Casadas, divorciadas e mães não podem ser rainhas da Festa das Flores

Regulamento do concurso, feito pela Secretaria da Cultura e Turismo, impõe as limitações

O concurso para Rainha da Festa das Flores, tradicional evento joinvilense cuja 81ª edição ocorre entre os dias 12 e 17 de novembro, não admite que mães ou mulheres que sejam casadas, separadas, divorciadas ou que estejam em união estável possam se inscrever.

As limitações para a inscrição de mulheres interessadas em participar do concurso estão presentes nas duas primeiras cláusulas do artigo 1º do Regulamento do Concurso, presente no site da Festa das Flores e feito pela Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville (Secult).

Embora esteja em sua 81ª edição, regulamento apresenta, de forma equivocada, concurso como se estivesse na 82ª.

Ao ser questionada a respeito do motivo dos requerimentos, a assessoria da Festa das Flores respondeu apenas que “são critérios comuns em todos os concursos de beleza e de festas tradicionais”.

Juliana Cristina de Oliveira, coordenadora de eventos da Secult, afirma que o regulamento para o concurso é o mesmo há pelo menos seis anos, que foi quando ela entrou na Secretaria. Sobre a possibilidade de remover as cláusulas que impedem mães e mulheres casadas ou divorciadas de participar do evento, Juliana disse que as pessoas da Secretaria envolvidas na organização do regulamento “nunca pensaram nisso”.

Segundo a coordenadora, mesmo fazendo “alguns ajustes [no regulamento] todo o ano”, nunca foram questionados a respeito da existência das limitações. “É uma coisa que a gente pode até pensar para os outros anos”, finalizou.

Cláusulas reforçam estereótipos

Segundo Maisa Bilenki, jornalista e pós-graduanda em sexualidade humana, educação e terapia, as cláusulas presentes no regulamento são retrógradas e que acabam reforçando estereótipos que estão sendo combatidos no mundo inteiro.

A acadêmica acredita que as limitações presentes nas duas cláusulas do regulamento estão presentes em outras esferas da vida das mulheres. “No mercado de trabalho, por exemplo, esses requisitos estão presentes em diversas vagas também, mesmo que de forma velada”, afirma.

De acordo com a jornalista, essas limitações são comuns porque “socialmente se acredita que mulheres devem colocar o casamento e os filhos e filhas como prioridade na vida”, conta. Esse estereótipo afeta a vida social e profissional das mulheres, que perdem oportunidades por causa dessa perspectiva.

Na avaliação de Maisa, colocar as cláusulas no regulamento apenas porque outros concursos do gênero as utilizam não faz sentido com o momento em que a sociedade se encontra. “Se cada concurso mantiver as normas porque os outros mantêm, acabam reproduzidos valores e perspectivas indesejáveis para o momento histórico”, disse.

Conselho dos Direitos da Mulher reprova critérios

O Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM) afirmou estar “estarrecido que em 2019 os critérios para a participação de um Concurso sejam tão desrespeitosos” com as mulheres joinvilenses. De acordo com o CMDM, uma mulher ter um relacionamento ou filhos não deveria ser um impedimento para que ela faça qualquer coisa.

Segundo a conselheira do CMDM Ana Paula Nunes Chaves, as cláusulas impostas pela Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville no regulamento são machistas, pois impedem mulheres de participar do concurso por escolhas que tenham feito. “A mulher não pode permanecer sendo julgada por seguir suas convicções e escolhas, além de não ser culpabilizada socialmente por ser mãe, uma condição naturalmente sua e que a própria sociedade ainda à impõe”, afirma.

Para Ana, os critérios estabelecidos pelo regulamento são maléficos à luta das mulheres por direitos e emancipação porque mantém a “manutenção dos limites da mulher, onde ela só pode chegar a alguma lugar se estabelecido alguns critérios patriarcais e machistas”.


Texto: Fernando Costa
Foto: Festa das Flores/Divulgação