Lazer e ativismo: LGBTs desafiam homofobia no futebol

No esporte mais popular do Brasil, gays e bissexuais tentam quebrar domínio heterossexual

Reportagem de Lucas Koehler

Para muitos homens, jogar o futebol é o principal lazer da semana, quase um ritual. Conhecidas como “peladas”, as partidas são os momentos para se divertir com amigos da faculdade, reunir a família e organizar colegas de trabalho para chutar uma bola e reclamar dos problemas que teve com o chefe da empresa.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, 38% da população brasileira com mais de 15 anos praticava algum esporte ou atividade física, sendo que 59% eram homens. Entre as modalidades, o futebol é o favorito para 15,3 milhões de pessoas, representando 40% dos praticantes de algum esporte.

Mas entre os seus colegas de time, existem algum que seja homossexual? Quantas vezes você já jogou futebol com um gay? Afinal, como é para gays e bissexuais praticarem o esporte mais popular do país em partidas compostas, em sua maioria, por heterossexuais?

O comprador de materiais recicláveis Calvin Braz Bueno, 23 anos de idade, conta que começou a gostar de futebol ainda na adolescência. “Comecei a gostar em meados de 2009, quando o Barcelona de Guardiola e Messi estava no auge, e meu cunhado me deu um jogo de futebol para computador. Na ‘vida real’, fui jogar mais ou menos nessa época também, quando meu pai desenvolveu uma escolinha de futebol no bairro. Acabei gostando e me adaptando cada vez mais”, explica.

O publicitário Mateus Neto*, de 28 anos, explica que gosta de futebol desde muito novo. Ainda na escola, sempre jogava e adorava as competições. Depois, na fase adulta, continuou jogando e pratica futebol até hoje. Para ele, o sentimento pelo esporte é positivo. “Eu gosto bastante, me sinto muito bem nesse ambiente”, fala.

Jorge Quintino assumiu a função de goleiro para completar o time, mas tomou gosto pelo esporte – Foto: Arquivo Pessoal

Já Jorge Quintino, 22 anos, conta que a sua relação com o futebol começou quando tinha 13 anos. Ele era adepto de outro esporte na escola, mas um dia os amigos precisaram de pessoas para jogar futebol e ele topou. Assumiu a função de goleiro e ganhou elogios pela técnica. “Sempre gostei de esportes, mas só jogava vôlei. Depois daquele dia eu comecei a jogar futebol e até entrei em escolinhas de futebol”, lembra. Hoje, para ele, o futebol é a “canalização de energias ruins que acumulou durante a semana e dentro de campo consegue jogá-las fora”.

Calvin, Mateus e Jorge têm algo em comum: os três são LGBTs e jogam futebol com heterossexuais. Jorge fala que nunca sofreu preconceito nesse ambiente, mas sempre buscou jogar com amigos, pois sabe como iriam lidar com a questão. “Só jogo em times diferentes quando tem pelo menos um amigo muito próximo”, afirma.

Porém, o banho pós-jogo costuma ser o pior momento para ele. “Cansei de entrar no banheiro e todos saírem. Eles faziam tudo correndo. A cabeça do homem heterossexual acha que só por ter um gay no mesmo local ele vai querer ficar olhando, tocando as pessoas”, desabafa.

Calvin conta que quando se descobriu bissexual, jogava futebol uma vez por semana. “Algumas pessoas sabiam, outros não, mas todos mantinham respeito. As brincadeiras e provocações eram entre o grupo, não diretamente a mim e minha orientação sexual”, explica.

Mateus joga com colegas do trabalho e também se sente respeitado. “Às vezes, durante a partida, alguém ‘xinga’ o outro de ‘viado do caralho’, mas depois eles lembram que estou jogando e ficam sem graça”, afirma.

Coragem para enfrentar exclusão

Eles são minorias entre as pessoas que jogam. De modo geral, para os três, os LGBTs são excluídos deste espaço por diferentes razões: questão histórica, cultural, xingamentos e excesso de contato físico.

