Liberação dos treinos ainda não altera rotina dos clubes joinvilenses

Reportagem: Beto Bett

A semana começou movimentada para o esporte catarinense, mas apenas dentro dos gabinetes. Após 56 dias de quarentena pela pandemia de covid-19, a Secretaria de Saúde de Santa Catarina liberou, na noite desta segunda-feira (11), a volta aos treinamentos de atletas profissionais e amadores do estado.

Entretanto, as pressões para o retorno, na prática, não alteraram de imediato o dia a dia de alguns dos clubes joinvilenses. O principal motivo é o não retorno das competições, além da necessidade de adequação a uma série de normas para não colocar em risco atletas, funcionários e dirigentes.

A história está em curso desde o mês passado. Por meio da SC Clubes (associação que representa dez agremiações de futebol do estado), a tentativa do retorno dos treinamentos e do Campeonato Catarinense foi negada no dia 28 de abril. No dia seguinte, um pedido diferente, o retorno apenas dos treinos, concedido neste 11 de maio.

Com o decreto consumado, o debate agora é sobre a volta dos campeonatos. A relação é simples: o discurso dos clubes parte do princípio de que, para haver os investimentos aos critérios estabelecidos pelo governo estadual e não treinar por treinar, é necessário um planejamento com datas e previsões.

A movimentação pela volta do futebol é nacional. O Grêmio, de Porto Alegre, foi um dos primeiros clubes a voltar aos trabalhos – Foto de Lucas Uebel/Grêmio

O decreto

Foram 24 incisos estipulados para que o retorno das atividades esportivas, de profissionais e amadores, seja respeitado no território catarinense. A maioria deles obriga os clubes a uma readaptação de convívio e práticas, como programar a utilização de vestiários, refeitórios e demais áreas, intensificar a higienização de locais, utensílios pessoais, equipamentos e uniformes, além de medir a temperatura corporal de todos os presentes diariamente.

Aos que apresentarem sintomas de covid-19, o afastamento mínimo é de 14 dias e é obrigatório buscar orientação médica, informando as autoridades sanitárias da cidade o mais breve possível. Ainda no dia a dia de treinamentos, cada atleta necessita ter seu material individualizado, ou seja, os clubes de futebol, por exemplo, necessitam disponibilizar uma bola para cada jogador, além de cada um ter sua garrafa de água individual.

A rodinha que inúmeras equipes realizam no pré e pós-jogo, para aquecimento e confraternização, também está suspensa. Banhos dentro do clube só poderão ocorrer em box individuais, com a desinfecção após o uso. Para reuniões, palestras e vídeos, o recomendado é a videoconferência ou em áreas amplas, respeitando a distância de 1,5m entre cada atleta. Esse espaço também deve ser respeitado nas sessões de treinamentos.

O decreto também traz o básico, que é a utilização de máscara em todo momento e a prática e conscientização da etiqueta respiratória, como tossir na dobra do cotovelo. Com as determinações, atletas acima dos 12 anos estão liberados às práticas esportivas. Àqueles atletas em fisioterapia, o uso de equipamentos de proteção individual (luvas e máscaras) é obrigatório.

Clubes aguardam desdobramentos

O Mirante apurou o posicionamento de quatro clubes profissionais de três esportes diferentes da cidade. No basquete, o presidente do Blackstar, Rodrigo Lima, deixou evidente seu descontentamento com a impossibilidade de seguir o planejamento estabelecido para a temporada, mas analisou o momento atual do clube e cobrou datas concretas por parte das entidades.

No lado tricolor joinvilense, o JEC/Krona Futsal segue com a rotina de treinos on-line, pelo menos, durante essa semana. Segundo a assessoria, antes do decreto, o clube adiou a volta aos trabalhos do dia 11 para o dia 18. Com as novas recomendações, uma reunião entre comissão técnica e diretoria está agendada para esta quinta-feira (14), com a possibilidade de redefinir o planejamento. A expectativa é de ter um posicionamento da Federação Catarinense de Futsal, em relação aos campeonatos do estado.

Questionada sobre a estrutura necessária para a retomada das atividades, a assessoria informou que havia realizado um protocolo para aprovação dos órgãos de saúde, e que agora com as novas determinações do governo estadual, fará as mudanças para adequar-se às novas exigências, com a chancela dos médicos do clube.

O futebol na Agronômica

Modalidade com mais força política, o futebol pressiona pela volta das competições, o que pode ocorrer no dia 5 de junho, conforme nota da Federação Catarinense de Futebol (FCF), publicada na terça-feira (12). O documento foi emitido após reunião dos cartolas estaduais com o governador Carlos Moisés, na Casa d’Agronômica, em Florianópolis.

O encontro pela volta do futebol em Santa Catarina – Antonio Carlos Mafalda via FCF

Além do governador, participaram do encontro o deputado estadual Rodrigo Minotto (PDT); o presidente da FCF, Rubens Renato Angelotti; o presidente da SC Clubes, Francisco Battistotti; e o CEO da SC Clubes, Cláudio Gomes. O encontro foi tratado como “o primeiro passo para o retorno do nosso futebol”, segundo nota da federação.

O JEC emitiu comunicado, na tarde de terça-feira (12), informando que prefere não estipular uma previsão de volta aos trabalhos no CT Morro do Meio e que, assim como o futsal, permanece com os treinamentos virtuais. Mas destacou a nota da Federação Catarinense de Futebol que cita a possibilidade do retorno do Catarinense no dia 5 de junho, “caso os números da pandemia não venham a subir”, segundo a própria nota.

Na live pelo Facebook que a diretoria Tricolor realizou no dia 4 de maio, o diretor geral Luis Carlos Guedes se posicionou a favor ao retorno das atividades, com base na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

“Por parte deles não têm restrições, mas os municípios e os governos estaduais é que não têm dado a liberação. Uma situação muito complicada, porque a situação financeira de todos os clubes está muito impactada. Esse retorno às atividades seria muito importante e nós contamos com isso”, disse.

Goleiros do JEC em treinamentos antes da pandemia – Yan Pedro/JEC

Diferentemente do Coelho, o Nação Esportes, clube joinvilense que foi semifinalista da Série C do Campeonato Catarinense em 2019, divulgou na última semana que só voltará à rotina normal de trabalho quando houver a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou de órgãos especializados. Segundo o CEO do clube, Gabriel Fronzi, não é possível pensar em retorno do futebol com a quantidade de mortes no país batendo recordes diários.

“Tudo isso que está acontecendo é por conta do futebol da Série A, do profissional. É irresponsabilidade falar em futebol agora com 881 pessoas morrendo. A gente (Nação) vai voltar quando a Liga Joinvilense de Futebol e a Federação Catarinense Futebol dizer ‘a partir do dia tal terá competição’. Aí vamos sentar e ver se vale a pena dentro das normas da OMS. Não adianta ninguém ser o profeta do apocalipse”, afirmou.


Foto no topo: Antonio Carlos Mafalda via FCF