Apenas 11% das ruas de Joinville homenageiam mulheres

Dona Francisca, Dona Leopoldina, Princesa Izabel e Professora Laura Andrade. Essas são as únicas quatro ruas que receberam nome de mulheres no Centro de Joinville. Elas se somam a um total de 475 logradouros em toda a cidade, o que representa 11% do total. Uma realidade bem distante da dos homens, que são lembrados em 2.499 ruas, avenidas, estradas, servidões e travessas, algo em torno de 58%. O levantamento realizado pelo jornal O Mirante foi feito com base em dados sobre as ruas de Joinville da Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável (Sepud).

Das quatro ruas do Centro, apenas Princesa Izabel e Dona Francisca recebem grandes fluxos. A rua Dona Leopoldina é uma pequena via sem saída e que abriga empresas. A rua Professora Laura Andrade é uma via estreita que faz a ligação entre as ruas Abdon Batista e Ministro Calógeras.

Se considerarmos apenas as avenidas, apenas uma entre 34 recebe nome de uma mulher. É a avenida Doris Dobner Nass, localizada no bairro Ulysses Guimarães, na zona Sul de Joinville. Já com nome de homens há 29 avenidas.

Em relação às estradas, a situação é a mesma. Das 56 existentes na cidade, apenas uma homenageia uma mulher. Trata-se da estrada Dona Francisca, no bairro do mesmo nome, na área rural. Por outro lado, com nome de homens há 13 vias deste tipo.

O bairro de Joinville com o maior número de ruas que homenageiam mulheres é o Paranaguamirim, com 32 vias. Na sequência vem o João Costa, com 31. Veja o ranking completo.

Paranaguamirim – 32
João Costa – 31
Costa e Silva – 27
Vila Nova – 26
Aventureiro -25
Jardim Iririú – 25
Boehmerwald – 24
Nova Brasília – 23
Petrópolis – 18
Floresta – 16
Parque Guaraní – 16
Itinga – 15
Morro do Meio – 15
Adhemar Garcia – 14
Comasa – 13
Iririú – 12
Jarivatuba – 12
Santa Catarina – 11
Itaum – 11
Jardim Paraíso – 10
Fátima – 9
Glória – 8
Boa Vista – 8
Bom Retiro – 8
São Marcos – 7
Ulysses Guimarães – 6
Santo Antônio – 6
Saguaçú – 6
Rio Bonito – 5
Anita Garibaldi – 5
Pirabeiraba – 4
Guanabara – 4
Centro – 4
Espinheiros – 4
América – 4
Bucarein – 3
Jardim Sofia – 3
Cubatão – 3
Zona Industrial Norte – 3
Dona Francisca – 2
Profipo – 2
Atiradores – 1

Desigualdade não é apenas nos nomes de ruas de Joinville

A disparidade entre as homenagens para homens e mulheres não atinge apenas as ruas de Joinville. Na educação ela também está presente. Das 86 escolas municipais de Joinville, 61 ganharam nomes de homens e apenas 18 têm nomes de mulheres. Nas estaduais a realidade não é muito diferente. Entre as 39 instituições, 10 lembram mulheres e outras 29 fazem menção a homens.

Na área cultural, não há sequer um equipamento público que homenageie uma mulher. Apenas quatro homens são homenageados: Juarez Machado, Fausto Rocha Junior, Fritz Alt e Victor Kursancew. Em áreas de lazer, que inclui parques e praças, também há uma grande diferença: seis mulheres homenageadas para 57 homens.

Outros equipamentos público, como Centreventos Cau Hansen e Expocentro Edmundo Doubrawa também são exemplos dessa realidade.

Essa realidade não está apenas nas ruas de Joinville. No Brasil, de acordo com um levantamento do coletivo Gênero e Número, 20% de ruas, praças, avenidas e demais locais públicos que prestam homenagens a pessoas levam o nome de mulheres. Santa Catarina é o segundo estado com pior representatividade, com 18% dos logradouros levando nomes de mulheres.

O trâmite para nomear uma rua

Para nomear uma rua, é necessário apresentar um abaixo-assinado dos moradores apoiando o nome proposto. Se for uma homenagem a uma pessoa, é preciso a certidão de óbito e o histórico da pessoa, demonstrando sua relevância para a comunidade. Se a proposta surgir da Prefeitura, o processo ocorre por meio de decreto.

Modelo de mundo masculino

A professora Valdete Daufenback ressalta que essa discussão sobre os nomes das ruas de Joinville precisa levar em consideração o fato de que a cultura patriarcal desvaloriza o papel das mulheres na sociedade. “Sabe-se que a cultura tupiniquim recomenda que pessoas importantes devem ser homenageadas. E pela cultura patriarcal, mulheres não são importantes. Ou não se considera que mulheres sejam importantes. Pois o que elas fazem além da reprodução familiar? Importante é a produção de bens, a reprodução na política, nos negócios”, argumenta.

O modelo de mundo, segundo Valdete, é masculino. Ela lembra que agora começam aparecer nomes de mulheres que fizeram invenções científicas, ou que exerceram papel decisivo na ciência, mas que nunca foram notadas porque não foram apresentadas pelo fato de serem mulheres.

E o motivo para isso, explica a professora, é cultural: “Deus é masculino. O Papa é masculino. Mas a Igreja, aquele que cuida, que agrega, é feminino. O País enquanto poder, é masculino. Mas a Nação é feminino”.

A questão, acrescenta Valdete, também está sobre o que se considera uma pessoa importante. “Geralmente uma líder comunitária não se qualifica como importante, mas se for líder masculino, sim, é considerado importante. Não se tem muita credibilidade nas mulheres. Veja as eleições. Quem mais se elege. Quem mais se candidata. O mundo tem maior representação no sexo masculino”, reflete.

Segundo ela, o sexo masculino representa poder. “A maior parte dos vereadores são homens, valorizam as figuras masculinas porque aprenderam a cultuar os homens a partir da figura paterna, o exemplo da casa, cuja figura materna, geralmente, desvalorizada como figura pública”, comenta.

A professora acredita que em uma cultura machista os homens consideram que nomes de ruas devam ter nomes masculinos, porque quem decide geralmente são homens, ou aprenderam a cultuar os homens, pertencem a esta cultura machista, mesmo que inconscientemente.

No imaginário da população, os nomes das ruas acabam fortalecendo a cultura machista, a distinção entre classes sociais, a reprodução dos valores dos mais abastados economicamente e a valorização de certas famílias, dos sobrenomes considerados nobres. “Certas famílias estão eternizadas em Joinville por causa do nome de ruas”, ressalta.

Texto: Alexandre Perger
Foto: Felipe Silveira

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