Registros de violência contra a mulher aumentaram 7% em Joinville

No dia 8 de março, as mulheres vão às ruas lembrar o mundo do quanto ainda é urgente lutar por direitos, incluindo o mais básico de todos, que é a garantia à vida. E os números, infelizmente, comprovam que isso é cada vez mais necessário. Em 2017, foram realizados 4.765 registros de violência contra a mulher em Joinville, 7% a mais que em 2016, quando foram registradas 4.450 ocorrências. Os dados são da Secretaria de Estado de Segurança Pública.

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Os registros de estupro aumentaram 24%, passando de 150 em 2016 para 186 no ano passado. Ainda foram denunciadas 30 tentativas de estupro, número parecido com o de 2016, que teve 32 ocorrências. Assim, a média fica em pouco mais de um estupro a cada dois dias.

Os casos registrados de injúria tiveram aumento parecido, crescendo 21%, saltando de 463 para 559 entre 2016 e 2017. Os casos de difamação subiram ainda mais, passando de 109 para 156, algo em torno de 42%.

A cidade registrou também um latrocínio, oito casos de homicídios de mulheres e dois de feminicídio, que é denominado assim quando o crime é o motivado pela condição de gênero.

Veja a lista completa:

Estupro consumado: 186
Tentativa de estupro: 30
Tentativa de homicídio: 26
Homicídio: 8
Feminicídio: 2
Lesão corporal: 1211
Roubo: 871
Ameaça: 1611
Calúnia: 52
Dano: 63
Difamação: 156
Injúria: 559

Números da violência contra a mulher devem ser maiores

Esses dados, no entanto, acabam não dando uma noção exata do panorama de violência contra a mulher. Em Joinville não existem números sobre isso, mas dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que esses números podem ser até 10% maior.

Em grande parte, isso ainda é causado pelo medo da denúncia. Para Ana Lúcia Martins, coordenadora do Fórum de Mulheres de Joinville, a fragilidade no amparo às vítimas, a falta de punição ao agressor e a inexistência de políticas públicas para a prevenção e combate à violência contra mulheres fazem com que as vítimas se sintam desencorajadas a fazer a denúncia. “Ainda temos o fator da “culpabilização” , a mulher se culpa pela violência sofrida e a sociedade culpa a mulher”, lamenta Ana Lúcia.

Além disso, segundo a coordenadora, a vergonha, o medo, a dependência financeira, a esperança de que o parceiro vai mudar e a falta de conhecimento sobre os serviços de apoio e proteção são fatores que contribuem para que a mulher sofra calada e não denuncie.

Em relação ao tratamento institucional, Ana Lúcia afirma que os depoimentos de algumas mulheres em relação ao atendimento nas delegacias revela um despreparo por parte dos atendentes. “Há casos de constrangimento à vítima quando seu depoimento é colocado em dúvida”, argumenta.

Outra deficiência apontada diz respeito ao horário de atendimento nas delegacias. Em documento entregue na audiência pública realizada no dia 7 de julho de 2016, o Fórum de Mulheres elaborou uma pauta de reivindicações com base nessas demandas. Entre elas, há o pedido para o desmembramento da delegacia, que hoje atende a mulher, idoso e criança.

O desejo, segundo Ana Lúcia, é por uma delegacia especializada no atendimento exclusivo às mulheres vítimas de violência, com equipe multiprofissional, lugar adequado para a escuta, acompanhamento pós-denúncia e atendimento aos filhos e demais familiares.

No âmbito da justiça, Ana Lúcia considera que a Lei Maria da Penha tem seus méritos, mas que ainda assim é preciso de muito mais. “É necessária a adoção de políticas públicas municipais e estaduais para que a lei seja efetiva, e isso não está sendo garantido pelos aparelhos de justiça”, comenta.

A violência contra mulheres negras

Ana Lúcia afirma que diferentes fontes de dados sobre violência contra a mulher, sites feministas, blogueiras negras e outras fontes, apresentam dados que confirmam que a violência contra mulheres incide em maior número sobre as mulheres negras, pretas e pardas. “O racismo é um fator preponderante e precisa ser considerado na elaboração de políticas públicas para a prevenção e combate à violência”, destaca.

O Atlas da Violência 2017, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que enquanto a mortalidade por homicídio de mulheres não negras (brancas, indígenas e amarelas) caiu 7,4% no período analisado (passando para 3,1 mortes para cada 100 mil mulheres), a mortalidade de mulheres negras teve um aumento de 22%, chegando à taxa de 5,2 mortes para cada 100 mil. Além disso, o índice de negras que já foram vítimas de agressão subiu de 54,8% para 65,3% entre 2005 e 2015.

Texto: Alexandre Perger
Foto: Agência Brasil

Um comentário em “Registros de violência contra a mulher aumentaram 7% em Joinville

  • 9 de Março de 2018 at 9 de Março de 2018
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    Se a criança foi bulinada e não penetrada o criminoso não é nem processado. Vira estatística. Vi isso acontecer aqui em Joinville.

    Quando a mulher vai na delegacia de Joinville não tem privacidade pra falar. Quem está esperando pra ser atendido escuta tudo.

    Uma das vezes em que estive lá o funcionário falou: a delegacia está quase fechando então quero ver quem tem caso que é em outra delegacia. O teu é o quê?
    Aí a pessoa tem que falar na fila de espera, na frente de todo mundo o motivo de estar ali. Tinha de batida de carro até espancamento. É humilhante ter que falar na frente de todo mundo!

    Resumindo: o estado não está preparado e nem demonstra interesse em combater a violência doméstica.

    É importante a mulher saber que pode denunciar a violência sexual sofrida até 20 anos depois de ter atingido a maioridade, ou seja, até seus 38 anos – se sofreu na infância. Isso é Lei.

    Mas pelo despreparo da segurança pública, aconselho a procurar um núcleo de apoio à mulher primeiro.

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