Avanços e problemas: os 31 anos de existência do SUS

Reportagem de Fernanda Eliza

Você já imaginou como seria a saúde no Brasil se não houvesse o Sistema Único de Saúde (SUS)? Há exatos 31 anos, o país modificou a forma como tratava a saúde pública. Em 19 de setembro de 1988, a Assembleia Constituinte aprovou a criação do SUS, financiado pelo Estado, com abrangência nacional e totalmente gratuito. Foi criado após inúmeras reivindicações de profissionais da saúde e pessoas que não podiam pagar por cuidados médicos, juntamente com o movimento de democratização do Brasil em uma conjuntura pós ditadura militar.

Depois de três décadas, segundo o Ministério da Saúde, mais de 70% da população brasileira utiliza o SUS. Em Joinville (SC), a situação não é diferente. De acordo com a Prefeitura Municipal, 73% dos moradores da cidade utilizaram a saúde pública em 2018, atendimentos divididos entre as 56 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e suas três extensões, 13 serviços especializados, três prontos atendimentos, cinco hospitais e o Samu.

Prédio da Vigilância Epidemiológica, onde é feito o tratamento para pessoas com HIV – Foto: Prefeitura

A Vigilância Epidemiológica, por exemplo, faz parte do SUS, onde Eduardx Emanoel, 20 anos, empreendedor, faz tratamento para o HIV há quase um ano. De seis em seis meses são feitas coletas para a verificação da carga viral, da imunidade e outros exames comuns de sangue. A medicação para controle do vírus, o antirretroviral, é distribuída gratuitamente para soropositivos a cada um ou dois meses.

Desde 1996, o Brasil distribui de forma gratuita todos os medicamentos antirretrovirais e, desde 2013, o tratamento contra o vírus é garantido para todas as pessoas dentro do SUS. Fora do país, o sistema público brasileiro é referência no tratamento contra o HIV.

Tânia Crescencio, 60 anos, nutricionista, que trabalhou por cinco anos na Vigilância Epidemiológica e atuou no Conselho da Saúde até este ano, conta que, por ser um sistema de saúde pública, o SUS consegue quebrar as patentes de alguns laboratórios, ou seja, novas e melhores medicações passam a ser de domínio público, como é o caso dos tratamentos para HIV e hepatite. A nutricionista ainda aponta que, atualmente, há um desmonte do programa, como os recentes cortes em medicações.

Ela explica que onde há falta de medicações, as doenças transmissíveis tendem a crescer. Em 2015, por exemplo, houve falta de medicamentos para a sífilis em toda Santa Catarina, onde também fora registrado o aumento de casos da doença.

Eduardx comenta que não poderia pagar o tratamento do HIV e que tem certeza que seria inacessível para muitas outras pessoas. “Acho que seria preocupante se acabasse no SUS e somente tivesse por rede privada. Seria uma calamidade, voltaríamos aos anos 80, onde as pessoas morriam, mas dessa vez, não por conta da medicação, e sim porque elas não teriam como pagar,” diz.

A produtora rural Carmem Fernandes, 65 anos, vive com um salário mínimo por mês e conta que não teria condições de pagar por médicos particulares. “Só se tiver ajuda dos filhos”, diz. Ela utiliza o SUS para consultas com o médico clínico geral e para pegar receitas de remédios controlados, principalmente.

Policlínica Floresta – Foto: Divulgação

De dois em dois meses, Carmem passa na UBS do bairro Floresta para retirar remédios para a ansiedade, como o Fluoxetina, distribuído gratuitamente pela rede, e também para receber o receituário do Rivotril, o qual precisa comprar. Quando questionada o que acha do SUS, é sincera: “O que eu eu vou te falar, podia ser melhor, mas do pior ainda é o melhor. Se não fosse o SUS seria bem pior, né?”, reflete.

Atualmente, alguns postos de saúde estão com o horário estendido até as 22 horas. Carmem avalia a mudança como positiva, principalmente para os trabalhadores. “A mulherada vem do serviço, pega as crianças e vai no SUS. Tomara que ficasse assim, né, muito mais vantagem”, explica. Para ela, o SUS é importante, especialmente para os mais pobres, mas que ainda precisa melhorar muito, por exemplo, os encaminhamentos aos especialistas. “É muito demorado”, reclama.

Técnica em enfermagem e servidora pública da saúde há 13 anos, Adriana Flores, 37 anos, concorda em relação a demora para consultas com especialistas. Ela conta que dentro do encaminhamento é especificado o grau de gravidade do paciente, mas que ainda assim o atendimento é demorado. “Faltam especialistas na rede. É muita gente pra ser atendida. Endocrinologista, oftalmologista e cardiologista, por exemplo, são as áreas que precisam de mais especialistas. É o déficit que eu vejo”, explica.

