Especial Fora de Pauta: Códigos, bits e empoderamento feminino

Bem-vindos ao especial Fora de Pauta, uma parceria entre a turma de Projeto Interdisciplinar do Curso de Jornalismo da UniSociesc e o jornal O Mirante. A iniciativa conta com reportagens especiais produzidas pelos estudantes, sob orientação da professora Samantha Borges. Divididos em grupos, eles direcionaram o olhar para temas que não aparecem constantemente nos jornais (o que explica o nome do especial) e produziram textos, fotos e vídeos sobre esses assuntos. Clique aqui para saber mais sobre o projeto e leia, abaixo, a primeira reportagem.

Códigos, bits e empoderamento feminino

Segundo o Inep/MEC, apenas 15,53% dos alunos de cursos relacionados à computação são mulheres

Reportagem de Eduardo Pertile,
Ariane Lorena, Evellyn Nicole e Bruno Vieira

De acordo com o Censo da Educação Superior, em 2016 as mulheres representavam 57,2% do ensino superior no Brasil. Mas elas ainda apresentam menor porcentagem em áreas de tecnologia. Em 2010, menos de 6% do mercado de trabalho era composto pelo gênero feminino.

Historicamente, a inserção feminina no meio tecnológico é instável. Em âmbito internacional, segundo a National Science Foundation, por volta do ano de 1965 ocorreu um crescente número de mulheres inseridas nesse campo. Seu ápice foi em 1983, quando atingiram cerca de 36% do setor, mas após isso houve uma queda. Em 2010, menos de 20% dessa área era composta pelo gênero feminino.

Já o atual setor tecnológico brasileiro apresenta uma quantidade bem maior de homens em comparação ao número de mulheres ou outros gêneros, como demonstra o gráfico abaixo:

Dados do Censo IBGE 2010

Entretanto, segundo a Faculdade Impacta, de São Paulo, essa realidade tende a mudar. A instituição, que foca em cursos de ciência da computação, executou uma pesquisa demonstrando que a presença feminina nas disciplinas aumentou cerca de 800% entre 2008 e 2013.

Mas quem já está nesse mercado?

De olho na programação
Jaciara Silva tem 31 anos e é programadora de softwares para impressoras. Em 2012 ela se formou em Tecnologia em Sistema de Informação pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Joinville. Segundo ela, quando iniciou a graduação, havia poucas mulheres no curso. Entretanto, quando fez uma pós-graduação em Engenharia de Software Ágil, se impressionou com o número alto do gênero. “Trabalho há cinco anos na minha empresa atual. Atualmente, a minha equipe é a mais feminina, contendo cinco mulheres. Hoje 30% da instituição é de mulheres e dizem que o objetivo é aumentar ainda mais”, afirma. Quando questionada sobre as dificuldades que enfrentou por conta de seu gênero, Jaciara conta que nunca foi intimidada diretamente, mas “é perceptível que o homem leva muito mais crédito pelo seu trabalho, as pessoas confiam mais em homens”, nas palavras dela. Sobre seu trabalho, Jaciara declara:

“No começo eu não gostava muito da profissão, mas depois fui me identificando, pois percebi que ela combinava com a minha personalidade mais introvertida. Você usa mais o cérebro do que a comunicação. Digamos que as mulheres na TI estão ganhando respeito ao longo dos anos. Alguns exemplos, como a menina que fotografou o buraco negro ou como a primeira programadora que levou o homem à lua. Aos poucos, as mulheres estão sendo mais reconhecidas.”

Mulheres ao volante
A empresária Rose Cuarelli viu na tecnologia uma oportunidade para inovar. Em 2018 ela criou em Joinville o Woman’s Drive, aplicativo que trouxe um novo conceito de transporte para a cidade. O software é exclusivamente usado por motoristas e passageiras mulheres. Rose comenta que na época em que trabalhava no Uber, outro aplicativo, muitas pessoas entravam no carro dela e ficavam felizes por ser uma mulher no volante. Ela também mencionou que no período em que surgiu a ideia, motoristas de aplicativos, principalmente mulheres, estavam sofrendo assaltos. “O medo, em si, do que estava acontecendo, fez com que (o projeto) criasse força e saísse do papel”, afirma.

