Apenas 11 mulheres já se elegeram vereadoras na história de Joinville

Ana Rita, Tânia Larson, Pastora Léia, Zilnety Nunes, Dalila Rosa Leal, Tânia Maria Eberhardt, Carmelina Borjana, Maria Andreis Cadorin, Tereza Campregher Moreira, Matilde Amin Ghanem e Luiza Braz da Fonseca. Essas são as 11 mulheres que se elegeram vereadoras durante os quase 70 anos de existência da Câmara de Vereadores de Joinville – nenhuma delas se tornou presidente da casa. A lista cabe em menos de três linhas, um espaço muito menor do que seria necessário para elencar os 204 homens que foram eleitos ao longo de 18 legislaturas.

Essa disparidade da representatividade de gênero foi o tema da tese de mestrado em história de Marla Luiza de Andrade Amorim, que estudou essa realidade dentro do período que vai de 1980 e 2014. O título do trabalho é “Quando as mulheres entram na política em Joinville”.

Tânia Larson foi eleita vereadora em 2016

Durante a pesquisa, Marla entrevistou algumas dessas vereadores e percebeu que algumas dificuldades ficam evidentes em suas falas, entre eles a falta de interesse dos partidos e o pouco investimento financeiro nas campanhas. “Ao que se conclui que não há interesse real da maioria dos partidos em eleger mulheres. Na maioria das entrevistas fica claro que suas candidaturas eram, muitas vezes, desacreditadas pelos dirigentes partidários ou que estavam concorrendo somente para preencher as cotas estabelecidas por lei”, conta.

Além disso, o problema também está na falta de esforço dos partidos em prepararem as candidatas para as eleições e para a vida pública. “Não são todos os partidos que se preocupam com cursos de formação política, seminários e conferências que discutam a questão da mulher”, lembra.

Embora esse seja um problema nacional, Marla destaca que há particularidades a serem observadas em Joinville. “É necessário compreender a trajetória de construção histórica da cidade, que se constitui como masculina, trazendo à tona a construção de uma cidade através do trabalho de seus pioneiros, imigrantes, brancos e homens. Essa história oficial, assim como a própria história brasileira, é ancorada no patriarcado”, argumenta.

Ana Rita (à direita) também foi eleita em 2016

Somado a isso, segundo a mestre, “é importante salientar que a cidade conta com uma tradição política conservadora, os partidos que governaram a cidade são de tendência conservadora e o discurso conservador é, na maioria das vezes, misógino”.

Para Marla, a consequência dessa situação é a falta de pluralidade e de representatividade da coletividade. “Se falarmos em democracia, temos que entender que os espaços públicos devem ser de todos e todas e para todos e todas. O problema maior é o tipo de discurso, as pautas que se incluem ou excluem. É claro que eleger mulheres não significa diretamente a garantia de pautas feministas, mas existe o lugar de fala, a questão da representatividade que importa e muito”, ressalta.

Outra consequência é a falta de representatividade em outros poderes. Joinville nunca teve deputadas, seja estadual, seja federal, e também jamais elegeu uma senadora.

A lei de cotas

A lei exige que nas eleições os partidos ou coligações preencham seus quadros de candidatos com o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Apesar de não distinguir, o fato é que essa regra foi criada justamente para reduzir o quadro de desigualdade.

A lei de cotas, segundo Marla, tem sua importância, considerando, principalmente, que alavancou o debate sobre a presença das mulheres nas eleições. Mas ainda há o que se avançar.

“Acredito que a Lei de Cotas por si só não trará grandes transformações no cenário político, sua promulgação foi um passo importante, contudo é o mínimo em relação ao objetivo a ser alcançado. O que deve se discutir seriamente são os investimentos reais que os partidos devem fazer nas candidaturas de mulheres, investimento esses que vão desde o debate sério sobre as questões de gênero, até mesmo o financiamento das campanhas”, diz Marla.

Ela ainda chama atenção para o fato de que a lei não obriga que as mulheres ocupem os espaços decisivos do poder, como as principais comissões e conselhos. “A eleição das mulheres não as coloca diretamente nos espaços de decisões políticas, não é uma garantia efetiva do empoderamento político”, comenta.

Em 2008, antes da lei de cotas entrar em vigor, 66 mulheres se candidataram a uma vaga na Câmara de Vereadores de Joinville, contra 215 homens. Nas eleições de 2012, o número quase dobrou, passando para 103 mulheres e 233 homens.

Em 2016, o número de candidatas teve um pequeno aumento, indo para 127. Já o de homens saltou para 274.

As mulheres receberam, em 2016, 37,4 mil votos, o que representa 12% dos votos válidos, contra 240 mil dos homens, o que dá 81,77% dos total.

Entre as mulheres, apenas seis candidatas fizeram mais de mil votos e, juntas, concentraram quase 17 mil votos, algo em torno de 45% da votação feminina no pleito.

Texto: Alexandre Perger
Fotos: Câmara de Vereadores

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