50 anos depois de ser censurada, peça “Os Palhaços” será encenada nesta noite

O nervosismo é presença marcante em toda estreia, mas, na noite de 17 de agosto de 1968, havia um desagradável motivo a mais para senti-lo. O Grupo de Teatro Renascença desejava estrear o espetáculo “Os Palhaços”, de Miraci Dereti, mas foi impedido pela censura local. A ditadura, que endureceu ainda mais naquele ano, acabou em 1985, mas não houve nenhuma montagem joinvilense até esta noite. Nesta sexta-feira, 12 de outubro de 2018, o Abismo Teatro de Grupo encena “Os Palhaços” pela primeira vez em Joinville, no Galpão de Teatro da Ajote.

Quis o destino que a nova montagem ocorresse em um momento em que o país e a cidade voltam a flertar com o fascismo, dando preferência a um candidato que defende a mesma ditadura que censurou a primeira versão do espetáculo.

A peça foi proibida de ser levada à cena por representantes do governo local. Ela não foi enviada para análise da censura federal, mas os militares de plantão da cidade não a deixaram seguir adiante. O Grupo Renascença de Teatro, que levou a peça a cena, sofreu com a “censura de boca” – termo criado para denominar todas as censuras que foram feitas não pelos funcionários da censura, e sim por políticos, militares, empresários, instituições que se achavam no direito de escolher o que era e o que não era bom para sua cidade.

“É possível perceber que ‘Os Palhaços’ incomodou o regime vigente e também a classe mais conservadora de Joinville, por mostrar a situação social do país por meio de vários quadros. O texto provocava o público dizendo que todos são palhaços”, explica o texto publicado pelo grupo.

“Por incrível que pareça essa história é pouco conhecida na cidade. Foi a única peça teatral censurada em Joinville. Apesar da repercussão na época, ficou esquecida. É fundamental lembrar desses tempos sombrios, onde a censura estava presente, até mesmo nas cidades do interior para que estes tempos não retornem mais”, completa Cristóvão Petry, diretor do Abismo.

Serão duas apresentações de “Os Palhaços”, na sexta-feira (12) e no sábado (13), às 20 horas. Os ingressos custam R$ 10 (R$ 5 a meia). A classificação indicativa é de 14 anos e o espetáculo tem duração de 50 minutos.

A Litorina

Além de “Os Palhaços”, o grupo também encena a peça “A Litorina”, do mesmo autor. A estreia foi na quinta-feira (11), no Galpão de Teatro da Ajote, e terá nova sessão no domingo (14), às 20 horas.

Trata-se de uma tragédia. Três personagens centrais movem a peça, num bar de uma estação ferroviária. Ildefonso é o chefe da estação – um agiota preocupado apenas consigo mesmo e nos seus lucros. Severino, um bêbado, não conseguindo sustentar a família, é abandonado pela mulher, deseja fazer justiça com as próprias mãos. Amaro, um vendedor que desce da litorina e media as discussões, procurando compreender os fatos, mas não interfere no seu desfecho.

Em 1970, oito apresentações foram realizadas em Joinville, com atuação do próprio Dereti, Apolinário Ternes e Félix José Negherbon e a técnica (luz, som e outros efeitos) de Volney Valentim.

Dereti em Cena

O projeto Dereti em Cena é uma realização do Abismo Teatro de Grupo, com apoio da Amorabi (Associação dos Moradores do Bairro Itinga) e patrocínio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec). Como contrapartida social, o grupo vai encenar os dois espetáculos em escolas públicas de Joinville.

Miraci Dereti

O autor nasceu em Jaraguá do Sul, em 23 de julho de 1942. Foi professor, ator, diretor, escritor e dramaturgo. Ingressou na política como vereador em Joinville em 1973, chegando à Assembleia Legislativa para um mandato, de 1975 a 1979. Foi o primeiro Presidente da Fundação Cultural de Joinville. Foi coordenador do Patrimônio Histórico e do Arquivo Histórico da Fundação Cultural de Joinville. Atuou também no Ministério da Cultura. Escreveu o livro de contos “Atrás do Pé de Silva”. Faleceu em 9 de dezembro de 2006.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Jackson Nessler/Divulgação
Informações: Assessoria