Eliete Aparecida de Ávila é uma das motoristas do Woman’s Driver. “Ele não exige grau de escolaridade e diplomas, apenas que sejamos boas profissionais”, comenta. Por meio de relatos de suas clientes, ela também fala sobre o que as levam a aderirem à nova tecnologia, “A demanda de mulheres que pedem motoristas femininas é muito grande e é simplesmente pelo fato de se sentirem mais seguras”, corroborando com a motivação da criadora Rose Cuarelli.

Eliete Aparecida de Ávila é uma das motoristas do aplicativo Woman’s Driver – Foto de Eduardo Pertile

Mulheres na gestão
Daniella Correa tem 35 anos de idade e é Product Manager e gestora da empresa Conta Azul, empresa que apresenta um sistema de gerenciamento financeiro. Ela não trabalha diretamente na área de desenvolvimento, mas, como é formada em Publicidade e Propaganda e pós-graduada em Gestão e Administração de Negócios, Daniella é responsável por pensar nas necessidades dos clientes e orientar como o programa deve se comportar para que atinja seu objetivo. Ela conta que buscou enfrentar essa diferença no mercado com capacitação e superação de desafios. Além disso, afirma que a quantidade de mulheres realmente é menor.

“É uma questão cultural e social. Desde criança são feitas classificações do que é ou não uma ‘profissão feminina’ e não há nenhum incentivo nas escolas ou até mesmo da própria família para mudar isso”. Também cita outras mulheres que atuam na mesma área como inspirações. Entre elas, Sheryl Sandberg, do Facebook, e Paula Bellizia, da Microsoft. Sobre ser uma gestora, ela diz que busca criar um ambiente de cooperatividade, não competitividade. Em suas palavras, “não é sobre ter ‘a ideia vencedora’ ou ‘o vencedor’. O desafio está em ter nas pessoas um time com um objetivo em comum”, afirma.

Visão sociológica

Valdete Daufenback é socióloga e professora de sociologia em uma faculdade de Joinville. Como defensora do feminismo, ela fala sobre o motivo da mulher não ter tanta expressividade no mercado de trabalho tecnológico. Segundo ela, o machismo impregnado na sociedade sabota as mulheres e as marginaliza. A repórter Evellyn Nicole entrevistou a professora:

Quem fez e ainda faz história

Assim como a Jaciara, ou Daniella, outras mulheres na história dedicaram sua vida aos estudos tecnológicos e ajudaram a moldar o mundo, mas nem todas obtiveram reconhecimento. Uma das pessoas responsáveis pelo ser humano ter chego à lua foi a cientista Margaret Heafield. Ela escreveu o código de computador usado na missão Apollo 11, que levou os primeiros homens a pisar em solo lunar em julho de 1969. Em um momento da missão, o computador do foguete superaqueceu, mas por conta do software escrito por Margaret ter capacidade de desconsiderar ações desnecessárias, o pouso foi bem-sucedido.

Recentemente, em 2019, outra mulher revolucionou a ciência espacial. Katie Bouman desenvolveu um algoritmo para entender milhares de dados astronômicos. Com isso ela, juntamente com o resto da equipe, conseguiu captar a primeira imagem real de um buraco negro. O objeto era, até então, considerado invisível, pois não emana qualquer tipo de luz. Entretanto, nas redes sociais, o assunto mais comentado sobre esse fato foi como Albert Einstein previu que seria o astro. Katie, de certa forma, foi deixada de lado.

Há, também, a física e química, Marie Sklodowska Curie, ela foi uma importante pesquisadora da área nuclear, com pesquisas sobre radioatividade. Marie foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel. Além dessas, há outras histórias parecidas que não ganham visibilidade ou não têm tantos créditos quanto os homens na ciência.

  • Marie Curie

2 comentários em “Especial Fora de Pauta: Códigos, bits e empoderamento feminino

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  • 24 de Maio de 2019 at 24 de Maio de 2019
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    Parabenizo a Universidade, Omirantejoinville, a professora Dra PhD Samantha e seus acadêmicos pelo excelente tema abordado!

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