Para Adriana, o SUS fez diversos avanços ao longo dos anos. Um deles é a mudança no funcionamento para marcação de consultas. Antigamente, as pessoas precisavam ir de madrugada ao posto para pegar uma fila, aguardar por uma senha e aí talvez conseguir uma consulta médica para o mesmo dia ou o seguinte. “Hoje, você consegue ir em uma unidade e agendar uma consulta sem precisar estar nessa fila, era muita sofrida. Ou ainda, se está com uma queixa aguda, consegue ser atendido no dia, está mais flexível”, conta a servidora.

A vacinação também é outra mudança, segundo Adriana, positiva. Ela relata que são poucas as vacinas disponíveis no particular que não estão SUS. “Para nós que trabalhamos, a prevenção é uma coisa muito importante e a vacina é uma prevenção”, conta. Atualmente, o programa de vacinação do Brasil é referência mundial.

Ainda assim, segundo a técnica em enfermagem, há outros pontos que podem contribuir com a melhoria da saúde pública. Ela cita como exemplo os próprios usuários. Por trabalhar em uma UBS, ela observa a quantidade de faltantes em consultas médicas, em dentistas e exames, e como isso acaba por prejudicar as filas e outras pessoas que estão aguardando vaga na agenda. Adriana explica que é muito importante que as pessoas liguem e avisem quando não podem comparecer para que outro paciente possa ser encaixado e aquela oportunidade de exame, por exemplo, não se perca.

Para a servidora, cada unidade de saúde tem sua particularidade. Algumas atendem mais idosos, outras recebem mais crianças e defende que o poder público deveria gerir cada unidade conforme sua necessidade. E para compreender as especificidades de cada local, os Conselhos Locais de Saúde estão espalhados pela cidade, um por UBS. No caso do Itinga, Jair Satiro, 50 anos, padeiro, participa há dois anos do conselho e conta que a luta atual dos participantes é conseguir um psicólogo para a unidade do bairro. “As pessoas procuram mais a psicólogo, mais ajuda do que remédio. Ia adiantar muito mais”, avalia.

Mesa coordenadora do Conselho Local de Saúde do Boehmerwald em reunião recente – Foto: Arquivo Pessoal/Osni Batista

Já no Boehmerwald, Osni Batista, 73 anos, aposentado e voluntário na área da saúde desde 2004, conta que a principal conquista do conselho no bairro foi a construção da nova UBS. “Graças a persistência de lideranças comunitárias”, diz.

Tânia, Jair e Osni falam que a participação das pessoas é importante para o melhoramento do SUS. “Não adianta só reclamar do governo, isso é fácil, mas tem que pegar e ir à luta. Tem que participar das reuniões, tem que entrar nas manifestações, aí com certeza vai melhorar muito”, enfatiza Jair.

Inauguração da USBF Boemerwald, que saiu após muita insistência da comunidade – Foto: Prefeitura

Um dos problemas em comuns levantados por Tânia, Adriana, Jair e Osni é a má gestão. Adriana, por exemplo, cita que, para ela, no Brasil o sistema de saúde pública é perfeito porque abrange todas as esferas do ser humano, mas que a corrupção e a falta de gestão implicam furos na rede. “É um mecanismo, todas as partes têm que trabalhar igual, se falha um, falha todo mundo”, completa.

Outro fator apontado pela nutricionista e pela técnica em enfermagem, são as prioridades do sistema. Muitas vezes, para ela, o SUS foca mais no tratamento de doenças que poderiam ser prevenidas, do que na prevenção em si, e acaba gastando mais, pois os tratamentos são mais caros.

Jair não discorda. Para ele, se o dinheiro fosse bem aplicado, o SUS seria “o melhor plano de saúde que existe na face da terra”. Ainda completa explicando que se houvesse uma boa administração, muitas coisas iam melhorar, não iriam faltar remédios ou médicos nos postos. Tânia ainda reforça que se houvesse privatização da saúde, haveria mais exclusão das pessoas nos atendimentos.

Vivenciando diariamente o cotidiano da UBS, Adriana fala sobre a importância da rede pública, isso porque, segundo ela, o sistema atende a população como um todo, desde o pré-natal da mulher grávida, do teste do pezinho, até o idoso que pode precisar de um raio-x e de troca de curativos diários. “A pessoa é atendida em todos os segmentos na unidade. Como é complexo o SUS, como tu consegue atender uma coisa muito séria e outra nem tanto”, diz a servidora. Para ela, a abrangência do SUS mostra o quanto ele é importante.


Foto no topo: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *