Na Hanglândia, todos são contra o meio ambiente

“Nem se fala do problema ambiental, que é o verdadeiro câncer nesse país. A Sama, aqui de vocês, isto é um inferno.”

Após pronunciar essas palavras, o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas de departamentos Havan, foi ovacionado pelo público que encheu a reunião da Comissão de Finanças da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ), na tarde de quarta-feira (8). O tema da audiência era a dificuldade para construir no município.

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Alçado à estrela do bolsonarismo nos anos recentes, Hang foi convidado para a reunião após fazer críticas à Prefeitura de Joinville nas redes sociais. Ele pretende construir novas lojas na cidade, mas alega não conseguir por causa da burocracia. Ocorre que o terreno em que ele pretende construir uma nova loja é protegido pela legislação ambiental, conforme já explicado em matéria de O Mirante (links acima). A discussão pública levou à comissão a debater o tema e Hang foi convidado pelo vereador Ninfo König (PSB), que está cada vez mais alinhado à direita.

A ovação à deplorável fala de Hang revela o espírito do público que compareceu à reunião. Um público que também demonstrou ser bastante confuso, aplaudindo falas que eram contraditórias entre si. Mas, pior do que isso, foi o posicionamento de boa parte dos políticos presentes. Quase todos que falaram puxaram o saco ou defenderam as mesmas ideias de Hang.

O secretário de Planejamento de Joinville, Danilo Conti, representou o Poder Executivo no evento, recebendo muitas vaias na sua vez de falar. Dado o contexto de divergência entre Hang e Prefeitura, qualquer observador atento podia imaginar que o secretário apresentaria uma defesa mais firme de Conti, mas ele optou por outro caminho.

“A gente tem muita dificuldade de fazer um contraponto sobre tudo que foi falado porque de fato a cidade de Joinville já vem há muitos anos com uma dificuldade muito grande para facilitar isso e amenizar os problemas que a cidade encontra. O fato é que o problema de licenciamento ambiental do município é um problema histórico da cidade. Não é um privilégio dos últimos anos e também não é um privilégio único e exclusivamente nosso. A imensa maioria das cidades desse país sofre com esse excesso de burocracia que atrasa em muito o desenvolvimento econômico dessas cidades”, revelou Conti.

O secretário, por outro lado, destacou que a cidade ficou em primeiro lugar no quesito “ambiente regulatório” de um ranking de cidades empreendedoras promovido pela entidade global Endeavor. Ele explicou que a judicialização do processo de licenciamento ambiental, que a Prefeitura tentou jogar para o governo estadual, causou a maior parte do atraso. Também falou sobre as medidas da Prefeitura para acelerar os processos.

Por fim, pediu união dos joinvilenses para executar as medidas e deu uma cutucada em Hang e seus adeptos políticos. “Se não apoiarem essa mobilização e tumultuarem por assuntos políticos medíocres e eleitoreiros isso não vai adiante”, falou, sob vaias. Representantes do alto escalão da Prefeitura já sugeriram, também pelas redes sociais, que a mobilização de Hang tem fins eleitorais.

Vereadores trocam farpas

Nenhum vereador se levantou para fazer uma enfática defesa do meio ambiente. Pelo contrário, trocaram farpas para mostrar quem estava mais próximo aos desejos do público, que por sua vez concordava com Hang. E o empresário chamou o meio ambiente de câncer minutos antes, não custa lembrar.

O primeiro a falar foi Odir Nunes (PSDB). O tucano mostrou vídeos antigos em que reclamava da burocracia para construir na cidade, algo que impedia a geração de emprego e renda. “Precisa vir alguém de fora pra dizer que esse modelo aqui de Joinville está errado?”, disse.

Mas Odir tomou uma invertida de Richard Harrison (MDB), que falou na sequência. O líder do governo também mostrou um compilado de falas dos vereadores que se opunham ao projeto que permitia o rebaixamento, por mineração, e mudança de zoneamento de áreas da Cota 40, que são preservadas.

