Joinvilenses realizam ato contra racismo e violência policial

Reportagem de Lucas Koehler e Isabel Lima
Fotos de Kevin Eduardo

Incentivados pela onda de protestos nos Estados Unidos contra a violência policial sobre a população negra, manifestantes realizaram um ato contra o racismo na noite de quarta-feira (3), em Joinville. O encontro do grupo foi na Praça da Bandeira, em frente ao Terminal Central de ônibus, às 18 horas.

Cerca de 50 pessoas participaram do protesto, pensado para atender a recomendada não aglomeração. “Temos convicção de que, com muita responsabilidade, precisamos retomar as ruas urgentemente para expressar nossas lutas”, afirmou um dos líderes do ato, Leonardo Nürnberg Maria, de 26 anos. O início foi comandado pelo grupo Slam Joinville, que proferiu poesias para os manifestantes, embaixo da chuva e sob olhar de policiais militares que acompanharam o ato.

Após as 18 horas, o grupo engatou marcha pela rua Dona Francisca em direção à rua Princesa Izabel. Ao som de gritos em memória de Agatha Félix, João Pedro, Marielle e outros, os manifestantes percorreram ruas centro da cidade parando o trânsito em alguns momentos. No semáforo da João Colin com a XV de Novembro, ocorreu a única confusão do ato, entre motoqueiros e participantes. Uma barreira foi criada em frente do motoqueiro impaciente que logo foi repreendido pela Polícia Militar.

Leonardo, que é membro do grupo Juventude Revolução do PT, afirma que “o objetivo do ato é chamar a atenção para a truculência da polícia militarizada atuando em nossas periferias”. Somente em 2019, 5.804 pessoas foram mortas por policiais no Brasil. As vítimas na maioria das vezes não tem ficha criminal e são “confundidas” com criminosos. Mais de 75% dos mortos são negros, de acordo com o Anuário da Violência, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Isabelle Amorim Silva, de 22 anos, desabafa: “Os confundidos sempre tem cor e inocência, estamos cansados”. Isabelle é de um dos movimentos que participaram da manifestação, o Slam Joinville. A manifestação também contou com apoio de movimentos sociais, organizações políticas, partidos políticos e sindicatos.

Racismo além das palavras

Endril Machado, de 22 anos, explica que foi ao ato para reforçar a união e mostrar que as pessoas não vão ficar caladas. Para ele, a questão é importante para mostrar que estão cansados da violência contra os negros e reforça que a luta contra o preconceito é diária. “Sempre lutamos por isso, todos os dias contra esse preconceito que tem na sociedade”, afirma.

O preconceito racial, para Endril, está além dos xingamentos. “Quando uma pessoa branca manda eu cortar meu cabelo ou mudar meu estilo, já é um ato de racismo. Ou quando uma mulher me olha e esconde a bolsa ou atravessa a rua. Me olham como se eu fosse bandido”, critica.

O jovem pensa que a manifestação desta quarta-feira reforça a exigência de respeito aos negros, pessoas pobres e de favelas. “O racismo está explícito. Tem policiais matando crianças dentro de casa”, ressalta.

Ana Lúcia Martins, militante do Coletivo Ashanti de Mulheres Negras de Joinville, fala que o racismo está, além dos termos pejorativos, nos índices de pobreza, desemprego, assassinato da população negras, em especial dos jovens, nas desigualdades sociais e no apagamento da nossa história.

Para ela, governos de extrema-direita estimulam o racismo, “autorizando” essas práticas racistas. “Os projetos e programas de governo cumprem o papel de maior exclusão social da população negra e de outros grupos historicamente discriminados, usam as forças do Estado para reprimir e silenciar esses grupos”, lamenta.

Protestos durante pandemia

Nesta quarta-feira, o Brasil registrou mais 416 mortes por covid-19. Ao todo, já são 32.547 vidas perdidas. Nos Estados Unidos, já são 107.682 pessoas mortas e o país com mais infectados pelo novo coronavírus no mundo. Em ambos os países, a crise política e a violência policial acompanham a preocupação com o contágio da doença.

Somadas às manifestações da extrema-direita, foram o estopim para desencadear diversos protestos pela democracia, contra o racismo e contra a violência policial nos dois países. Os atos, porém, vão na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que reforça a necessidade do distanciamento social e afirma ser necessário evitar aglomerações para frear o contágio do vírus.

Se expor em aglomerações neste momento é uma preocupação para Endril. Entretanto, para ele, não há como ficar em casa no momento atual. “Sei que ninguém deveria sair de casa nesse momento, mas, infelizmente, é necessário. Precisamos mostrar para o mundo e ao presidente Jair Bolsonaro que não vamos mais ficar quietos. Passamos anos quietos, chega dessa palhaçada”, ressalta.

Ana Lúcia segue numa linha parecida de pensamento. “Eu sou uma das que mais cobra e estimula o isolamento social, por isso, o ato teve uma participação reduzida e respeitamos todas as recomendações, usando de máscaras e álcool gel, distanciamento social e contato físico zero”, finaliza.

Segundo o tenente Dennys Scatena, da PM, que estava acompanhando a manifestação, as aglomerações estão proibidas na cidade, mas que foi permitido devido ao momento atual com centenas de manifestações contra o racismo no mundo. “O ato foi pacífico e afirmaram que respeitaram o distanciamento social” disse.

Arma de fogo no ato

Durante a protesto, manifestantes relataram que um dos policiais estava com uma arma de fogo na mão enquanto acompanhava a manifestação.

Tenente da PM afirmou que o uso de arma letal faz parte do trabalho | Foto: Lucas Koehler/O Mirante

Segundo Scatena, o policial sempre está com porte de arma letal, mas não usa em casos que não corra risco de vida. “Em manifestação, não havendo perigo contra a vida do policial, ele vai usar armamento não letal, como balas de borracha e dispositivo de choque, por exemplo”, explica. O tenente complementa afirmando que a arma de fogo é um instrumento de trabalho e é normal que todo policial a segure em mãos.