Joinvilense de 79 anos recita poesias no YouTube durante isolamento social

Até sábado (25), 58.509 pessoas foram contagiadas e 4.016 morreram por conta do novo coronavírus no Brasil. A doença se torna ainda mais perigosa para os idosos, hipertensos e pessoas com doenças crônicas, por exemplo, que estão no principal grupo de risco. Com a crescente dos números, a Organização Mundial da Saúde (OMS) segue reforçando a necessidade de isolamento social como principal forma de prevenir o contágio do novo coronavírus.

O distanciamento entre a pessoas, porém, pode ser acompanhado de solidão e tédio. Para evitar isso, o publicitário Rodrigo Schatzmann, de 25 anos, criou a página no Facebook e o canal no YouTube Edgard Schatzmann. Nas duas plataformas são publicados vídeos do próprio Edgard, de 79 anos, avô de Rodrigo, em que ele recita diversos poemas.

O neto conta que Edgard sempre foi um senhor muito ativo. Ele lembra que, junto com seu primo Gustavo, cresceram com o avô declamando poesias e os levando para assistir peças de teatro. Mas, com a quarentena, o jovem se viu com uma dúvida: “o que fazer com alguém tão ativo em plena pandemia?”.

De fato, as escritas poéticas sempre acompanharam Edgard. Para o senhor de 79 anos, servem até para vencer a insegurança. “Desde pequeno apreciei os poetas. Eu sou muito tímido, então fico treinando e assim que posso, quando estou numa reunião de pessoas, aproveito para recitar um poema”, conta.

Foi em uma roda de chimarrão, que acontece todos os dias, às 18 horas, que a ideia surgiu. “Falei para ele de gravarmos alguns poemas que ele já tinha na ponta da língua para compartilhar com quem ele gostava através do WhatsApp”, explica Rodrigo.

No dia seguinte, Edgard apareceu com seis poemas prontos, decorados e muito bem interpretados. “Daí a magia acontece, é microfonar, posicionar a câmera, arrumar o figurino e lançar um ‘gravando’, que tudo acontece facilmente”, afirma Rodrigo.

Com a iniciativa já em prática, Rodrigo lembra que foi procurado pelo historiador Maikon Jean Duarte, que participou da criação do documentário joinvilense Ditadura Reservada, e conta parte da história dos seus avós em plena ditadura militar, Edgard e Lúcia Schatzmann.

“Ele recebeu um dos vídeos e entrou em contato comigo para colocarmos isso em alguma rede social, pois estava apenas no meu Instagram pessoal. Foi uma pessoa muito importante na criação de todo esse projeto. Assim a página nasceu”, diz.

A escolha dos poemas não tem muitos critérios. Edgard escolhe mais pela afinidade dos autores e a quem ele quer dar visibilidade. Para ele, a experiência é positiva para superar a quarentena.

“Está sendo extraordinária. Em tempo de desespero, consegui me comunicar com os outros, não fico só pensando na tragédia. O poema sempre me ajudou nos meus sonhos e utopias. Agora, ainda mais. Benditos sejam os poetas”, exclama.

O projeto deve seguir mesmo após o fim do isolamento social. “A ideia é que continue sim, é algo que ele faz com prazer. Com certeza esse será um projeto que vamos levar, não só pelo meu avô, mas pelo impacto das pessoas estarem recebendo uma arte tão pura durante toda a semana”, finaliza o criador da página.


Psicanalista vê potencial no projeto

Durante o isolamento social, pessoas, assim como Edgard, buscam ideias para fugir da monotonia e do sedentarismo, por exemplo. Para o psicanalista e co-fundador da Clínica Pública de Psicanálise, Daniel Guimarães, o projeto criado pelo avô e neto pode ser um caminho para que se mantenha vínculos e ao mesmo tempo ponha um pensamento em movimento a serviço do próprio trabalho.

“Certa vez Freud definiu a saúde psíquica como a capacidade de amar e trabalhar. Por amor podemos pensar todos os vínculos com outras pessoas. Da mesma forma, trabalho não é apenas o emprego, mas aquilo que fazemos, que alcança outras pessoas e que nos faz sentido. A página parece ir por aí”, explica.

Daniel reforça que os projetos não devem aparecer apenas em períodos de distanciamento presencial de outras pessoas. “O que está por trás dessa iniciativa me parece que tem um alcance maior”, pensa.

Para o psicanalista, nossa vida social normal não é generosa com as pessoas que não estão dentro do perfil produtivo. Ele afirma que os idosos vão se tornando sujeitos estranhos à linguagem do tempo presente do que ele classifica como sociedade de mercado. “Vimos agora há pouco como os idosos são colocados no discurso governamental como um problema. São um gasto, um fardo que a sociedade deve debater se quer arcar ou não”, critica.

Clínica Pública de Psicanálise, em São Paulo (SP) | Foto: Reprodução/Facebook

No início da contágio do novo coronavírus, ele lembra das angústias com o discurso de tranquilização como “está tudo bem, apenas idosos sofrerão disso”.

Guimarães pensa que a produção de novos projetos é controversa. “Estamos vendo o nascimento de experiências de solidariedade, mas também uma prática extenuante de mais tarefas, mais esforço, uma busca angustiante por tapar todos os buracos do tempo mas também da tristeza, das questões íntimas que a quarentena nos põe a enfrentar”, reflete.

É possível ser feliz sozinho?

Daniel acredita que o isolamento social pode ser um termo utilizado para além da quarentena. Para ele, existe uma tensão entre a necessidade radical de outros sujeitos para sobreviver física e subjetivamente, mas também a importância de alguma noção de si mesmo para sentirmos estar vivos em uma sociedade de pessoas.

O psicanalista afirma que a importância dos vínculos, que alimentam a alma, está evidente. Mas se preocupa com o risco que está na ausência de uma perspectiva de superação desse período. “Está também no luto não elaborado sobre o fim da vida como conhecíamos. Há risco na ilusão de que a vida anterior era a melhor vida possível e que voltaremos a ela”, diz.

Ele afirma que experimentar o tédio e o sofrimento pelas limitações desse período não seja de todo ruim. Daniel pensa que afastar artificialmente a angústia não fará ela ir embora. “Ela vai voltar. A corrida incessante por novas formas de tapar o buraco existencial pode ser tão ou mais cansativa que a tristeza diante de toda essa situação”, explica.

A pressão por estarmos sempre ativos também deve ser desconsiderada, segundo Daniel. “Não precisamos falar o tempo todo, ler o tempo todo, ver filmes o tempo todo. Já não fazíamos isso antes. Nem faríamos isso caso tivéssemos mais tempo livre e estabilidade econômica”, finaliza.


Texto: Lucas Koehler
Foto no topo: Arquivo pessoal