Apareceram na compilação os vereadores Rodrigo Coelho (PSB), Tânia Larson (Solidariedade), Ninfo König e principalmente Odir Nunes. Acontece que esses parlamentares, à época, estavam a favor do meio ambiente. Odir deixou claro, diversas vezes, que o projeto nada tinha a ver com mineração, mas se valia dela como subterfúgio para valorizar terrenos em áreas nobres, como a propriedade da Havan em discussão.

Em seu discurso, Harrison fez questão de mostrar que sempre esteve a favor do projeto que permitia o rebaixamento da área da Cota 40. Disse que mexer na Cota 40 foi um “ato de coragem do Executivo” e que o projeto chegou à CVJ pronto para ser votado. Ou seja, o líder do governo assumiu, com outras palavras, que a Prefeitura facilitou o desaparecimento de uma área de proteção ambiental.

Tânia Larson, que preside a comissão e a reunião, fez uma ressalva após a fala de Harrison. “Só quero deixar claro que sou contra o que queriam fazer contra a Cota 40 e contra o meio ambiente. Travar trabalho e travar o empreendimento é outra coisa. A discussão é sobre impactos financeiros para a cidade e sobre os devidos atrasos e dificuldades para concessão de alvarás para construção. Cota 40 é [na Comissão de] Urbanismo que se discute”, comentou a vereadora.

Na sequência, Mauricio Peixer (PR) também rasgou elogios a Luciano Hang. “Você é a voz dos empresários que estava entalada”, bajulou. Líder do bloco de oposição, ele também fez críticas à Prefeitura, comparando a permissão para construir prédios altos em outras cidades.

O último vereador a falar foi James Schroeder (PDT), autor da emenda que incluiu a outorga onerosa no projeto que permite o rebaixamento. Ele disse que o problema a ser solucionado é composto por diversos problemas. Ele cobrou um maior investimento em informatização para dar mais celeridade aos processos, como a integração da base de dados.

Hanglândia, Bolsonaristão

Se o Bolsonaristão fosse um país, à semelhança do presidente Jair Bolsonaro, a Hanglândia seria uma de suas grandes capitais. Teria muito verde, mas nas camisetas, muito diferentes de seus morros, todos carecas. Em sua longa fala na câmara joinvilense, Luciano Hang falou sobre o Brasil e sobre o que pensa para o país.

Ele começou o discurso de forma amena. Elogiou a participação do público, disse que o problema [do terreno] em Joinville já estava resolvido e que não veio “botar fogo” na cidade. Aos poucos, porém, ofereceu sua performance aos joinvilenses. Em relação ao vídeo que desencadeou o desentendimento público entre ele e a Prefeitura, garantiu que não foi pensado para atacar o poder público: “Se fosse, seria muito mais duro”.

Aos poucos, defendeu suas ideias para facilitar a vida dos empresários, ignorando que elas passam por cima de regras estabelecidas. Leis que protegem o meio ambiente e garantem direitos trabalhistas. Citou exemplos de cidades que entregam o alvará para a construção por ordem do prefeito, sem ligar para as normas.

“Tem cidade que o prefeito fala assim: ‘Luciano, começa a construir, a gente cuida da burocracia e vocês cuidam da obra. Quando a obra estiver pronta, a burocracia está encerrada'”, exemplificou.

Ele também atacou as universidades federais, por formar comunistas, e disse que o Brasil é um país comunista. Também acusou os comunistas de serem ambientalistas. Ele falou como se fosse algo ruim.

Voz contrária

Durante a reunião, a maior parte das falas apoiou e até bajulou Luciano Hang. Mas um cidadão, entre os inscritos, fez a única crítica contrária. Auditor público aposentado, defendeu a forma limpa de fazer as coisas:

“A burocracia é uma defesa do cidadão. Se não fosse a burocracia, nós teríamos a esculhambação. Aquela que o sujeito entra pela porta dos fundos, fala com o prefeito, o prefeito bate em cima da mesa e diz ‘pode fazer'”, comentou.

Sob vaias da turba bolsonarista, que também gritava o nome de Luciano Hang, ele não pode concluir sua fala.


Texto: Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

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