A matemática dos clubes de Joinville durante a pandemia

Reportagem: Bernardo Gonçalves e Fred Romano

A crise econômica causada pela pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, afeta vários setores no Brasil. Um deles é o esportivo. Sem competições no país há pouco mais de dois meses, equipes e associações sofrem com a nova realidade econômica. Em Santa Catarina, o governo suspendeu todas as atividades esportivas no mês de março, dessa maneira, deixando os clubes sem as receitas dos jogos e sofrendo com as reduções ou perdas de repasses dos patrocinadores e apoiadores.

Em Joinville, a situação não é diferente. Três clubes de futebol e dois de basquete sofrem com a inesperada situação e tomam medidas para reduzir os prejuízos. E uma associação de vôlei se reorganiza diante da nova realidade.

Futebol

O Joinville Esporte Clube divulgou, em live transmitida no Facebook no último dia 4, detalhes sobre a situação do clube diante da pandemia do coronavírus. A diretoria anunciou renovação de contratos de atletas, redução de salários de jogadores e membros da comissão técnica e desligamentos. A principal renovação é do goleiro Ivan que aceitou redução salarial. A redução de salário é de 25% e é válida para aqueles que recebem mais de 3 mil reais. O zagueiro Campestrini, os laterais Gustavo e Lucas Sena e o volante colombiano Ramirez, que tinham contratos próximos do vencimento, formam a lista de jogadores dispensados. Os técnicos das categorias sub-17 e sub-20, além de funcionários de outras áreas do Coelho, completam a lista de dispensas.

“O clube tem problemas financeiros gravíssimos”, afirmou o Diretor Geral do JEC, Luís Carlos Guedes. Guedes também comunicou que a equipe teve um terço da folha salarial reduzida. O gasto com salários de todos os funcionários, que era de 360 mil reais por mês, caiu para 240 mil reais. Além disso, os patrocinadores estão com os pagamentos atrasados devido à pandemia. Assim, o programa de sócio torcedor, que atualmente conta com 3 mil sócios, tornou-se a principal fonte de renda neste período. No dia 29 de abril, por meio do site oficial, o JEC anunciou uma parceria com uma agência espanhola, com a finalidade de melhorar a capacidade do Joinville em negociações de atletas profissionais e da base.

A crise também impactou nas finanças do Fluminense de Joinville. Segundo o presidente do clube, Anelísio Machado, o clube possui em torno de 20 patrocinadores. Anelisio não disse o valor recebe por meio destes patrocínios, mas conta que teve uma redução da metade dos repasses que o clube recebe. Ainda segundo ele, esses patrocínios cobrem 50% dos custos do clube.

Torcida do Nação acompanha partida na Arena – Foto: Divulgação

Diferentemente do JEC e do Fluminense, o Nação Esportes tem o seu foco nas categorias de base. Mas também sofre com os impactos do coronavírus. O CEO do clube, Gabriel Fronzi, conta que a principal receita da equipe vem de investimentos do presidente do grupo Nação, Tiago Reis. Porém, durante o período da pandemia esse investimento foi reduzido em 40%.

Além dos investimentos, o Leão joinvilense conta com sete apoiadores e nenhum deixou de apoiar mesmo com o surto de coronavírus. A comissão técnica e os funcionários tiveram seus contratos suspensos até a volta das atividades normais. O clube sobrevive de negociação de atletas e de parcerias com clubes de maior expressão.

Basquete

Da mesma forma que os clubes de futebol, os do basquete também aguardam o retorno das competições que participam para ajustar as finanças. Presidente do Basquete Blackstar, Rodrigo Lima, conta que os salários dos jogadores foram pagos desde novembro do ano passado até abril e em maio seria pago também. Ele afirma que já iniciou conversas com seus jogadores e comissão técnica em relação a reduções. “Precisaremos trabalhar com algumas reduções no próximo mês”.

Jogadores do Blackstar se cumprimentam na época em que o gesto não representava um risco iminente à vida – Divulgação

No atual formato do Campeonato Brasileiro de Basquete (CBB), competição que o Blackstar disputa, os clubes possuem contratos com os atletas somente de alguns períodos, ou seja, com um tempo determinado para o término. Os contratos também possuem uma multa em caso de quebra contratual. Hoje, o time joinvilense possui atletas com contratos vigentes de 6 a 18 meses de duração. A média salarial do clube é de R$ 6 mil por mês, contando com 18 funcionários, atletas e comissão técnica. Fechando, assim, uma folha salarial em média de mais de R$100 mil.