Para o mestre em comunicação e pesquisador no tema “Futebol LGBT” Vanrochris Vieira, o futebol tem a agressividade e a força física como fatores importantes, sendo assim, mulheres ou homens afeminados não teriam espaço, pois não seriam habilitados para ocupá-lo. Já para Daniel Conceição, membro do Grupo Esporte e Sociedade no Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a homossexualidade encontra resistência pois confronta a masculinidade hegemônica. “A homofobia passa ser sua expressão em razão de significar a rejeição daquilo que supostamente não representaria a masculinidade aceita”, afirma.

A exclusão de pessoas pela orientação sexual pode ser prejudicial não só pelo interesse no futebol ou atividades físicas, mas em todos os ambientes e funções. Para Daniel, ser impedido de participar por razões de não enquadramento no padrão heteronormativo causa sofrimento com impactos psicossomáticos variados. “Afeta a autoestima, traz insegurança, frustração, etc”, complementa. Vanrochris pensa que “se esconder” acaba sendo um caminho mais seguro do que a autoafirmação. Para ele, ninguém precisa tornar pública sua sexualidade, mas se o motivo de fazer isso é o medo de ser reprimido, certamente há algo de errado.

Calvin Braz Bueno é fã de Guardiola e parou de jogar por falta de tempo, mas quer retomar a prática – Foto: Arquivo Pessoal

Apesar do ambiente futebolístico ser dominado por heterossexuais, Mateus e Jorge nunca pensaram em parar de jogar, mesmo que isso dependa de constantes diálogos, discussões e enfrentamentos contra o preconceito. “O fato de eu querer jogar é maior que o comportamento de um ‘homofóbico de merda’. Não vou parar de fazer o que amo por causa de uma pessoa sem cérebro”, ressalta Jorge.

Calvin parou de jogar por falta de tempo. Pretende voltar a praticar, mas selecionando seu meio de convívio. “Conheço homens heterossexuais, amigos, que irão me aceitar sem pensar na minha orientação sexual, portanto sei que poderei me sentir mais livre em tal situação”, afirma.

A coragem de quem é gay e joga futebol também se transforma em conselho para quem se sente ameaçado em praticar esportes em ambientes dominados por heterossexuais. Mateus vê o respeito como forma de harmonia nos espaços. “Se todos tiverem respeito e empatia pelo outro, com certeza as coisas ficarão mais fáceis em todos os sentidos”, diz.

Já para Jorge, ninguém deve desistir de praticar o seu esporte preferido, nem se sentir excluído por pessoas preconceituosas. “Você precisa ser mais forte que o homofóbico. Rebata o preconceito. Tenho certeza que alguém vai te defender, pois nem todos possuem um ovo em vez de cérebro dentro da cabeça”, finaliza.

Sereyos: o time que une futebol e militância LGBT

Fundado em 2017, em Florianópolis (SC), o Sereyos Sport Club nasceu para driblar e vencer a homofobia. Formado por lésbicas, gays, bissexuais e travestis (comunidade conhecida pela sigla LGBT), o time campeão da Copa Sul Gay 2018 utiliza o futebol como instrumento de luta e apoio para quem se sente excluído do futebol por questões de gênero. Hoje, o time disputa a Champions Ligay (Liga nacional), a Copa Sul (regional) e o torneio Internacional de Futsal de Gramado (RS).

Igor Luiz da Silva enfrentou medos gerados na infância e hoje joga no Sereyos, time campeão da Copa Sul Gay 2018 – Foto: Victor Ribeiro

Igor Luiz da Silva, de 33 anos, é antropólogo e jogador do Sereyos. Porém, o futebol não foi a primeira escolha. Ele foi um dos primeiros atletas a jogar vôlei pelo time LGBT – que também possui atletas praticando academia, corridas e handebol -, só depois entrou para o esporte bretão. “No futebol, só comecei a jogar semanas depois que entrei no Sereyos, quando vi que estava preparado para enfrentar meus medos, em um ambiente super acolhedor, os meninos e a técnica Isis me receberam com alegria e estou até hoje”, explica.

