O Sesc salva: “Bacurau” terá sessão única em Joinville

O filme que conta a história de uma vila que sumiu do mapa finalmente vai passar na cidade que parece ter sumido do mapa cultural do país. “Bacurau”, a obra mais falada do ano no Brasil, finalmente vai passar em Joinville. Não graças às exibidoras atuantes na cidade, que privaram o público dessa experiência, mas sim ao Sesc, que realiza exibição única no dia 13 de novembro, às 19h30.

E não adianta chorar. Por questões de licenciamento, a exibição será única. Tire o cavalo da chuva e se prepare para a fila. A distribuição de ingressos, gratuitos, começa às 18h30 do dia 13 e promete ser concorrida.

Mas, afinal, por que o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, sucesso de público e crítica, não passou na mais populosa cidade catarinense? Jéssica Frazão, colunista do jornal O Município, de Blumenau, foi atrás da resposta, já que a cidade do Vale do Itajaí passou pela mesma privação.

Ela ouviu as empresas (de três em Blumenau, duas operam os cinemas de Joinville) e obteve respostas que variam entre a falta de demanda, falta de cópias e até mesmo empecilhos da distribuidora. Porém, a colunista desenvolve outra hipótese. “Será mesmo que é um problema de distribuição ou também há falta de vontade dos multiplexes em proporcionar essa experiência ao expectador para além dos blockbusters?”, questionou.

O argumento da colunista, que é doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais na USP, é tão bem desenvolvido que chamou a atenção e mereceu a indicação do próprio Kleber Mendonça Filho, no Twitter. “Esse texto passional expõe algo impressionante”, disse o diretor na rede social, na segunda-feira (28). Você precisa ler para saber do que se trata. Nos dias seguintes, ao comentar o anúncio de uma sessão em uma comunidade, o diretor voltou ao tema:


Viajo porque preciso…

Nem todo joinvilense suportou o flagelo de ficar sem “Bacurau”. O jornalista e crítico de cinema Vincent Sesering, do Coquetel Kuleshov, viajou para ver o filme em uma capital próxima logo nas primeiras semanas, apesar de ter esperanças de exibições tardias na cidade.

“Eu tinha uma expectativa positiva sim porque Joinville, pelo menos em que se trata do GNC, costuma passar filmes nacionais em pelo menos uma das nove salas e também porque ‘Aquarius’, do Kleber, também passou por aqui. Mas principalmente imaginei que viria porque a Vitrine está fazendo uma distribuição exemplar, levando os diretores pra várias cidades, promovendo pesado nas redes, fazendo um trânsito das cópias. Além de ter sido um filme super aguardado e premiado em Cannes”, contou, em entrevista no dia 13 de setembro.

O filme estreou nacionalmente no dia 23 de agosto. Nos meses seguintes, foi estreando de cidade em cidade país afora. Mas, antes mesmo da frustração de parcela da população, Vincent já alertava para a possibilidade de não haver “Bacurau” por aqui, oferecendo três explicações. A primeira é que o filme sobre Edir Macedo continua a bater recordes de bilheteria com salas vazias e já estava há tempo sendo “o filme nacional” das salas da cidade. Ou seja, a cota do filme nacional estava preenchida.

Outra explicação está relacionada à questão política, embora ele mesmo praticamente a descarte. “Tem também sempre a pulga atrás da orelha de que questões políticas possam pesar, claro, mas acho que não é o caso. Uma porque dinheiro acaba falando mais alto e outra porque o ‘Aquarius’ fez muito mais barulho nesse aspecto e passou aqui de boa”.

E a terceira, para o cinéfilo, é a mais provável. “Por mais que a gente goste de cobrar das empresas, eu acho que o que acaba determinando é o consumo daqui. Os números de lotação das salas nesse tipo de filme, de tempo, de público em potencial”, cogita Vincent.

Para ele, os “filtros conservadores” dos exibidores, como o fato de ser um filme brasileiro, descaradamente nordestino, violento, com mais de duas horas, com uma classificação indicativa de 16 anos, entre outros, alinhado ao comportamento médio dos joinvilenses, pesam na hora de fazer essa escolha.

Vincent disse que gostaria de ver o seu filme favorito do ano novamente, mas gastar com ônibus e ingresso não é algo indicado a fazer sob o mesmo salário. Ele terá a oportunidade de ver no próximo dia 13, no Sesc, mas para isso terá que enfrentar o que promete ser uma dura disputa pelo ingresso.

O filme

O filme, que se passa em um futuro próximo, conta a história de Bacurau, um povoado do sertão de Pernambuco que some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável? Eis a questão.

Com um elenco nacional e internacional, como Sonia Braga, Silvero Pereira, Barbara Colen e Udo Kier, tem a força em seus personagens. “Um enredo simples e personagens imensos”, destaca Vincent, ressaltando que tudo é alegoria. Para Frazão, “um filme sobre resistência e de resistência”. O crítico Pablo Villaça afirma que o filme é sobre o Brasil de Bolsonaro. Para Marcelo Hessel, do Omelete, o filme colocou o Brasil novamente na vanguarda das artes.

Co-produção entre Brasil e França, “Bacurau” venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e de Melhor Filme no Festival de Munique. Tem 2h10, classificação indicativa de 16 anos e já foi visto por quase 700 mil pessoas em todo o Brasil.


Texto: Felipe Silveira
Foto: Victor Jucá/Divulgação

2 comentários em “O Sesc salva: “Bacurau” terá sessão única em Joinville

  • 31 de Outubro de 2019 at 31 de Outubro de 2019
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    Discordo, esse ano está sendo uma dos melhores anos em opções culturais em Joinville, seja no teatro, musica, dança, exposições artes e outros e com grande público presente. Nunca se ouvir falar tanto em cultura em Joinville, logicamente temos que melhorar mas que esse ano está sendo o melhor ahaaa tá sim.

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  • Pingback: Dois meses depois do lançamento, "Bacurau" estreia em Joinville

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