Charles Henrique Voos desnuda o poder em Joinville

Desde criança, Charles Henrique Voos quer fazer algo pela cidade natal. Quando era pequeno, redesenhava as linhas do transporte público e já refletia sobre mobilidade. Na adolescência, andava de ônibus por todos os bairros para conhecê-los mais de perto. Aos 19 anos, na eleição de 2008, tentou chegar à Câmara de Vereadores (fez 503 votos). Depois disso, estudou muito – graduação, mestrado e doutorado – e este esforço todo o fez cumprir, aos 29 anos, o velho objetivo. Nesta segunda-feira (11), às 19 horas, na ACE, ele lança “Quem Manda na Cidade”, obra que desnuda o poder político e econômico em Joinville.

O livro é resultado da tese de doutorado de Voos, concluída no ano passado, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo o autor, a obra mostra os verdadeiros nomes por trás da especulação imobiliária, ou seja, aqueles agentes que mandam no planejamento das cidades. Ele mostra que, mesmo com leis que garantam a participação popular, os processos atendem interesses de poucos e geram mais desigualdade.

Para comprovar a hipótese, Voos utiliza mais de 450 reportagens de jornais, por volta de mil registros de doação de campanhas e uma detalhada análise de discurso político dos agentes envolvidos. Sem contar a parte teórica, em que apresenta o conceito de rent-seeking urbano.

“Além dos objetivos acadêmicos, creio que meu livro sirva para ajudar os movimentos sociais urbanos, que muitas vezes são excluídos, tanto pela formalidade dos espaços de decisão, como pelo urbanês, aquela linguagem rebuscada que advém de um tecnicismo responsável pela espoliação do conhecimento sobre a cidade”, explica o autor que hoje dá aulas na Associação Catarinense de Ensino.

Sacrifícios e retaliações

Para chegar onde está hoje, Voos passou por sacrifícios. Primeiro, a graduação. O jovem Charles Henrique queria estudar Letras, mas o conselho bastante direto de uma professora o fez buscar outra opção. Encontrou Ciências Sociais, na Univali, em Itajaí. Foram três anos e meio de viagens diárias. Na sequência, o mestrado em Urbanismo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, com viagens semanais. Depois o doutorado em Sociologia, em Porto Alegre, enfrentando, frequentemente, mais de dez horas de ônibus para chegar lá. “Vi de tudo, inclusive uma pessoa bêbada que sacou uma arma dentro do ônibus e apontou para o motorista, mas, exceto pelo sentimento de falta de vivência acadêmica, não teria feito nada diferente”, conta sem arrependimentos.

Perrengue maior, no entanto, se deu no campo profissional. Seu envolvimento com questões políticas – “Não é possível separar, que me desculpem os weberianos”, ele diz – o fez ser alvo de perseguição. Foi chamado de mentiroso, pediram sua cabeça em uma instituição em que dava aulas, foi cortado pela direção em um concurso em que tinha sido pré-aprovado, ficou desempregado e desenvolveu, por conta disso, depressão. Hoje, contente onde está, teme que possa sofrer novas retaliações, mas não arreda o pé.

“Acredito que não posso ser processado, até porque tirei tudo de reportagens de jornal e demais documentos públicos. Tive grande cautela nisso. Não foi uma escolha fácil, mas meu orientador no doutorado foi um grande apoiador nessa decisão de mostrar os nomes. Porém, em tempos de caso Marielle, a gente sempre fica com medo. Pessoalmente, acho que já fui muito punido pela minha pesquisa”, revela.

Coalizão de consensos

“Quem Manda na Cidade” mostra, segundo o autor,  importância das associações empresariais na hora em que esses grupos agem politicamente. “Eu mostro como isso ocorre ao longo do tempo e interfere em todas as questões sociais locais. Por esse motivo, Joinville é uma fábrica de coalizão de consensos. Ninguém questiona (ou poucos, melhor dizendo), e o que deve ser debatido não o é. E isso vai construindo uma sociedade de consensos manipulados por coalizões empresariais”, explica.

Na contramão de casos nacionais e internacionais, em que ações de grandes empresas são expostas como corrupção, em Joinville é diferente. “O que ocorre aqui não é necessariamente corrupção, mas um realinhamento conservador de posturas por meio do que denomino de rent-seeking urbano: pressão, lobbies, pesado financiamento de campanhas para que alguns grupos ganhem grande quantidade de dinheiro a partir da manipulação das regras urbanísticas”, explica o autor.

Palestra

O evento de lançamento vai contar com a participação do professor Elson Manoel Pereira, doutor em Urbanismo pela Université Pierre Mendes France, de Grenoble (França) e professor de planejamento urbano da UFSC. Além de renomado autor, o professor Elson também é conhecido por votações expressivas nas duas últimas campanhas à Prefeitura de Florianópolis, nas quais discutiu, em especial, temas como direito à cidade e mobilidade.

Elson vai ministrar a palestra “50 anos do livro O Direito à Cidade: visões a partir do caso brasileiro”, em celebração ao 50º aniversário do clássico livro “O Direito à Cidade”, de Henri Lefebvre, obra que é influência para todos os pesquisadores da questão urbana no mundo.

Logo após a palestra, será realizado o lançamento e a sessão de autógrafos do livro de Charles Henrique Voos, que foi prefaciado pelo professor Elson. Editado pela Editora Appris, de Curitiba, o livro será vendido por R$ 56,90, preço que pode ser dividido em três vezes no cartão. À vista, há desconto, e poderá ser adquirido por R$ 50.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Jessica Michels/Divulgação

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