Ciclistas promovem bicicletada contra remoção de ciclofaixa em Joinville

Incomodados com o apagamento de parte de uma ciclofaixa na rua Doutor Plácido Olímpio de Oliveira, no bairro Bucarein, ciclistas protestaram na noite desta sexta-feira (2) em Joinville. O trecho foi apagado menos de um mês após a implantação da ciclofaixa em toda a extensão da via. Na bicicletada, a Prefeitura foi acusada pelos manifestantes de desrespeitar o Plano de Mobilidade de Joinville (PlanMob), desperdiçar dinheiro público e ceder à pressão da Igreja Assembleia de Deus de Joinville (IEADJO), beneficiada com o retorno das vagas de estacionamento que haviam sido substituídas pela ciclofaixa anteriormente.

Após concentração na Praça da Bandeira, cerca de 40 ciclistas pedalaram em direção à rua Doutor Plácido Olímpio de Oliveira. No trajeto, o grupo fez uma parada na rua Visconde de Taunay, onde o ciclista Vanderley Ludka foi atropelado em 2015. Vanderley sobreviveu ao acidente, mas ficou com sequelas graves. Chegando na Doutor Plácido Olímpio de Oliveira, os ciclistas estacionaram suas bikes nas vagas que foram devolvidas aos carros após retirada da ciclofaixa.

A pedalada foi convocada pelo movimento Bicicletada Joinville e ganhou apoio até de quem só havia saído de casa para passear com o filho, como fazia Adriano Provensi, de 30 anos. Ele conta que costuma sair de sua casa, no Centro, para pedalar com o pequeno Nicolas, de seis anos, até o Parque da Cidade, no Guanabara, na zona Sul. Para a sua segurança e de seu filho, Adriano espera que a ciclofaixa seja repintada.

Adriano e seu filho Nicolas aderiram ao protesto
“Antes eu passava por aqui uma vez por semana, a cada quinze dias. Agora que eu comprei uma bicicleta nova para o meu filho eu estou passando quase todo dia. Eu chego aqui e tenho que ir pela rua, pela calçada”, reclama Adriano. “Se foi ou não foi a igreja que pediu, não dá nada. O que importa é nós conseguirmos de volta”, diz o ciclista sobre as informações que leu na internet e que davam conta de que a ciclofaixa havia sido apagada a pedido da igreja.

Quando questionada, a Prefeitura não negou nem admitiu que a ciclofaixa foi apagada a pedido da igreja. Os manifestantes têm convicção de que foi isso que aconteceu. Chamou a atenção dos ciclistas que a faixa só foi apagada entre a rua São Paulo e a avenida Getúlio Vargas, onde as vagas de estacionamento são ocupadas por carros de fiéis, principalmente em dias de culto. Há vagas para carros dos dois lados da rua e pelo menos dois estacionamentos privados para a igreja. No trecho, também localiza-se a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso.

A ciclofaixa foi instalada na rua em dezembro de 2017, conforme publicação no site oficial da Prefeitura de Joinville. O Departamento de Trânsito da Prefeitura de Joinville (Detrans) implantou nos dias 9 e 10 de dezembro ciclofaixas em toda extensão da rua Doutor Plácido Olímpio de Oliveira e em trecho da General Valgas Neves. A ação havia ampliado a malha cicloviária de Joinville em mais 1,7 km. À época, a Prefeitura já previa que o estacionamento no lado direito da via – que tem mão única – seria suprimido.

Fiéis defendem remoção de ciclofaixa

Márcio Corrêa, de 39 anos, que trabalha na IEADJO, disse que vê poucos ciclistas passando pela rua, que liga os bairros Bucarein, Anita Garibaldi e Atiradores. Ele não soube informar se a retirada da ciclofaixa foi um pedido da igreja, mas acredita que não, pois confia na “índole” do seu pastor. “Antes de pintar a faixa, era raro ver uma bicicleta passar aqui. Agora porque pintaram e tiraram a pintura, fizeram esse protesto”. Márcio reclamou de alguns ciclistas que protestaram dizendo que a igreja não paga IPTU – o que é verdade.

Um pastor, que também esteve no local e não quis se identificar, também disse que não passam ciclistas na rua. “Esse pessoal nem é daqui, são do outro lado da cidade. Só vieram pra agitar e só porque é igreja. Isso aí é agitação em vão”, afirmou. Em conversa com um dos manifestantes, ele disse que “a rua é pública, não é da Igreja” e que o grupo deveria procurar o prefeito. O pastor também defendeu que as vagas de estacionamento são importantes para o comércio e para a delegacia.

Prefeitura não informa quanto desperdiçou

A Prefeitura informou que removeu a ciclofaixa porque o local é “muito utilizado por veículos” e que os ciclistas podem utilizar a calçada neste trecho. A assessoria de imprensa da Prefeitura não respondeu se isso não havia sido identificado antes da implantação da ciclofaixa. O valor gasto para pintar e apagar o trecho também não foi informado. No ano passado, uma situação parecida aconteceu na rua Iguaçú, no bairro Santo Antônio. Uma ciclofaixa foi pintada numa noite e apagada poucos dias depois.

Para Fellipe Giesel, do movimento Bicicletada Joinville, trata-se de uma decisão política e não técnica. “Não há justificativa para diminuir a segurança dos ciclistas e manter o privilégio de algumas pessoas que frequentam a igreja e querem usar o espaço público como estacionamento privado”, defende Fellipe. Para ele, a adesão ao protesto mostra que as pessoas “percebem a falta de condições para os ciclistas e estão preocupadas com seus direitos”. Giesel explica que o Pedala Joinville, movimento presente na manifestação, enviou ofício à Prefeitura questionando a remoção da ciclofaixa. Haverá uma reunião, “mas enquanto a ciclofaixa não for repintada, os protestos vão continuar”, garante o ciclista.

Ciclofaixa é desrespeitada por motoristas

Durante bicicletada, grupo parou para advertir motorista que havia estacionado na ciclofaixa
Se não bastassem situações como a remoção da ciclofaixa, os cilistas ainda convivem com o desrespeito no trânsito. Durante a pedalada, o grupo encontrou um carro estacionado em uma ciclofaixa. A motorista foi advertida com uma salva de palmas dos ciclistas e saiu com seu carro sem pestanejar. Mais tarde, após o protesto, dois carros foram flagrados estacionados na ciclofaixa da rua Doutor Plácido Olímpio de Oliveira. Os motoristas foram alertados por ciclistas e deixaram a ciclofaixa.

Texto e fotos: Alex Sander Magdyel