Jovem vende brigadeiros para construir guarda-chuva para cadeirantes

Texto: Fernando Costa
Foto: Luiz Otávio/Arquivo Pessoal

O assistente administrativo Diego Machado, de 27 anos, nunca teria imaginado que receberia uma ligação de um estranho, que estaria interessado em fazer um projeto para melhorar a sua vida, por ter sido visto esperando um ônibus debaixo do sol do verão joinvilense.

Era fevereiro de 2019 e Diego, que é atleta paralímpico de bocha, esperava o ônibus após o trabalho para ir treinar o esporte.

Diego Machado é atleta paralímpico de bocha – Foto: Claudio Garcia/ANDE

Ao mesmo tempo, o estudante Luiz Henrique Caldas Otávio, de 23 anos, ia ao banco para sacar o seu salário, enquanto se protegia do sol intenso com uma sombrinha, quando avistou Diego esperando no ponto de ônibus, sentado em sua cadeira de rodas, sem conseguir escapar do calor e da luz.

“Fiquei sentido com a situação e dentro de mim veio uma vontade de fazer algo pra mudar aquilo”, afirma Luiz.

Voltando para a Udesc, onde estudava na época, Luiz encontrou pessoas que usavam o mesmo crachá que o cadeirante que havia avistado tinha no pescoço. Perguntou se elas conheciam o homem que tinha visto no ponto de ônibus para conseguir o contato dele, mas elas não o conheciam. Mesmo assim, sugeriram a Luiz que fosse até a empresa para pedir o contato de Diego.

E Luiz foi. E, ao chegar na empresa em que Diego trabalha, conseguiu o contato dele com um conhecido. “Eu peguei o WhatsApp dele, entrei em contato e contei minha ideia louca. Ele achou bem bacana, comprou a ideia do projeto”, disse Luiz.

A “ideia louca” de Luiz era projetar um guarda-chuva, adaptado para cadeiras de rodas, para proteger o usuário do sol e da chuva. Diego demonstrou interesse imediato na ideia de Luiz: “como eu já sabia que era algo não se tem no mercado, aceitei na hora”.

Desde então, Luiz trabalha no protótipo de um guarda-chuva para cadeirantes, com o objetivo de proteger tanto o usuário quanto os componente eletrônicos da cadeira, que não podem ser molhados.

O projeto

O guarda-chuva para cadeirantes ainda está em estágio de desenvolvimento. Ele consiste em uma armação de metal fechada com tecidos impermeáveis, que é engatada na parte traseira da cadeira de rodas, com o objetivo de criar um toldo.

O protótipo é encaixado na cadeira de rodas para proteger usuário da chuva e do sol – Foto: Luiz Otávio/Divulgação

Mesmo sendo leigo no assunto, todo o projeto e as adaptações foram feitas por Luiz, que contou com parcerias para conseguir tirar o guarda-chuva para cadeirantes do papel. Pelas contas dele, fez cerca de doze reuniões com Diego, para dar os devidos toques e ajustes. “Eu ia à recepção [da empresa onde Diego trabalha], mostrava meus desenhos, tirava algumas medidas da cadeira e perguntava o que ele achava”, afirma.

Com todas as dificuldades de ter que aprender assuntos de áreas do conhecimento que não está familiarizado, Luiz percebeu que seria mais prático se uma pessoa com experiência na área executasse o projeto. “Depois que eu consegui tirar o projeto do papel, eu percebi o quão fácil é para quem tem experiência entortar o ferro nos ângulos pedidos e fazer os pontos de solda”, explica.

Embora tenha custeado todo o projeto com dinheiro que saiu do próprio bolso, Luiz acredita que é possível replicar o toldo para cadeiras de rodas por um custo acessível. O estudante estima que gastou, até o momento, em torno de R$ 400, mesmo tendo comprado “muitas coisas que, no final, não foram necessárias”.

Embora o projeto inicial fosse o de um guarda-chuva para cadeirantes manual, que seria encaixado atrás da cadeira, Luiz trabalha atualmente em uma forma de tornar todos os movimentos do guarda-chuva automatizados, para que Diego – e, no futuro, outros cadeirantes – possa apertar apenas um botão para armar ou desarmar a estrutura.

O caminho de Luiz até o Brigachuva

Na época que Luiz viu Diego pela primeira vez, esperando um ônibus sob o calor intenso do verão, ele era estudante de Ciências da Computação na Udesc e trabalhava como estagiário no departamento de física da universidade.

