Grupo de Estudos Anarquista realiza debate sobre pedagogia racionalista

Ocorre nesta quarta-feira (23), às 18 horas, mais um encontro do Grupo de Estudos Anarquista na Univille. O evento, que ocorrerá no campus norte da Univille, no bloco A, sala A209, terá a participação especial do professor Douglas Bahr Leutprecht, que vai falar sobre o artigo “Usos da pedagogia racionalista na Escola Moderna nº1 de São Paulo (1913-1919)”, escrito por ele e pelo professor Norberto Dallabrida.

Durante o encontro será vendido o livro “Educação e anarquismo em movimento”, de Douglas Bahr Leutprecht, que respondeu às perguntas de O Mirante sobre o tema do encontro e da obra.

A pedagogia racionalista foi elaborada pelo educador anarquista Francisco Ferrer y Guardia e seus colaboradores na Escola Moderna de Barcelona no começo do século XX, caracterizada pela forte influência anarquista e anticlerical. A execução do teórico, em 1909, causou um interesse imenso por suas ideias. Desse movimento nasceu a Escola Moderna nº1 de São Paulo, dirigida pelo anarquista João Penteado na maior parte do tempo. Os autores do artigo buscam compreender o processo de adaptação da pedagogia racionalista na escola.

Douglas é graduado em História (2009) pela Universidade da Região de Joinville (Univille), possui mestrado em Educação pela Univille e doutorado em Educação (2018) pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Ele é professor na Anima Digital e professor de Ensino Fundamental II na Secretaria de Educação de São Francisco do Sul.

De acordo com membros do grupo de estudos, é muito importante construir esse espaço de debate, que tem como intenção estudar temas além da rotina universitária, pois, às vezes, os estudantes precisam deixar de lado leituras que gostariam de debater. O próximo encontro, no dia 6 de novembro, vai ter uma conversa sobre a atual situação carcerária, além de um debate sobre o texto “As Prisões”, de Emma Goldman.

O grupo começou em 2018, estudando a linha cronológica do anarquismo, desde a fundação da Aliança da Democracia Socialista (ADS), em 1866, até Maio de 68, data histórica para o movimento estudantil e para a classe trabalhadora. Hoje, os temas são escolhidos por área de interesse. O grupo vai marcar uma data após os últimos encontros para produzir uma zine que aborde todos os temas do ano.

Entrevista com Douglas Bahr Leutprecht

O Mirante – O que o motivou a desenvolver a pesquisa?
Douglas Bahr Leutprecht – Durante a graduação em História, tive grande contato com a pedagogia anarquista, especialmente a de Francisco Ferrer y Guardia e a Escola Moderna de Barcelona. Porém, era um estudo apaixonado, pautado nos textos panfletários, e não em uma análise mais aprofundada das instituições de ensino. Já no início do doutorado, encontrei, coincidentemente, com um cd de fontes do Acervo João Penteado, relacionado com a Escola Moderna Nº1, com jornais e fotos da instituição. Nesse momento, eu não me interessava mais nos movimentos educativos (inclusive o anarquista) pelo viés da prescrição, ou seja, como os legisladores e teóricos imaginavam que deveria ser a educação. O tempo de chão sala de aula entre a graduação e aquele momento me fez refletir o quanto as transgressões escapam aos documentos oficiais, de modo que eu passei a me interessar mais pelas práticas, não pelas ideias. E isso fez eu me reaproximar de Ferrer y Guardia.

Qual é a importância do Francisco Ferrer y Guardia para a história da educação?
Apesar de Ferrer y Guardia não ser um teórico genial da educação, ele fez algo que, para mim, foi muito maior: entrou em ação e, entre erros e acertos, criou uma instituição pautada nas suas convicções. A práxis para além do discurso genérico, que é tão comum hoje em dia. Ele participou ativamente das discussões sobre laicismo na educação, coeducação de gênero, entre outras. Sua morte trágica, como suposto idealizador da “Semana Trágica de Barcelona” tornou-o o primeiro mártir global da educação. Sua influência pode ser notada em diversos autores, em especial, Celestin Freinet. Paulo Freire, o maior educador brasileiro, ao visitar Barcelona, fez questão de visitar seu túmulo assim que chegou na cidade. Escolas Modernas inspiradas na de Barcelona foram fundadas no mundo todo.

