Professores de Joinville falam sobre atividades escolares durante isolamento social

Reportagem: Lucas Koehler

Desde o dia 3 de abril, estudantes de Joinville trocaram a escola e sala de aula por notebooks, tablets e outras aparelhos eletrônicos. A quarentena, devida à pandemia do novo coronavírus, mudou a rotina de alunos, professores e famílias. Com aulas em casa, crianças, adolescentes, jovens e adultos buscam se adaptar à Educação à Distância (EaD), meio que os municípios e o estado catarinense encontraram para dar continuidade ao ano letivo.

Em Joinville, são 74 mil estudantes da rede municipal de aderiram ao modelo aprovado pelo Conselho Municipal de Educação, junto ao Conselho Nacional de Educação. Para a Secretaria de Educação (SED) de Joinville, o momento é de aprendizagem. “Integra todos os sujeitos. Alunos, família, professores e gestores do cenário educacional”, afirma a assessoria da SED.

As aulas não presenciais são realizadas por três meios. O principal é pelo site da prefeitura, no qual foi criada a plataforma “Educação Joinville”. Para as famílias sem acesso à internet, materiais impressos podem ser retirados na unidades escolar. A terceira opção são as aulas pela Rádio Joinville Cultural FM 105,1, com programas divididos em quatro horários por dia.

Para tirar dúvidas de alunos e famílias, a SED disponibiliza canais de comunicação pela plataforma Educa Joinville, telefone e atendimento nas unidades escolares. “Reforçamos que estamos em constante aperfeiçoamento dos meios para a transmissão do conteúdo e propostas de atividades”, explica a assessoria da prefeitura de Joinville.

Representante da secretaria explica que, quando houver o retorno das as aulas presenciais, as escolas terão meios de transmissões virtuais do conteúdo, que poderão ser usados pelos professores, com objetivo de enriquecer as metodologias de ensino.

Já nas escolas estaduais, o governo de Santa Catarina criou contas no Google Classroom — um sistema de gerenciamento de conteúdo virtual para escolas — para todos os alunos e professores, além das disciplinas. Nesta modalidade, os profissionais da educação devem adequar ou criar seus planos de aula para realizar atividades não presenciais, que podem ser em formato de vídeos, videoconferências, formulários de questões, documentos de texto, chats, entre outras iniciativas, de acordo com as adaptações que os docentes escolherem para seus planos de ensino.

Em Santa Catarina, segundo dados do Sistema de Gestão Escolar do Estado (Sisgesc), 18% dos estudantes e 8% dos professores da rede não têm acesso à internet em casa. Além disso, 42% dos alunos não têm computador na residência onde mora.

Entrevistas

O Mirante conversou com três professores de Joinville sobre a rotina de lecionar durante a quarentena:

Graziela de Sousa, 35 anos
Professora de educação infantil no CEI Alzelir Pacheco e Espaço Encantado

Dhuan Xavier, 30 anos
Professor da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na escola Municipal Prefeito Joaquim Félix Moreira

Fernanda Paula do Nascimento, 30 anos
Professora de ensino médio na escola Dr. Tufi Dippe

O Mirante – Como está sendo o período de quarentena e a adaptação com as aulas à distância?

Graziela – É um período difícil para todos, as crianças perderam a convivência que o CEI proporciona e as rotinas de casa com trabalho se misturaram. A EaD para a educação infantil me parece desconsiderar as especificidades do nosso trabalho, estamos criando propostas pedagógicas, mas fica longe de representar o todo do nosso trabalho. Eu entendo que é uma forma de não perder o ano letivo, mas efetivamente já perdemos, porque nós trabalhamos na presença com interações e brincadeiras.

Dhuan – Tem sido um período muito complicado para o contexto educacional de forma geral. Falando da EJA, percebo que isso se potencializou. Primeiro pelo público que, no geral, não possui tanta afinidade com a utilização de recursos tecnológicos. Além disso, o perfil dos estudantes da EJA impõe uma tutela um pouco maior dos professores nesse processo de ensino/aprendizagem. Os mais velhos, porque passaram muito tempo sem estudar, demoram para retomar o ritmo dos estudos. Os mais novos geralmente vieram do regular porque estão atrasados, ou seja, possuem certas demandas que exigem um novo olhar pedagógico.

Fernanda – Trabalhar com educação à distância vem sendo um processo desafiador. A falta de estrutura – internet e espaço adequado –, além da dificuldade de utilização das ferramentas digitais são fatos cotidianos. Não estamos preparados para esse tipo de situação. Para o estudante me parece ainda mais caótico, já que vários não têm acesso à internet. A aprendizagem fica comprometida, pois o contato social em sala de aula é essencial para desenvolver senso crítico, estimular práticas cidadãs, compreender abordagens científicas, tirar dúvidas e fomentar o debate. Precisamos ter cuidado com uma educação que preza apenas pela aplicação técnica de conteúdos. A educação à distância parece vir nesse caminho.

O Mirante – Quais os principais pontos positivos e negativos da EaD quando comparamos com a educação presencial?

Graziela – Como positivo posso dizer que é uma forma de efetivamente não parar as aulas, que é um fato que assusta as pessoas. No ensino fundamental vejo que é uma forma de seguir com conteúdos, apesar de que nada substitui a presença do professor, mas entendo que é a forma possível atualmente.

Negativos é que sobrecarrega, na maioria das vezes, as mães, que precisam dar conta de uma rotina. Trabalhar, às vezes, inclusive, já saindo para trabalhar e ajudar as crianças nos estudos. Ou no caso da educação infantil, em realizar as propostas. Geralmente é feito pelas mães, salvo algumas exceções. Não se tem um aproveitamento tão efetivo quanto a educação presencial. As professoras auxiliares foram excluídas do processo e para elas estão contando horas negativas os dias de EaD. O que me parece injusto, pois no dia a dia compartilhamos o trabalho pedagógico com elas. A EaD não é acessível a todos, as famílias que não têm acesso à internet podem buscar os materiais na escola, mas sinto que ficam em maior desvantagem.

Dhuan – No contexto em que dou aula, ou seja, para jovens e adultos, em uma escola de periferia, os pontos positivos são poucos. Até o momento, conseguimos atingir poucos alunos. Muitos deles não têm o acesso aos recursos e a escola está fazendo plantões para entregar atividades impressas. Coloca-se em risco a saúde do profissional que faz essa mediação e dos próprios alunos que vão à escola retirar o material.

Os pontos negativos estão relacionados à estrutura pedagógica da EaD, que é muito frágil. As possibilidades de produção de material para os alunos são muito limitadas, ou seja, você envia textos e atividades e os alunos devem fazer e tirar as dúvidas por meio da plataforma “Classroom”, na qual a maioria não tem acesso. Diante disso, algumas perguntas surgem e ficam sem respostas: como vou saber se meu aluno realmente está aprendendo? Como avaliar esse aprendizado, se muitos nem conseguem devolver as atividades já feitas? ?Quais as principais dificuldades desses alunos na hora de responder às atividades? Não conseguindo responder essas perguntas, você acaba produzindo um planejamento engessado, que não condiz com a dinamicidade exigida pelo público alvo da EJA.

Fernanda – São apenas negativos. Aprendizagem comprometida, falta de internet e computador de qualidade para professores e estudantes, horas destinadas à preparação das aulas que excedem a carga horária do professor e a falta de contato real.


Infográfico: Lucas Koehler
Foto: Prefeitura