A ilustração política de Camila Rosa ganha o Brasil

Diferente de boa parte dos ilustradores, Camila Rosa, a artista joinvilense que tem se destacado nacional e até internacionalmente por trampos com forte teor político, não era uma criança que vivia com lápis e papel na mão, praticando para ser uma grande ilustradora que vislumbrava desde pequena ser. Pelo contrário, ela conta que nem desenhava tão bem assim e também não pensava na profissão. Nesta matéria, você vai conhecer a trajetória de Camila, da adolescência no hardcore, passando pela fabricação de troféus e pelo ativismo político, chegando até Nova Iorque, onde passou uma temporada. De lá, muitas descobertas e um salto na carreira que a levou ao time de cima da ilustração brasileira.

Por Felipe Silveira

A ilustradora Camila Rosa tem feito grandes trabalhos. Revistas como Claudia, GQ Brasil e Glamour; portais como VivaBem (UOL); organizações como Think Olga e Deixa ela em paz; e até mesmo marcas do tamanho de Nike e O Boticário fazem parte da clientela da artista joinvilense. Para a gigante esportiva, ilustrou uma lata especial (apenas 1.500 unidades) que embalava a camisa da Seleção Brasileira. Para a marca de cosméticos, fez ilustrações para a campanha da linha de batons da cantora Anitta. Nada disso, porém, a deslumbra. O que a satisfaz mesmo é transferir para o papel (ou para a tela) um pouco das ideias e ideais que acredita.

Ideais que começaram a se construir no meio do hardcore, gênero musical e cenário que Camila começou a frequentar na adolescência, por volta dos 12, 13 anos de idade. Foi o primeiro contato direto com questões políticas, como veganismo, feminismo, busca pela igualdade social e outras. As bandas e eventos politizados, as verduradas e os zines foram parte importante da educação política de Camila. Dos valores que tomou para si à época, diz ter sido fortemente influenciada pela ideia do “faça você mesmo”. Também continua vegana, mas o anarquismo daqueles tempos deu lugar a ideias mais próximas do comunismo. A mudança, ela conta, se deu por meio de conversas com amigos e leituras ao longo da vida. Ela faz questão de frisar que isso não é uma crítica aos anarquistas.

Criada no bairro Bom Retiro, zona Norte de Joinville, Camila resolveu estudar Design na Univille, pertinho de casa. A ilustração, no entanto, ainda não fazia parte dos planos, tanto que, na hora de decidir o rumo dentro do Design, escolheu Produto em vez de Gráfico. Antes mesmo de se formar foi trabalhar em uma indústria de troféus da cidade, na qual desenvolvia o produto do início ao fim.

Foi nessa época, lá por 2010, que passou a integrar o Coletivo Chá, um grupo de garotas artistas que colam lambe-lambes e stickers pela cidade (mundo afora também). “Foi ali que tudo começou”, revela Camila. Ao receber o convite da amiga e também artista Mariê, retrucou que nem sabia desenhar. “Mas não precisa”, ouviu. O que importava era o rolê, que misturava política e arte, deixando a cidade mais colorida. “O universo do Coletivo Chá me abriu a cabeça”, diz Camila. Pronto, a semente estava plantada.

Primeira parada: São Paulo

Em 2012, Joinville ficou pequena e Camila sentiu vontade de sair. Queria expandir os horizontes, aprender mais sobre design gráfico e ilustração e juntar as escovas de dente com o companheiro, que também é designer. São Paulo, naquele momento, parecia uma boa ideia.

Ela passou a mandar currículos, mas já com um lugar em mente, o Estúdio Kiwi. “Qualquer coisa que tu tiver”, pediu ela em mensagem à empresa. O problema é que o estúdio era pequeno e naquele momento não tinha nada. Ela continuou insistindo, até que um dia deu certo. O estúdio decidiu transformar a vaga do estagiário em uma oportunidade para a joinvilense. Camila fez as malas e foi. Conheceu de perto a rotina do design gráfico e aprendeu muito com os profissionais de lá. Com a cidade, e seus inúmeros eventos e experiências, também.

O problema é que São Paulo começou a cobrar seu preço. A vida na megalópole brasileira começou a ficar pesada. “Conviver com a desigualdade social é muito duro, me fazia mal todos os dias”, revela a artista, que, além disso, enfrentava duas horas no trânsito para trabalhar. O casal decidiu buscar algo mais tranquilo e, em janeiro de 2013, fixou residência em Curitiba. Pouco tempo depois Camila já estava trabalhando em uma agência da capital paranaense.

Terra e tempo de descobertas

Em 2014, Camila e seu companheiro tiveram a oportunidade de viajar para Nova Iorque, onde ficaram por três meses. Passada a viagem de caráter experimental, eles voltaram para Curitiba e continuaram trabalhando. Foi neste período, trabalhando em agências e dividindo o tempo com as ilustrações, que ela teve certeza do que queria.

Em 2016 surgiu uma oportunidade de voltar aos Estados Unidos. E foi em Nova Iorque que nasceu, de vez, a artista Camila Rosa. É claro que tudo que veio antes – hardcore, coletivo, faculdade, trabalhos, a vida nas capitais paulista e paranaense – fez parte dessa formação, mas essa experiência foi definidora, segundo a própria.