O que foi a Escola Moderna?
A Escola Moderna de Barcelona foi uma escola de orientação anarquista que existiu entre 1901 e 1906. Em alguns aspectos, ela era similar aos chamados “Grupos Escolares” que tínhamos no Brasil no início do século XX. Porém, discutia questões próprias do movimento anarquista, como a emancipação humana, igualdade de gênero, laicismo na educação, etc. Além do mais, defendeu a chamada Educação Integral, o grande legado dos educadores anarquistas para nós.

Como a Escola Moderna foi apropriada no Brasil e o EUA?
As duas experiências foram bastante distintas. A brasileira foi a que mais se aproximou do modelo barcelonês, especialmente porque aqui já se aplicava a chamada “pedagogia moderna”. Por conta disso, seguia uma lógica de racionalização do tempo e do espaço, além de uma formação clássica, pautada na leitura. Nos Estados Unidos, o movimento da Escola Moderna se chocou com o movimento da Escola Nova, de modo que surgiu algo relativamente novo. As discussões anarquistas em educação encontraram um terreno fértil em meio ao escolanovismo, de modo que surgiu uma educação muito mais voltada aos interesses da própria criança.

Qual é a importância da obra de Ferrer e das suas apropriações no passado para os dias de hoje?
Primeiramente, não é a importância da obra de Ferrer y Guardia em si, mas da História da Educação, onde Ferrer y Guardia é uma parte. Atualmente, especialmente nos cursos de graduação, somos levados a pensar que estamos na crista da onda o tempo inteiro. A disciplina de História da Educação costuma seguir uma lógica maniqueísta onde aprendemos sobre o passado da educação apenas para criticá-lo, de forma anacrônica, e concluir que somos “fantásticos” atualmente. Ferrer y Guardia e a História da Educação nos coloca em nossa devida insignificância nesse processo. Nossas práticas não foram inventadas ontem. Quando um professor leva seus alunos para uma excursão para ter contato com a natureza, acha que está fazendo algo revolucionário, quando na verdade está colocando em prática algo sistematizado no final do século XIX por Johann Heinrich Pestalozzi, pai da chamada pedagogia tradicional. Quando eu falo isso para os professores, alguns ficam ofendidos, porque enxergam na educação tradicional apenas um inimigo. E isso nos leva à uma segunda questão que é a identidade do professor. O mesmo maniqueísmo acima se reflete em uma falsa questão que opõe o suposto “professor tradicional” contra o suposto “professor crítico/inovador”. A prática e o estudo dela nos mostra que as coisas não são tão simples. Estamos o tempo todo ressignificando práticas tradicionais de forma inovadora, e também usando práticas inovadoras das formas mais tradicionais possíveis. E Francisco Ferrer y Guardia entra nessa penumbra: em alguns aspectos tradicional, em outros revolucionários. Nesse sentido, penso que sua maior contribuição seja justamente sua prática. Como mencionei, ele não se dedicou apenas em criar textos e textos sobre os problemas da educação atual, e como resolvê-los, para que outra pessoa resolva. Ele arregaçou as mangas e foi pra cima do problema, errando e acertando. E é isso que ele tem pra ensinar, especialmente para a Academia.