Pouco tempo após ter entrado em contato com o Diego pela primeira vez, Luiz descobriu que não conseguiria mais receber suporte financeiro da sua família, que é de Sorocaba (SP), para continuar morando em Joinville. Resolveu sair do estágio e trancar o curso por um tempo. Conseguiu emprego como desenvolvedor de sistemas júnior em uma empresa da cidade.

Trabalhando como desenvolvedor e tocando o projeto do guarda-chuva para cadeirantes paralelamente, Luiz notou num momento que precisaria ter mais tempo para desenvolver o guarda-chuva para cadeiras de rodas se quisesse que o projeto desse certo. “Chegou um momento que eu não conseguia mais convencer por telefone ou email os donos das lojas de ferramentas e materiais a me ajudarem com o projeto”, conta.

Luiz decidiu, então, sair do seu emprego como desenvolvedor para ter mais tempo para desenvolver o guarda-chuva para cadeirantes. “Com o bônus que eu tinha do vale transporte do meu emprego eu andei por Joinville inteira, visitei muitos fornecedores e lojas buscando parcerias”, explica.

E entre essas visitas a diferentes empresas, Luiz conseguiu fazer uma parceria com o dono da Retalhaço, uma distribuidora de aço localizada no sul de Joinville.

Os problemas envolvendo a falta de tempo e de parceiros para o projeto do guarda-chuva estavam se resolvendo, mas as contas a pagar e a falta de uma fonte de renda fixa levaram Luiz a procurar alguma forma de se sustentar.

E foi no YouTube, vendo vídeos que ensinavam a fazer brigadeiros e a vendê-los nas ruas, que Luiz achou uma solução. “Com o restinho do dinheiro da rescisão eu comprei duas latas de leite condensado, duas caixas de cremes de leite, chocolate em pó e algumas sainhas de papel e fiz meus primeiros brigadeiros”, revelou.

A venda dos brigadeiros foi o suficiente para que Luiz pudesse pagar as suas contas e conseguir mais dinheiro para continuar o projeto do guarda-chuva. Naquela época, ele abriu uma página no Facebook e uma conta no Instagram com o nome de “Brigachuva”, onde ele explicava que vendia os brigadeiros com o intuito de custear os materiais necessários para a confecção do guarda-chuva para cadeira de rodas.

Atualmente, Luiz é estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas no Senai e faz estágio na área de TI. Embora não precise mais vender os brigadeiros para pagar as suas contas mensais, eventualmente volta às ruas com os doces para arcar com as despesas do projeto. “Volto a vender quando tenho que comprar materiais com custos mais elevados”, explica.

O futuro

Adaptações para recolhimento do toldo são testadas – Foto: Luiz Otávio/Divulgação

O guarda-chuva para cadeiras de rodas que Luiz projeta para Diego ainda não está pronto, mas ambos já pensam nos benefícios que um projeto como esse pode trazer para cadeirantes no Brasil e no mundo todo.

Diego vê o projeto como algo que ajudará milhares de cadeirantes. “O que realmente faltava no meu dia-a-dia era algo para me proteger da chuva. Se [o guarda-chuva] resolver [esse problema] para mim, que sou tetraplégico parcial, vai resolver para grande maioria dos cadeirantes”, afirma Diego.

Já Luiz pensa em patentear o projeto e trabalhar com parcerias no futuro para poder produzir o guarda-chuva automatizado em escalas maiores. “Eu vou disponibilizar os detalhes e desenhos técnicos para quem me pedir, a fim de desmistificar e ajudar quem precisar”, afirma.


2 comentários em “Jovem vende brigadeiros para construir guarda-chuva para cadeirantes

  • 9 de Janeiro de 2020 at 9 de Janeiro de 2020
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    Parabens pela sua iniciativa , o caminho para o sucesso depende de determinação, raça, coragem, persistência, parceria do quem gostou do seu projeto, é fundamental e sempre é bem vinda. Este projeto apesar de ser simples, ele atingirá um nivel global , isto é para todos que precisam. Trabalho que é feito com muito carinho e humildade e paciência e amor já é um grande sucesso só por ter saido do papel e existir, só falta dar alguns retoques final de acabamento, que são as peças mais caras deste lindo projeto. Se tocou seu coração adote esta ideia e vamos ajudá-lo a terminá-lo. QUALQUER DOAÇÃO SERÁ BEM VINDA.
    Mais uma vez PARABENS pela sua idéia genial, É das coisas simples que surgem grandes idéias
    de seu pai – Luiz

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  • 9 de Janeiro de 2020 at 9 de Janeiro de 2020
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    Parabéns!
    Pessoas como você, dignificam a raça humana!

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