Seus medos são frutos de situações desagradáveis vividos na infância e adolescência. Anos atrás, em Pão de Açúcar (AL), conheceu o futsal no colégio de freiras em que estudou por 13 anos. Lá, era recorrente ouvir frases do tipo “deixe de viadagem!”, “jogue que nem homem!” “deixe de ser mole!”. Os problemas da violência foram para níveis piores. Torcedor do Fluminense (RJ), Igor estava, em 2012, no Rio de Janeiro e foi assistir uma partida entre o Tricolor Carioca e Botafogo, no Estádio Municipal Nilton Santos, pelo Campeonato Brasileiro. Estava acompanhado de um amigo heterossexual e, no fim da partida, torcedores do Botafogo seguraram os dois pela camisa, empurraram e começaram a dizer insultos. Os dois não revidaram e foram para casa em busca de segurança.

Ele conta que, até 2018, o Sereyos estava em processo de amadurecimento, trabalhando a parte emocional e de confiança, e por isso só jogava campeonatos com times LGBTs. Porém, pelo fato de ser o único clube LGBT em Santa Catarina, toda preparação para os campeonatos são contra times heterossexuais. “Isso abre espaço para que o time fique conhecido, para que nossa luta ganhe alcance. Participamos de um campeonato contra times heterossexuais, em Florianópolis, e fomos bastante respeitados”, conta Igor. Porém, a situação nem sempre foi assim. “Já aconteceram episódios em que todo o time foi vítima de discriminação por parte da torcida adversária. Há casos de violência dentro do campo, chacotas e uso de expressões ofensivas, principalmente quando alguns times perdem para nós”, lamenta.

Para o membro do NEPESC Daniel Conceição, não caindo em estereótipos ou segregações, a ideia do time é muito válida e deve servir de inspiração. “Embora possamos ter o receio de que possam ser utilizadas para destacar um discurso de espaço segregado, a iniciativa deve incentivar a criação de novos clubes e dar maior visibilidade para os atletas independente de sua orientação sexual”, explica.

Para os gays que gostam de futebol, Igor sugere que o mais importante, em primeiro lugar, é tomar consciência de si, de quem é, não ter vergonha dela. Depois, praticar algum esporte que gosta. “Eu acho que jogar futebol ou outro esporte voltado para a comunidade LGBT faz parte do processo de autoconhecimento e reconhecimento”, destaca.

Na Inglaterra, campanha LGBT ganha apoio dos clubes

Idealizada pela Organização Não Governamental (ONG) LGBT Stonewall, a campanha Rainbow Laces, de combate à LGBTfobia, recebeu apoio da Premier League – primeira divisão do Campeonato Inglês e uma das principais ligas de futebol do mundo. O que começou com distribuição de cadarços das cores do arco-íris e panfletos nos estádios,conta hoje com a participação da Associação de Futebol da Inglaterra e tem incentivo dos 20 clubes do campeonato.

Todos os clubes da primeira divisão inglesa aderiram à campanha Rainbow Laces, de combate à LGBTfobia – Foto: Premier League/Divulgação

Em entrevista ao jornal O Mirante, o repórter da ESPN Brasil e correspondente do canal na Inglaterra, João Castelo Branco, conta que o apoio à causa LGBT vai além da campanha. “Em quase todos os clubes da Premier League há torcidas organizadas LGBTs, elas ajudaram a trazer a Rainbow Laces para dentro dos clubes. Além disso, as torcidas colocam faixas e trabalham para que todas as pessoas se sintam bem nos estádios”, explica. Para ele, apesar de haver problemas de racismo e violência contra imigrantes, as questões de gênero conseguiram dar passos largos na Inglaterra. “A pauta LGBT está muito evoluída. As pessoas ainda sofrem problemas com isso, mas muito menos que em outros países”, pensa.