Como a universidade pública contribui nas pesquisas em educação?
Meu doutorado foi realizado na Universidade do Estado de Santa Catarina. Entrei em 2014, no início dos cortes das verbas da Pós-Graduação, ainda durante o governo PT, que foi intensificado pelo governo PMDB e, posteriormente, pelo governo PSL. A minha linha de pesquisa (História da Educação) tem uma característica muito específica: seus resultados não são mensuráveis diretamente. Vivemos um imediatismo, onde, de modo geral, as pesquisas necessitam apresentar resultados imediatos, e que possam ser mensuráveis e colocados em gráficos bonitos acompanhado de fotos de crianças usando equipamentos de alta tecnologia. A pesquisa em História da Educação é diferente. Ela produz “apenas” conhecimento, que é apropriado lentamente pelos interessados (no caso, professores), produzindo mudanças substanciais, mas a médio e longo prazo. E esse tipo de pesquisa não tem espaço na iniciativa privada, e não terá em uma instituição que venha a aderir a um programa semelhante ao “Future-se”, apresentado pelo Ministério da Educação. Resumindo, fora de uma instituição pública como a UDESC, a pesquisa nem teria ocorrido.

Você leciona na educação básica da rede municipal de São Francisco do sul, como a Escola Moderna pode contribuir na sua atuação na comunidade escolar?
Na mesma linha do que acabei de falar, não há resposta única para essa resposta. Particularmente, eu vejo duas grandes contribuições. Primeiramente, a que mencionei acima: desconstruir a ideia que estamos inventando a roda o tempo todo. Aprender que nossa ancestralidade enquanto professor é formada por práticas construídas historicamente é libertador para aqueles que tratam o passado como tabu. Assim, a velha pergunta “que tipo de professor você é?” feita em 9 a cada 10 reuniões pedagógicas nas escolas perde o sentido. Não existe tipo de professor, existem práticas que compõem nossa identidade, que podem ter origem desde os jesuítas e os professores “tradicionais” até as discussões sobre educação e tecnologia. Se for tentar dar um exemplo mais objetivo, posso dizer que Ferrer y Guardia e sua experiência educacional deu grande visibilidade à ideia de Educação Integral, criada pelos anarquistas, de modo que foi rapidamente apropriada por diversos movimentos educacionais, como o escolanovista, além de estar presente em políticas curriculares, como o caso na nossa atual BNCC.

A outra contribuição é desconstruir a lógica de emissor/receptor das políticas públicas em educação. Ainda se acredita muito que a educação funciona da seguinte forma: alguém, bem intencionado ou não, cria uma política e os professores tentam executá-la. A realidade não é assim. Ressignificamos as prescrições o tempo todo. Os professores da Escola Moderna de Stelton não tentaram “copiar” a Escola Moderna de Barcelona com base nos escritos de Ferrer y Guardia. E isso nos leva a outra frase que ouvimos o tempo todo no meio da educação “Ninguém, até hoje, aplicou Paulo Freire na Educação”. Não, e sabe por que? Porque ninguém aplica nada, e o próprio Freire nos ensina isso. Nos apropriamos de Freire, Ferrer y Guardia, e construímos nossas práticas criativamente. E o livro, resultante da pesquisa, evidencia isso. Um exemplo prático: em São Francisco do Sul, em 2018, os vereadores, no auge do populismo criado por esse tipo de coisa, aprovaram uma lei para a volta da Educação Moral e Cívica. Tirando questões de problemas do texto legal, antes de entender essa lógica de apropriação, eu ficaria apreensivo. Agora, vejo de outra forma. Os professores (inclusive eu) vão ressignificar essa tentativa prescrição, e poderão criar discussões bacanas, sobre cidadania, política e moralidade. Isso ocorre porque, a despeito do que pensam os grupos políticos, especialmente os conservadores, mudanças na educação nunca foram feitas na base da força. Quando a monarquia espanhola tentou fazer isso, alçou o educador Francisco Ferrer y Guardia do semi-anonimato a um lugar de destaque no mundo inteiro.


Texto e entrevista: Lucas Borba
Foto: Cedida por Cibele Piva Ferrari

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