Clóvis Gruner relança obra crítica sobre o desenvolvimento de Joinville nesta quinta

Entre 2000 e 2002, quando fazia mestrado em História na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o professor e historiador joinvilense Clóvis Gruner desenvolveu uma pesquisa sobre o desenvolvimento de Joinville entre 1951 (o ano do centenário) e 1980. Mas, diferente do que o joinvilense está acostumado, o trabalho de Gruner propôs uma abordagem crítica sobre a história da cidade.

“A modernização explorada ao longo do texto não é a dos grandes avanços tecnológicos, das conquistas econômicas e industriais ou da reestruturação e dinamizações urbanas, normalmente tomadas como signos da evolução e do progresso”, explica o autor.

Transformado em livro e lançado pela primeira vez em 2003, “Leituras matutinas: Modernidade, utopias e heterotopias na imprensa joinvilense (1951-1980)” ganhou nova edição neste ano e será lançada nesta quinta-feira (23), às 18h30, na Barba Ruiva Livros (rua Henrique Meyer, 61, Centro).

Clóvis Gruner

Gruner é professor na UFPR e mora em Curitiba (PR) desde a época do mestrado. Além dos laços familiares, ele escreve para o blog joinvilense Chuva Ácida, caso o leitor queira acompanhá-lo. Saiba mais sobre o “Leituras Matutinas” e as motivações do seu autor na entrevista abaixo:

O Mirante: Qual é a ideia central de “Leituras”? O que o leitor vai encontrar na obra?

Gruner: A obra pretende acompanhar a modernização de Joinville nos anos de 1950 a 70, principalmente as mudanças provocadas nas sensibilidades e sociabilidades dos joinvilenses do período. Mas a modernização explorada ao longo do texto não é a dos grandes avanços tecnológicos, das conquistas econômicas e industriais ou da reestruturação e dinamizações urbanas, normalmente tomadas como signos da evolução e do progresso.

No livro, entendo esse processo como a realização de uma utopia urbana, e pretendo apreender o seu revés, ler a história a contrapelo – na expressão de Walter Benjamin –, fazendo aparecer o que chamo de “avessos da modernidade”, suas descontinuidades e dispersões. Nesse sentido persigo experiências consideradas marginais, que desestabilizam, de dentro, as aspirações utópicas das elites locais.

Fonte privilegiada da narrativa, a imprensa permitiu analisar, em seus discursos, as diferentes representações da modernidade tecidas no período, desde aqueles discursos que a festejam até os muitos temores que produz, tais como o aumento nos índices e na percepção do crime e da violência. Outras fontes complementam o estudo, tais a literatura produzida no período e documentos oriundos do poder público.

“Leituras matutinas” foi lançada no início do século e ganha nova edição. O que mudou de uma edição para outra?

Acho que a nova edição do livro é um dos poucos casos em que uma nova edição é ampliada e diminuída. Optei por não mexer no texto, por não reescrevê-lo, para que os leitores de agora tenham o contato com o trabalho tal como ele foi gestado há quase 20 anos – pensando no começo da pesquisa, em 1999-2000. O que fiz foi uma revisão em que me livrei de metade das notas de rodapé da primeira edição – e ainda assim sobraram muitas – e também de alguns arroubos de juventude, por assim dizer, que faziam sentido em 2002/2003, mas acho que soariam estranhos agora. Atualizei a bibliografia, escrevi uma breve introdução onde contextualizo a pesquisa e pedi a Ilanil Coelho que escrevesse uma nova apresentação.

Claro que há coisas no texto que, lidas hoje, soam um pouco estranhas quase 20 anos depois. Basicamente, há autores e textos que foram fundamentais no momento da escrita, e que não são mais hoje. Uma ou outra interpretação que fiz à época talvez merecesse uma revisão e seriam outras hoje. Mas não há nada no texto de que eu me arrependa, tampouco algum equívoco que comprometa a obra. A opção por manter o texto original cumpre, então, uma função que é a de reapresentar, aos leitores de hoje, uma obra que, me parece, teve algum impacto na historiografia local tal como ela surgiu, com suas possibilidades e também seus limites.

Houve algum motivo especial para o relançamento?

Sim. Dois, o primeiro bem pessoal: o texto original, minha dissertação de mestrado em História, completou ano passado 15 anos, e a primeira edição do livro, pela editora curitibana “Aos Quatro Ventos” completa, agora em 2018, também 15 anos. Achei que valia a pena uma reedição para comemorar a entrada do texto nessa dupla adolescência.

Como a “Aos Quatro Ventos” era uma editora local pequena, que acabou encerrando as atividades alguns anos depois, aquela edição saiu com uma tiragem bem baixa, acho que não mais que 200 exemplares, que acabaram esgotando ao longo do tempo. E aí o segundo motivo que explica a nova edição. Passados tantos anos, o texto ainda me parece atual no modo como me propus a ler o passado recente de Joinville, confirmado pelo interesse que ele ainda desperta nas novas gerações de historiadoras e historiadores locais.

O que levou a estudar esse período?

As décadas de 60 e 70, principalmente, são emblemáticas no processo de urbanização joinvilense. Joinville não foi um caso isolado, mas parte de um projeto de modernização e de expansão urbana das cidades de porte médio, um projeto encampado pelo governo federal e parte do chamado “desenvolvimentismo” que, iniciado na segunda era Vargas, foi retomado e aprofundados pelos governos JK e pela ditadura militar.

Em Joinville, isso aparece de diferentes maneiras: a expansão industrial, o crescimento populacional, o processo migratório etc. No livro, como disse, essas questões me interessaram à medida que, por meio delas, procurei investigar as mudanças ocorridas a um outro nível, o das sensibilidades, por assim dizer. Ou seja, me interessou e tentei mostrar qual a percepção que os joinvilenses tiveram desse processo de modernização, de um lado e, de outro, como as contradições surgidas a partir dela foram tratadas principalmente pelo poder público.

A imprensa, que foi a fonte privilegiada da pesquisa, me possibilitou perceber esse movimento de uma maneira bastante peculiar. Ainda que, ao longo do trabalho, eu reconheça um certo alinhamento entre o discurso da imprensa do período e o projeto modernizador das elites locais, há um esforço por mostrar também os possíveis riscos desse mesmo projeto. Nesse sentido, os jornais não cansavam de veicular e comentar as muitas contradições da cidade – uma delas, por exemplo, o aumento da criminalidade urbana e de sua percepção – que são coisas diferentes.

Entrevista: Felipe Silveira
Foto: Arquivo pessoal

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