As lições de Caco Barcellos e Marcos Piangers sobre criatividade no Connect

A comunidade jornalística não é exatamente conhecida por sua criatividade. Jornalistas também não são conhecidos por serem pessoas de negócios. A própria profissão passa por uma crise há anos e ninguém sabe dizer para onde ela vai. No entanto, calhou que a edição 2017 do Connect – evento promovido pela Associação de Joinville e Região da Pequena, Micro e Média Empresa (Ajorpeme) sobre criatividade e empreendedorismo – contasse com dois jornalistas como os convidados especiais da noite: Marcos Piangers e Caco Barcellos.

A escolha se justifica. Se a profissão passa por problemas, Piangers e Caco, com características e caminhos muito diferentes, se destacam como profissionais inovadores em suas áreas, com muito sucesso (um bom indicador quando se fala em inovação) em seus projetos . Na noite de quarta-feira (2), na Expoville, eles compartilharam com os joinvilenses as suas experiências.

Marcos Piangers é um jornalista que desempenha muitas tarefas e ganhou o mundo ao escrever sobre suas experiências como pai

A primeira palestra foi a de Marcos Piangers, o catarinense que hoje constrói a carreira no Rio Grande do Sul, mas que ganhou o mundo ao compartilhar suas experiências como pai em livros. Formado em jornalismo pela UFSC, ele começou a trabalhar como radialista em Florianópolis, na Rádio Atlântida, do Grupo RBS. Ali fez de tudo: programa sobre sexo, TV, apresentação de evento. O sucesso o levou a Porto Alegre, para se juntar à trupe do programa Pretinho Básico. Desenvolveu ainda mais o lado humorístico, que hoje desempenha no programa, mas também se interessou cada vez mais por tecnologia e inovação, tanto que hoje é o responsável pelo setor nas rádios do grupo RBS e coordena a área digital, de vídeo, de conteúdo de entretenimento e impressos da empresa.

Todo este know hall o credencia a falar sobre criatividade e inovação para um público ligado ao universo corporativo, como o da noite de quarta em Joinville. Com um bom uso do seu lado humorístico e muita interação com o público, Piangers mescla bem as informações daquilo que acontece de mais inventivo no mundo dos negócios com sua própria experiência pessoal e profissional. Ele não teme compartilhar seus “segredos” e busca estimular o público a adotar um comportamento favorável à criatividade.

Encontrar uma musa (algo que inspire), ter um ambiente estimulante e bem humorado, ter muitas referências (livros, filmes etc.), ser ousado e testar as ideias são alguns dos elementos que Piangers sugeriu ao público, além de enfatizar que manter distância do celular faz bem, pois o excesso de uso acaba anestesiando o potencial criativo do cérebro.

Para finalizar, contou às pessoas de negócios que compunham o público que não é o dinheiro o fator responsável pelo estímulo à inovação. Segundo ele, autonomia, domínio e propósito são os fatores que levam o profissional a criar.

Samba de uma nota só

Em uma rápida entrevista coletiva ao final da palestra, o repórter e escritor Caco Barcellos comentou sobre sua carreira como palestrante no mundo corporativo. “Não é bem uma carreira. E, se fosse, seria um samba de uma nota só. Eu falo sobre minhas experiências e sobre a denúncia da desigualdade social”, disse o renomado jornalista que hoje comanda o Profissão Repórter, um programa semanal jornalístico em que ele comanda uma equipe de iniciantes na profissão.

E ele realmente fala sobre a desigualdade que marca o Brasil, do início ao fim da palestra, que durou quase duas horas. É justamente este olhar para os excluídos que Caco considera o diferencial de sua trajetória. Todos os dias, ao acordar, ele se pergunta: “quem eu vou encontrar hoje?”. A resposta ele vai buscar nos excluídos do país, enquanto a maior parte dos jornalistas olha para o outro lado.

Caco Barcellos cobriu mais de 30 guerras e sua principal característica é a denúncia da desigualdade social

Para falar sobre o tema, Caco conta a sua própria história de excluído socialmente. Da infância pobre na periferia de Porto Alegre, ele lembra com carinho das oportunidades que teve em projetos sociais ligados à igreja, onde aprendeu datilografia. Com a mãe, tomou gosto pelos estudos. Do pai, herdou uma lição de caráter que o marcou para a vida toda. A entrada no jornalismo se deu pela experiência do trabalho como taxista. O editor queria justamente este olhar que só o trabalhador poderia ter. Anos depois, cobrindo uma guerra, se valeu justamente dessa experiência ao volante para escapar do meio de uma batalha. Caco também falou sobre o Profissão Repórter, quando insistiu para trabalhar com uma equipe jovem, o que ele também usou como exemplo de inovação.

Cada experiência narrada vinha acompanhada de um comentário sobre a desigualdade. Teve quem achou, como o repórter que escreve este texto, que alguns comentários incomodaram uma parte do público, mais acostumada às apresentações corporativas. Muitas pessoas foram embora a partir da metade final da apresentação, mas o adiantado da hora e o cansaço dos trabalhadores também explica as saídas.

Caco também estava cansado. Seu dia começou às 5 horas da manhã e uma urgência inadiável do trabalho o fez perder o voo para Joinville. Para chegar ao aeroporto, pegou carona com um motoboy. Aqui, pegou uma carona de helicóptero para chegar a tempo na Expoville. Depois da palestra, autógrafos e fotos para o público. Para finalizar, a coletiva para alguns jovens repórteres que aguardavam ansiosamente para conversar com uma das principais referências na profissão.

Voltando à pergunta do início da entrevista coletiva, Caco completou: “TV, livro, peça… Eu sou o mesmo em todos os lugares”. Comentou sobre sua peça de teatro – Osama, Homem Bomba do Rio –, um lado pouco conhecido do jornalista, que também fala sobre a desigualdade social. Disfarçou para não comentar sobre o fato do dia, a votação que livrou o presidente Michel Temer de ser investigado. Preferiu comentar sobre seu trabalho e reclamou de dores que ainda sente por ter sido agredido em uma manifestação em 2016. Revelou que adora a internet e que lê veículos como Repórter Brasil e Agência Pública. Por fim, aos mais jovens sugeriu: “sejam melhores do que eu”. É um desafio bem complicado.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Renato Ganske/Ajorpeme

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