Para o pesquisador no tema “Futebol LGBT” Vanrochris Vieira, utilizar o futebol como instrumento de transformação social é uma ideia positiva. “Por ser um esporte de grande adesão, é um espaço que atinge fortemente a população. Ser usado para a conscientização do público tem um potencial muito grande de ajudar na promoção da mudança social”, afirma.

Castelo Branco pensa que uma campanha parecida no Brasil seria de muita importância, mas acredita que a recepção poderia ser diferente. Ele lembra que quando já morava no país europeu, anos atrás, piadas racistas e homofóbicas, por exemplo, não eram aceitas por lá, mas ouvia coisas do tipo quando vinha de férias para o Brasil. “Penso que o fim dos preconceitos é uma questão de evolução. Nesse quesito, o Brasil ainda é um país atrasado se comparado com os da Europa”, lamenta.

Para o repórter, o atual cenário político brasileiro, a forte presença das igrejas, a educação básica precária e a pobreza econômica e cultural também alimentam o problema. “Infelizmente, o atual Governo não ajuda essas causas e transforma o preconceito numa coisa aceitável. Muitas igrejas não aceitam a homossexualidade. Aqui na Inglaterra, por exemplo, essa influência é muito menor”, reflete. Vanrochris segue o pensamento de João Castelo Branco. “No Brasil, há muita resistência e críticas em relação a gênero e sexualidade. Ainda será necessário um esforço muito grande para que o futebol abrace esse tipo de discussão”, finaliza.

Na Inglaterra, além da campanha Rainbow Laces, existem ligas e times LGBTs. No futebol entre amigos, segundo o repórter da ESPN Brasil, a prática é comum. “O tabu não é tão grande, a sociedade em geral avançou muito nesse debate”, acrescenta.

Otimismo contra o preconceito

O Brasil é campeão de um campeonato que não deve se orgulhar: é o país que mais mata LGBTs no mundo. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), apenas em 2017, foram registrados 445 casos de assassinatos de homossexuais.

No futebol brasileiro, o engajamento ao combate à violência de gênero ainda é mínimo. No dia 17 de maio é celebrado o Dia Internacional Contra a Homofobia. No Brasil, em 2018, apenas cinco times se manifestaram, por meio das redes sociais, e prestaram apoio à causa LGBT: Bahia, Internacional, Vasco, Grêmio e Remo. Já no Dia Nacional da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, o Bahia, além de relembrar a importância da data, passou a adotar o nome social nos setores administrativos do clube. O Bangu também utilizou as redes sociais oficiais para relembrar a importância do tema.

Apesar dos números negativos, o sentimento ainda é de esperança. Para Vanrochris Vieira, agora é momento de mobilizar a causa LGBT para garantir os direitos que já foram conquistados e acreditar em avanços. “As mudanças que vêm ocorrendo nos últimos tempos têm ajudado a legitimar a presença de gays no espaço do futebol”, opina. Daniel Conceição pensa que campanhas educacionais vinculadas por clubes e punições podem ser algumas soluções. “É necessário ser mais rigoroso para casos de homofobia e intolerância. Além disso, é urgente conscientizar as torcidas sobre cantos e xingamentos homofóbicos”, afirma.

Já Igor Silva, do Sereyos, diz que é preciso lutar contra a homofobia em todos os espaços. “Não adianta lutar pelo fim da homofobia no futebol se no espaço escolar e na família nós ainda sejamos vítimas de chacotas, de violência física e psicológica”, finaliza.

Sereyos Sport Club, de Florianópolis, em quadra – Foto: Victor Ribeiro

*Nome fictício, pois o entrevistado não quis se identificar

Foto no topo: Victor Ribeiro

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