Professor explica por que Joinville pode sofrer com aumento do nível do mar

Parte de Joinville pode sumir até 2050. Esse foi o título de uma matéria que publicamos recentemente, repercutindo uma reportagem da Folha de São Paulo que falava sobre o aumento do nível do mar. Bom, querendo entender melhor o assunto, O Mirante conversou com o professor Orlando Ferretti, do departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E ele é categórico: se tivessem sido mantidas as áreas originais de manguezal, “com certeza o risco seria menor para a cidade”.

Segundo Ferretti, o mangue é responsável por segurar o aumento da maré e do nível do mar. “Essas áreas representam uma barreira importante. Os vários canais em formato de curva que existiam diminuiriam a velocidade da maré que sobe e, assim, ela se explanaria ao longo desse manguezal, não chegando ao centro e outras regiões. Isso, infelizmente, não acontece porque todos esses canais estão retilinizados. Ao mesmo tempo em que a água desce para o mar em uma maior velocidade, em um aumento de maré ela também chegaria com maior velocidade para atingir o Centro e outras regiões”, explica o professor.

A presença de Joinville no estudo como área de risco acontece porque, segundo Ferretti, a cidade está no mesmo nível do mar e, em alguns pontos, até abaixo, o que parece estranho, mas tem uma explicação científica. Segundo o professor, isso ocorreu com o processo de regressão marinha dos últimos dois mil anos, que afetou algumas áreas do interior, um pouco depois do litoral e que são mais baixas.

Além disso, as áreas nas margens da baía Babitonga estão no nível do mar, com um ou dois metros acima, no máximo. Com isso, o impacto das subidas da maré seria maior nesses locais.

O rio Cachoeira, que tem impacto direto dos efeitos das marés, também seria afetado. Com o aumento do nível do mar, isso ficaria mais forte, com uma elevação maior da água. “E um aumento pequeno, de 20 a 30 centímetros, já seria um desastre para a área do Centro de Joinville”, ele afirma.

Outro aspecto que pode afetar Joinville está ligado aos alagamentos que acontecem no Centro mesmo em dias de sol, causados pela subida da maré nos rios que passam pela região, como o Mathias e o próprio Cachoeira. Com o aumento médio do nível do mar, esse efeito pode ser mais frequente e até mesmo mais intenso.

Efeitos do aumento do nível do mar na flora e na fauna

Em relação à fauna, segundo o professor, há uma tendência do processo de migração. Quando há mudanças no ambiente, causadas pelo aquecimento global ou por alterações de microclima local, os animais tentam sair desse ambiente.

O mangue, por exemplo, é um ambiente importante para diversos animais, tanto para alimentação quanto para procriação. Esse habitat, que recebe água salgada e doce, teria uma maior salinização com o aumento do nível do mar, impactando diretamente na fauna e na flora do local. Segundo Ferretti, isso já está acontecendo em algumas ilhas da Ásia, em que algumas aves estão mudando os hábitos e até mesmo desaparecendo, por não conseguir sobreviver no ambiente alterado.

Em relação à flora, além das áreas de mangue, locais de restinga sofrem quando há subida de maré ou um número maior de ressacas.


Texto: Alexandre Perger
Foto: Eberson Theodoro

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