Tempo continua fechado na Câmara de Vereadores

Se havia alguma expectativa de apaziguamento neste turbulento início de ano na Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ), a reunião desta quarta-feira (6), no Plenário, foi ainda mais nervosa, com troca de farpas e acusações entre os blocos. No centro da briga que obstruiu a primeira sessão do ano (começou na segunda-feira e ainda não acabou) estão os dois vereadores do Partido da República (PR), agora rachado de vez.

Em resumo, os trabalhos do legislativo municipal seguem paralisados. A primeira sessão do ano, em que devem ser escolhidos os vereadores que compõem as comissões, ainda não acabou oficialmente. Entretanto, para entender este imbróglio e porque ele continua assim, é preciso ler o restante do texto.

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Os parlamentares se reuniram na tarde desta quarta para conversar. A ideia era buscar uma solução. O formato era de sessão, com falas na tribuna e tempo de fala, mas não poderiam deliberar nada, pois a sessão, oficialmente, segue obstruída pelo bloco de oposição. O encontro era, portanto, apenas uma reunião.

Quem abriu a conversa foi o vereador Adilson Girardi (Solidariedade), que lamentou situação e pediu entendimento entre os pares. “Eu não tenho ego nenhum”, disse ele, criticando o ego dos colegas. Girardi está alinhado ao bloco governista.

Na sequência falou o vereador Natanael Jordão (PSDB), também alinhado ao bloco da situação, que se dirigiu diretamente ao seu colega e líder do partido, Odir Nunes. “Gostaria que o senhor viesse a essa tribuna e, olhando nos meus olhos, diga se apoia essa obstrução”, pediu.

Na sequência, Odir respondeu que o colega nunca o veria falar com alguém – “qualquer um que seja” – sem olhar nos olhos. O tucano explicou que não tomou a decisão sozinho, mas que foi autorizado pela executiva do PSDB a integrar o bloco de oposição. Odir também preside a sigla em Joinville.

Falou também  o vereador James Schroeder (PDT), que também provocou o bloco oposicionista. “Houve uma eleição no final do ano passado, para a mesa diretora desta casa, e um grupo majoritário venceu. De praxe, esse grupo compõe a maioria das comissões. Mas sete colegas nossos, aqui desta casa, se lançam, através de chicanas regimentais, a obstruir os trabalhos da CVJ”, lançou o pedetista.

Na visão de Schroeder, não há motivos para os trabalhos estarem paralisados. Ele pediu mais uma análise do suporte jurídico, sugerindo a possibilidade de reiniciar os trabalhos.

Treta no PR

A situação pegou fogo mesmo quando a situação do PR entrou em discussão. “Estou decepcionado”, disse o vereador Pelé quando ocupou a tribuna. O tom era de indignação. Ele disse que Maurício Peixer, depois da eleição (Peixer tentou um cargo no parlamento estadual em 2018), não falou mais com ninguém. Pelé afirmou que chegou ao seu gabinete uma determinação para integrar o bloco de oposição, sem conversa.

Peixer respondeu. Disse que esperava uma proposta de resolução, mas a reunião virou uma lavação de roupa suja. “E se esse é o jogo, nós vamos fazer”, garantiu, colocando a sua parte no tanque. O líder do PR explicou o processo que o levou à oposição. “Nós estamos fazendo só o que o prefeito quer”, disse, pedindo independência aos vereadores. Com uma indignação crescente, ele listou uma série de problemas do município – taxa de esgoto, tarifas, buracos de rua etc. – e disse que a câmara não pode discutir nada, “pois o prefeito tosa nós”. Foi com isso em mente que ele, aconselhado pelo vereador Ninfo König (PSB), decidiu reagir.

O discurso inflamado de Peixer chegou ao ápice quando ele disse que Pelé se vendeu por dois carguinhos. “Pode falar para os teus eleitores que não é para votar mais no Maurício Peixer, que tu tem vergonha, porque tu se vendeu por alguns cargos para o prefeito”, afirmou o vereador.

Pelé ficou mordido com a acusação. Negou que estivesse trocando qualquer coisa. No caso, apoio ao prefeito por causa dos cargos. “Sim, consegui um espaço, mas coloquei gente séria, gente competente, que vai trabalhar pelo povo”, respondeu.

Outros vereadores falaram: Wilson Paraíba (PSB), Ana Rita Negrini Hermes (PROS), Richard Harrison (MDB), Odir Nunes (PSDB), Mauricinho Soares (MDB) e Claudio Aragão (MDB). Apesar das farpas, nada relevante para a discussão, com exceção da fala de Odir.

O vereador tucano que integra o bloco oposicionista descobriu que um dos indicados de Pelé é namorado da filha do vereador, nomeado para o cargo de Coordenador I na Subprefeitura Sudoeste na última segunda-feira (4). Isso causou a indignação ainda maior de Peixer, que falou mais um vez. Disse que nada do que o colega de partido fez tem validade diante do novo fato.

Na sequência, Pelé falou que ele mesmo ia pedir a exoneração se houvesse alguma ilegalidade no caso. Odir explicou, então, que não há ilegalidade, mas que considera o caso como uma “imoralidade”. “Pior do que ser ilegal, é ser imoral”, concluiu.

A reunião foi pausada, a pedido do presidente Claudio Aragão, e os vereadores não voltaram, ainda, ao Plenário. A reunião pode ser vista pelo Youtube.

Odir chama a atenção de diretor da CVJ

A troca da presidência da CVJ também costuma gerar mudanças nas direções. Sob a presidência de Claudio Aragão (MDB) neste ano, foi nomeado para a diretoria de Comunicação e Relacionamento o comunicador João Francisco da Silva. Ocorre que além do cargo na CVJ, João Francisco continua a comentar a política municipal nas redes sociais e em uma rádio da cidade. E criticou o imbróglio no parlamento.

Em um de seus discursos, Odir Nunes criticou a postura de João Francisco. “Eu não vou permitir que funcionários deste casa fiquem agredindo vereadores por redes sociais”, registrou Odir. “Meu amigo, excelente profissional, mas ele, como diretor da Câmara, não pode ficar atacando vereadores”, disse.

Mauricinho lava a alma

Uma situação engraçada na reunião desta quarta-feira envolveu o vereador Mauricinho Soares (MDB) e Ninfo König (PSB). O emedebista pediu a palavra e ocupou a tribuna em um momento de burburinho no Plenário. Um que estava em conversa paralela era o vereador Ninfo, que desde os seus primeiros discursos, em 2017, chama a atenção dos colegas que conversam enquanto alguém discursa na tribuna.

“O vereador Ninfo gosta de parar aqui na tribuna, né? Então eu gostaria de chamar a atenção do vereador Ninfo, que gosta de chamar a atenção e agora eu tenho o privilégio de chamar a atenção dele também”, disse Mauricinho, deixando escapar um sorriso de satisfação. Ele também ficou muito incomodado, na sequência, com as interrupções dos colegas.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Mauro Arthur Schlieck/CVJ

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