$ 171 bilhões na economia do país. Naquele ano, o setor empregava mais de 800 mil brasileiros. Nesse ponto, sim, a relação é direta com turismo. Uma cidade com cenário cultural vibrante tende a atrair mais turistas. Sem contar o ciclo econômico interno da cultura no município.

Membro do conselho

A fim de transparência, o autor desta coluna informa que é membro eleito do Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC), representante do Setorial de Comunicação em Cultura. Ainda não foi empossado, conforme previa o calendário, por causa da pandemia.


Cultura e fascismo

Friso que este trecho do texto nada tem a ver com os comentários acima, sobre o governo Udo Döhler, que apenas fez uma gestão ruim da cultura. Porem, como o tema de hoje é cultura e política, não podemos deixar de analisar um importante aspecto do cenário nacional que tem desdobramento local.

Fascistas odeiam arte e cultura. Algo que faz pensar e mexe com os brios não combina com eles. Afinal, o fascismo é uma ode ao pensamento único do líder. Não é à toa que nazistas queimaram livros. Aliás, há quem diga que parte da origem do nazismo surge do ressentimento de Adolf Hitler por sua arte medíocre.

Também não é à toa que Jair Bolsonaro trava uma guerra aberta com os artistas do país, que ataca o teatro e o cinema, que não presta o devido respeito aos nossos maiores músicos falecidos e que avacalha de todo jeito que encontra com a Secretaria Especial da Cultura, colocando o tipo de gente mais baixa à frente da pasta. Cabe lembrar que um deles reproduziu um discurso do nazista Joseph Goebbels em pronunciamento. Outra cantou “Pra frente Brasil” quando um jornalista perguntou sobre as vítimas da ditadura militar no Brasil.

Cultura na eleição

Diante destes cenários mencionados acima, de descaso em âmbito municipal e de cultura sob ataque nacional, surge uma questão. O que os pré-candidatos pensam e propõem para as questões culturais de Joinville?


Ainda vão aparecer

No resumo do cenário eleitoral da última edição, publicada na quarta-feira (10), alguns pré-candidatos não foram mencionados. Anelisio Machado (Avante), Nelson Coelho (Patriotas) e Darci de Matos (PSD). O deputado federal pessedista, que já disputou mais de um segundo turno (2008 e 2016), passa a ser um dos pré-candidatos mais fortes do pleito. O autor pede desculpas pelo esquecimento e garante eles vão aparecer devidamente nas próximas edições.

Outro possível pré-candidato não foi mencionado de propósito. Os leitores da coluna já conhecem a situação política de Rodrigo Bornholdt (PSB), um dos personagens que mais aparece neste espaço, e sabem que ele só poderá ser candidato se a legislação eleitoral mudar. A possibilidade existe, mas Rodrigo só será tratado como pré-candidato pela coluna quando a situação se concretizar.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Diariamente, a equipe de O Mirante destaca os principais acontecimentos do momento (do dia ou da semana). Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha. Saiba mais clicando na imagem abaixo.