Obra inspirada em mulheres do MST e na intelectual Angela Davis, escolhida para a exposição “Hear your voice”

Sozinha durante boa parte do dia, ainda arranhando no inglês, Camila estava numa espécie de crise, sem saber direito o que queria. Ela queria desenvolver o seu desenho. “Com o Coletivo, produzia de maneira aleatória”, conta.

Passou a praticar com mais afinco, mas ainda sem conseguir colocar as ideias no papel. Neste momento, havia uma agitação política muito grande nos Estados Unidos. “Trump ganhou e as pessoas ficaram muito revoltadas”. As coisas começavam a se encaixar.

O casal brasileiro começou a circular por feiras e eventos alternativos. Opções do tipo não faltam em Nova Iorque. Assim, passou a conhecer muita gente e começou a ficar conhecida também. O contato com outros artistas e outras gentes fez muito bem para a joinvilense, que começou a encontrar uma definição maior para o seu traço. Conseguiu, nesse processo, desenhar rostos e expressões, uma “deficiência” que a incomodava. Afinal, estava na terra dos “comics”.

Outra experiência marcante veio das aulas públicas de inglês, um serviço oferecido para imigrantes pela prefeitura de Nova Iorque. Gente de todo mundo, com todo tipo de experiência, frequentava o espaço, já que não havia cobranças sobre a documentação. As experiências vividas por Camila somavam à construção da artista.

Trampos

Apesar de Camila produzir e vender seus trabalhos desde sempre, o primeiro desta nova fase foi para o coletivo The Bettys. Neste momento ela já havia conseguido definir o que pode ser considerada a principal característica do seu trabalho: mulheres. São elas, e suas lutas, que permeiam a obra de Camila Rosa. Se ela não sabia direito o que queria ao chegar nos Estados Unidos, essa busca havia chegado ao fim. “Desenhar meninas e colocar isso dentro do meu trabalho”, revela a ilustradora que havia achado um foco.

Lambe-lambe colado em Nova Iorque

Suas personagens, no entanto, nunca estão à toa. São mulheres de luta, fortes, trabalhadoras, ativistas, seguras e solidárias umas com as outras, sempre (ou quase) com mensagens inspiradoras. São inspiradas, por exemplo, em mulheres da luta no campo ou em ativistas intelectuais como Angela Davis.

Aliás, essa dupla se destaca na trajetória de Camila. Em 2017, a organização da Marcha das Mulheres (evento que naquele ano ganhou muita força em respostas às políticas e declarações de Donald Trump) promoveu um concurso de cartazes que seriam usados na divulgação e distribuídos durante o evento. A brasileira tentou a sorte com uma ilustração que adaptou (acima) de um trabalho que já havia feito para um calendário brasileiro, mudando apenas alguns detalhes. A ilustração não foi selecionada para a marcha, mas, pouco tempo depois, ela recebeu uma ligação. O trabalho foi escolhido para fazer parte da “Hear your voice”, promovida pela Amplifier e exibida em Seattle.

Camila produziu bastante naquele ano e começou a aparecer. Deu entrevistas, entre elas uma para o portal Remezcla, um dos maiores sites americanos sobre cultura latina alternativa. Ela conta que o fato de ser brasileira contribuiu para alguns convites, assim como a efervescência política americana. Assim, ilustrou revistas, fez cartazes e participou de exposições. Uma de suas obras atravessou o Atlântico e parou em Portugal. Entre seus trabalhos de destaque, ilustrou para a BUST Magazine e para a Refinery29, duas publicações ligadas ao feminismo.

Mas ainda havia uma coisa Camila não poderia deixar de fazer: colar um lambe-lambe nas paredes de Nova Iorque. Não foi sem receio que ela fez, afinal, era uma imigrante latina nos Estados Unidos. Mesmo assim fez. Uma rua tranquila, um prédio vazio, e lá foi colada uma das personagens da joinvilense. Nas costas da garota, a mensagem: “Let’s get free”. Outra obra que ganhou as ruas novaiorquinas está na foto do topo desta matéria. O trabalho foi feito para o coletivo Resistance is Female, que substitui cartazes publicitários por mensagens políticas. Certamente, são dois orgulhos para uma artista identificada com movimentos anti-sistema e adepta da arte politizada.

Veja alguns trabalhos direto do instagram da ilustradora:

De volta a Joinville

No fim do ano passado, Camila e e seu companheiro voltaram para Joinville, onde traçam novos planos de voo. Enquanto isso, Camila segue produzindo seus trampos. Seu critério para aceitá-los é gostar da proposta, que ela sempre vai avaliar. Foi assim com a Nike, no qual ela teve liberdade total para criar, e é assim para coletivos políticos que chegam a pedir trabalhos na faixa. Sempre vai depender do quanto ela vai se interessar, afirma.

Camila sempre vai buscar fazer algo que tenha a ver com suas posições políticas, aceitando que isso nem sempre é possível, mas sempre tentando fazer o melhor. Cita, por exemplo, o material para O Boticário. “Ali busquei uma cara com um pouco mais de diversidade do que outro poderia dar.”

Neste momento, perto de completar 30 anos, ela quer aproveitar a onda que pegou e se estabelecer como artista independente. “Meu mundo perfeito é fazer trampo político com a minha arte”, finaliza Camila. Isso ela tem conseguido com bastante sucesso.

Fotos: Arquivo pessoal de Camila Rosa

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