Moisés sugere a empresários que pressionem economicamente a imprensa

Visto como um governador moderado apesar da origem política no bolsonarismo, que é um movimento nacional de extrema-direita, Carlos Moisés exibiu sua pior faceta nesta semana. Em reunião com um grupo de empresários ligados ao movimento Lide, ele sugeriu o cerceamento da atividade jornalística por meio da pressão dos anunciantes. Embora a reunião tenha sido pública, quem acompanhou, notou a gravidade e registrou o comentário foi o jornalista Upiara Boschi, colunista do grupo NSC.

“Os senhores podem ajudar muito, fica o meu apelo. Em todos esses veículos de comunicação os senhores têm propaganda, comerciais, vendem seus produtos”, disse o governador catarinense, em um momento totalmente anti-democrático e anti-republicano.

O governador está sob pressão desde que veio à tona, no dia 28 de abril, reportagem da agência de notícias The Intercept Brasil, assinada pelos jornalistas Fábio Bispo e Hyury Potter, sobre indícios de fraude na compra de 200 respiradores. Desde então o secretário estadual da Saúde, Helton Zeferino, pediu exoneração do cargo; a Alesc abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI); e o MPSC e o TCE-SC abriram investigações. Neste sábado (9), o Gaeco e a Deic cumpriram mandados de busca e apreensão e sequestro de bens, inclusive na Casa Civil do governo de Santa Catarina.

Por uma rede social, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou a fala do mandatário catarinense. Escreveu que é inaceitável a tentativa de cercear a liberdade de imprensa e que, “o governador demonstra ignorância sobre o conceito de liberdade de imprensa. Como, infelizmente, está se tornando comum entre autoridades brasileiras, prefere atacar o mensageiro a prestar contas à sociedade catarinense”.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também lançou uma nota sobre o caso em seu site, reprovando o comentário de Carlos Moisés.

“Se, porventura, algum veículo ou profissional cometeu ou vier a cometer qualquer erro na cobertura jornalística relativamente a este fato, cabe ao Governo do Estado de Santa Catarina tomar as medidas legais para a reparação do erro ou para assegurar o direito ao contraditório. No entanto, estimular e/ou promover o cerceamento à liberdade de imprensa por meio da pressão econômica de anunciantes é um erro grosseiro, autoritário e um ataque inaceitável. Cumprindo seu papel de garantir e defender a Liberdade de Imprensa, o Jornalismo e os jornalistas não vão se calar”, registrou na nota.


Texto: Felipe Silveira
Foto: Governo de SC