Para pagar essa folha, o Blackstar conta com três patrocinadores master. Dois desses três reduziram os repasses, passando assim de uma média de 90 mil reais para 50 mil. Além disso, o clube perdeu dois dos 11 apoiadores e também teve uma queda no seu faturamento de venda de produtos e suas escolinhas, que juntas, somavam R$8 mil por mês. Segundo Rodrigo, o clube consegue manter os contratos com os seus atletas, desde que os seus patrocinadores mantenham os seus repasses.

Questionado sobre o quanto a equipe iria arrecadar caso os jogos estivessem acontecendo, Rodrigo afirma que à estimativa era conseguir uma média de R$ 7 a 8 mil por jogo e tendo uma média de 7 a 8 jogos por mês por trimestre. Sendo assim, tendo uma perda de arrecadação em bilheteria de em média de R$50 mil por mês.

Rodrigo diz que o Blackstar entende, e concorda, com a paralisação e acredita que todos tem que se conscientizar e flexibilizar de certa forma. Mas diz estar extremamente chateado pois, segundo ele, a equipe foi montada antes de todas as outras equipes que participam do campeonato brasileiro. “Nosso objetivo era único, ser campeão brasileiro do CBB e buscar uma vaga para o NBB”, finalizou.

O Basquete Joinville não quis falar sobre a situação atual do clube. De acordo com o técnico da equipe, Kelvin Soares, é muito delicado para o clube falar do assunto no momento, pois envolve em falar sobre os patrocinadores que o clube tenta manter. “ Não sei a real situação dos patrocinadores no mercado, se estão demitindo ou não”, frisou. Assim como o Blackstar, o Basquete Joinville participa do Campeonato Brasileiro de Basquete, organizado pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Volêi

A Associação Amigos do Vôlei Joinville (AAVJ), está, em meio à pandemia, organizando as finanças do clube. A equipe que foi criada em março de 2019 está buscando patrocínios para que possa, assim que retornar aos treinos, iniciar o pagamento de salários aos atletas e empregados que no ano passado jogaram de graça para o time. A AAVJ disputou a Superliga C masculina em outubro do último ano em Joinville. O elenco contava com 15 jogadores e quatro membros da comissão técnica, que além do esporte têm outros trabalhos. Durante a competição a associação não contava com patrocinadores declarados.

Equipe de vôlei de Joinville disputou divisão de acesso no ano passado – Divulgação

Crise no esporte brasileiro

Os clubes de futebol, vôlei e basquete de maior expressão no Brasil também não ficaram de fora da crise financeira causada pela covid-19 e tiveram que aderir a algumas medidas para se manterem “vivos” neste período sem esporte.

No futebol, o Corinthians, que já sentia financeiramente antes mesmo da pandemia, é o time que mais sofre no país com a paralisação total. O clube paulista reduziu o valor do salário do elenco principal, feminino e masculino, e das categorias de base do clube em 25%. Já a comissão técnica e os demais funcionários tiveram um corte ainda maior, de 70%, conforme dados divulgados pelo Globo Esporte no último dia 30.

No vôlei, a temporada da Superliga masculina e feminina, séries A e B, foi cancelada pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) no dia 19 de março. Não há possibilidade de realizar as competições após a pandemia por falta de datas e devido à situação financeira dos clubes, que não iriam conseguir realizar a renovação de contrato dos atletas no fim do mês de maio.

No basquete, o principal campeonato da modalidade no país, o NBB (Novo Basquete Brasil), também seguiu o mesmo caminho que a Superliga e foi cancelado. A Liga Nacional de Basquete (LNB) realizou uma votação por videoconferência e a decisão foi unânime entre os 16 clubes participantes pelo o encerramento da competição. Além das questões econômicas, foram pontuadas questões logísticas, estratégicas, de saúde e integridade física dos atletas.


Foto no topo: Yan Pedro/JEC