Marcelo Rizzatti transforma poema de Katherine Funke em música

Texto: Felipe Silveira
Foto: Débora Mattos/Divulgação

Distrito rural e cultural de Joinville, Pirabeiraba acaba de ver uma parceria inusitada entre dois de seus filhos ilustres: o músico Marcelo Rizzatti e a escritora Katherine Funke. Por um arranjo inusitado do destino, cujos detalhes serão contados a seguir, Marcelo transformou um poema de Katherine em música. O trabalho também é uma homenagem de Marcelo a um amigo em comum dos dois artistas, Valmir Klemann, que faleceu precocemente em 2011.

Guitarrista da banda Os Depira há 20 anos, Marcelo tomou coragem recentemente para gravar seu primeiro projeto solo com voz (antes disso, em 2016, lançou três músicas instrumentais). Com a decisão tomada, o problema era encontrar letras para as canções. “Sempre tive dificuldade em escrever letra, diferentemente de música, que tenho extrema facilidade em compor”, contou o músico, que passou a observar possibilidades de parcerias.

Uma das soluções veio em forma de presente, no sentido literal. A imparável Katherine Funke participou de um programa na Rádio Joinville Cultural para divulgar o lançamento de dois livros e Marcelo estava lá, a trabalho. A apresentadora, Tusi Helena, pediu o exemplar autografado de “Coração de Galinha” e Marcelo ficou com uma cópia de “Lucida Sans”. Tempos depois, Katherine recebeu um e-mail com a proposta.

O poema e a música

O poema está na página 12 do livro “Lucida Sans”, publicado em 2017 pela Editora Micronotas, que também é da autora. Foi escrito em 2009, quando Katherine morava na Bahia, e publicado pela primeira vez no blog “histórias de katherine”. Em um passeio no quintal, ela parou ao lado de uma amoreira carregada e ficou por ali, à noite, comendo as amoras que ela mesma cultivava. Passou o vagalume inspirador, que virou poesia. “Foi um insight solitário, daqueles momentos de acreditar de novo na vida”, descreveu.

Por coincidência, Katherine estava no mesmo quintal quando conversou com a reportagem de O Mirante sobre o assunto. Joinvilense, ela morou na Bahia por cerca de uma década e voltou à terra natal em 2016, onde mora com a família. Na atual e curta visita a Salvador tem escrito coisas novas que logo devem aparecer entre as novidades culturais locais.

Marcelo disse que estava folheando o livro e se deparou com a poesia que falava de vagalume. “Peguei uma das minhas ideias musicais e a poesia encaixou bem na métrica da música e dos acordes. Tomei a liberdade de fazer algumas alterações na poesia da Katherine e compor o segundo verso”, revelou o compositor, que gravou meses depois.

Ele contou que a ideia de homenagear o amigo veio no processo. “A letra/poesia da Katherine falava de céu, estrela, vagalume, enfim… natureza. Me veio a inspiração de fazer o contraponto que ela fez comparando o vagalume à estrela e pensei – o Valmir pode ser uma estrela no céu”, descreveu.

Homenagem

Valmir Klemann morreu em um acidente de carro na Estrada Dona Francisca, aos 34 anos de idade, em 2011. Ele conviveu com Marcelo e Katherine em momentos diferentes da vida. Era mais novo que ele, que hoje tem 45, e mais velho que ela, com 37 atualmente.

“Era praticamente um membro da banda”, conta Marcelo ao lembrar de um de seus melhores amigos, Valmir, que sempre estava nos ensaios e shows d’Os Depira. Eles se conheceram na adolescência, quase na fase adulta, e frequentavam shows e acampamentos. “Dividimos muitos gostos, opiniões e vivências”, relembrou.

