Estudantes criticam mudança da UFSC Joinville para condomínio empresarial

O campus joinvilense da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem novo endereço, o condomínio empresarial Perini Business Park, no Distrito Industrial. A inauguração das novas instalações ocorreu na segunda-feira (5), com a presença de diversas autoridades. O novo contrato de aluguel é de R$ 412 mil por mês e vale por cinco anos.

A universidade tem um terreno próprio às margens da BR 101, na Curva do Arroz, mas as obras estão paradas e não há sinalização do Governo Federal sobre o reinício. A construção começou em 2008 e desde 2009 os estudantes têm aulas em prédios alugados. Até o ano passado, as aulas ocorriam em cinco prédios no bairro Santo Antônio, pelos quais se pagavam, somados, R$ 380 mil de aluguel por mês.

Apesar de mais caro, a reitoria justifica a mudança com uma série de vantagens. Além da unificação das atividades em um só local, houve aumento da estrutura física. Dessa maneira, o custo do aluguel por metro quadrado ficou mais barato. Também haverá, segundo a UFSC, economia na área de vigilância e manutenção. Outros benefícios são o espaço de convivência, área de esportes, amplo estacionamento, uso de equipamentos do condomínio e serviços de alimentação e reprografia.

A ideia de abrigar a universidade pública partiu do condomínio. Em março de 2016, o grupo empresarial apresentou uma proposta com base no projeto arquitetônico do campus na Curva do Arroz. Naquele ano, o reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo assumiu o comando da UFSC e se tornou um entusiasta do projeto. Mas havia uma exigência: o  custo pela nova estrutura não poderia ultrapassar o orçamento programado para o campus no endereço anterior. Passou.

Contudo, em consulta à Procuradoria Federal junto à Universidade, foi confirmada a possibilidade de utilização da “Locação sob Medida” por meio de licitação dispensável. Uma modalidade de contratação comum na Administração Pública e permitida pelo Tribunal de Contas da União (TCU). De acordo com a UFSC, a economicidade foi um dos princípios que o Ministério da Educação (MEC) avaliou para aprovar o projeto.

As obras foram iniciadas em julho de 2017 para entrega total em fevereiro de 2018. As aulas recomeçam, no novo campus, na próxima segunda-feira (12).

Aproximação à indústria

Além das vantagens citadas, a UFSC tem destacado a aproximação à indústria como o grande benefício do novo contrato. O Perini Business Park abriga mais de 150 de empresas nacionais e multinacionais, de pequeno, médio e grande porte e de vários setores da economia. Para a universidade, esta proximidade vai alavancar parcerias nas áreas de ensino, pesquisa e extensão.

A mesma intenção é compartilhada pelo grupo empresarial. “Trata-se de um divisor de águas para o complexo e o grupo vislumbra um novo ciclo de negócios com a implantação inovadora da primeira universidade federal em um parque industrial”, disse Marcelo Hack, presidente do Perini.

É justamente sobre este ponto que se concentra a crítica estudantil e de outros setores da sociedade. A página Coletiva Centospé publicou um texto em que critica o novo contrato de aluguel, argumentando que transfere dinheiro para a iniciativa privada e não constrói uma só sala de aula. Porém, o ponto importante da discussão, para os estudantes, é justamente a ligação com o empresariado.

“A alocação de um campus inteiro de uma Universidade Federal dentro de um business park privado é um perigoso precedente, um ousado passo na capacidade do mercado em direcionar a educação pública, que se soma a iniciativas nefastas como cobranças em especializações, parcerias público-privadas, o empresariamento da formação através das Empresas Júnior, a ação das fundações, as empresas públicas de direito privado (como a EBSERH) e as tentativas mais explícitas de privatização”, registra a nota.

O grupo ainda afirma que essa é uma forma de cooptar recurso público para resolver problemas privados. “Os princípios da universidade pública, o olhar para as necessidades populares, a formação humanista e generalista, a autonomia na produção científica, tecnológica e artística ficam todos extremamente ameaçados por essa relação”, aponta a Coletiva Centospé.

Atualização: Opinião do DCE

Para a estudante Jéssica Medalha Ferri, que integra a atual gestão do Diretório Central dos Estudantes na cidade, a maior parte dos alunos aceitou e até curtiu a mudança. Segundo ela, a condição anterior era muito precária e gerava uma série de problemas, resolvidos pela mudança.

Porém, outras questões são motivos de preocupação para o DCE. Em primeiro lugar, não houve consulta aos estudantes. “Certo dia chegaram e nos avisaram que no próximo semestre iríamos nos mudar. Disseram que a mudança era por motivos de economia, pois o proprietário de um dos cinco prédios alugados queria subir absurdamente o valor do aluguel. Mas a pergunta é: economia para quem?”

A estudante aponta que os alunos vão gastar mais para se deslocar até o novo endereço, já que há poucas moradias na região. Além disso, o novo campus fica em uma via de trânsito intenso (rua Dona Francisca), inclusive de caminhões, o que torna o trajeto mais perigoso para os estudantes que se deslocam de bicicleta.

Jéssica também demonstra preocupação com a proximidade excessiva com a indústria. “Joinville é um campus só de engenharias, nossa formação curricular é voltada para servir a indústria, somos incentivamos a trabalhar pra multinacionais, nossos grupos de competição são focados em produzir para o mercado e etc.. Acredito que isso cause uma crença, entre os alunos, de que mudar o campus para um condomínio empresarial é vantajoso, porque vai nos aproximar da realidade do nosso mercado de trabalho, porque haverá uma ponte entre nós e a indústria… Isso pra alguns alunos, e me incluo nisso, é extremamente perigoso!”

Ela defende que o compromisso da universidade pública é direcionar a produção de conhecimento e material para o que é publico. “Me incomoda extremamente que nossa universidade esteja no meio do que mais explora e lucra em cima do que produzimos. Me incomoda saber que há grandes possibilidades das indústrias ao redor do campus direcionarem o que será produzido lá dentro e, principalmente, encher os alunos da ilusória realidade de que servimos o mercado. Isso nos distancia de voltar nossa produção de conhecimento para os problemas sociais reais a nossa volta”, opina.

“Vocação industrial”

Assim como a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a UFSC de Joinville também foi criada com foco total em cursos ligados à indústria, descartando formações em outras áreas, como Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Biológicas e outras. O poder público sempre justificou essa escolha a partir do que chama de vocação industrial da cidade. Isso, porém, sempre foi alvo de críticas da comunidade estudantil, que precisa optar entre o ensino privado ou a mudança de cidade no caso de escolher uma profissão das áreas não contempladas.

A UFSC Joinville oferece os seguintes cursos: Bacharelado Interdisciplinar em Mobilidade e as engenharias Aeroespacial, Automotiva, Ferroviária e Metroviária, Mecatrônica, Naval, de Infraestrutura e de Transportes e Logística. Alunos, professores e técnicos-administrativos formam uma comunidade de quase 2 mil pessoas, sendo 1.660 alunos de graduação, 100 de pós-graduação, 46 técnicos-administrativos e 101 professores.

Texto: Felipe Silveira
Foto e informações: UFSC Joinville

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