Katherine também guarda ótimas lembranças do amigo. “O Valmir era o cara mais zen da face da terra. Com grandes olhos azuis sempre brilhantes, mesmo que estivéssemos num ônibus lotado, só de estar perto dele, qualquer estresse ia embora. Nunca vi ele reclamar de nada, falar mal de ninguém, era uma pessoa extremamente zen, respeitosa, pelo menos no ônibus, nos trajetos diários que a gente compartilhou por alguns anos. E a poesia fala isso mesmo: que ’tá tudo bem’, que a vida pulsa, que é só viver… era o que os olhos e a presença de Valmir me diziam (e provavelmente para o Rizza também)”.

A escritora afirmou que, mesmo sem a menção ao nome de Valmir, ela reconheceu na hora que a música falava dele. “Porque era outubro, mês em que Valmir faleceu, e sempre me lembro dele. Chorei pra caramba quando Rizzatti confirmou que era realmente pensando em Valmir q ele tinha feito a música”, disse.

Foco de resistência

No início do texto você viu que Pirabeiraba foi descrito como distrito rural e cultural de Joinville, certo? Era uma brincadeira do autor, em referência à história contada aqui, que reúne dois artistas oriundos do distrito ao norte da cidade. A atividade artística, no entanto, foi chamada de “foco de resistência” por Katherine durante a entrevista.

Ela contava, no momento, que deu o livro “Lucida Sans” para Marcelo como forma de agradecimento. Eles moravam perto e quando era criança, ficava nos fundos do quintal de casa só para ouvir os ensaios do músico e de seus amigos na casa vizinha. “Era muito empolgante para mim estar próxima de um foco de resistência pela arte, entende, no meu bairro”, disse a escritora.

Katherine também rasgou elogios ao músico, que considera muito focado e inspirador. “Quando eu estava na faculdade de jornalismo, fiz um mundo de fotos de um ensaio na garagem em que Os Depira ensaiavam, e naquele ensaio fiquei ainda mais admirada do quanto Rizzatti tem uma postura super concentrada, focada mesmo na música. Isso já faz séculos (me formei em 2002, deve ter sido no ano 2000), mas nunca esqueci”, narrou a escritora.

Lado musical

Que Katherine Funke é uma jornalista premiada e uma talentosa escritora de prosa e poesia você já sabe. Mas talvez não saiba que a artista também tem um lado musical. Além de ficar ouvindo o som dos vizinhos roqueiros na infância e adolescência, ela, que cresceu com muitos instrumentos em casa (seu pai era músico) era a solista de um grupo de flautas da igreja luterana de Pirabeiraba. E este foi apenas o início da relação com a música.

Integrou, em Salvador, a banda Rádio Lombra, na qual cantava, tocava escaleta, teclado, flauta e baixo. Também participou de projetos musicais em Joinville e, atualmente, diz que anda apaixonada por guitarras. Ela explica que sua relação com música é amadora, mas que dá pra se virar, e que tem umas 12 canções inéditas para gravar.

“Minha ideia será, claro, chamar músicos de verdade para de algum modo elevarem a qualidade do produto final, digamos assim. Sou mais intuitiva do que disciplinada, e tenho consciência do quanto é preciso estudar para ser bom músico”, afirmou.

Show solo e os 18 anos de Os Depira

Quem quiser ouvir o som de “Vagalume”, pode clicar na faixa logo abaixo. Já o show solo de Marcelo Rizzatti vai ficar para o ano que vem. O músico, que está em processo de gravação e também compondo novas músicas para gravar, espera montar o show para o início de 2019. Ele também quer gravar um clipe da música.

Mas quem quiser ver o músico no palco pode fazer isso na noite desta sexta-feira (7). A banda Os Depira comemora os 18 anos do primeiro show da banda, que ocorreu no 1º É Rock! Cais 90 In Concert, no dia 7 de dezembro de 2000.

O evento, que vai ocorrer no Rancho da Montanha, a partir das 22 horas, vai contar com o show dos aniversariantes e convidados especiais. Abrem a noite Betinho e Banda Paratodos e a banda Fevereiro da Silva. Os ingressos custam R$ 15. A casa fica na no início da Serra Dona Francisca, próximo ao Km 12,5.

Ouça “Vagalume”

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