Artistas joinvilenses vão participar da Bienal do Gueto, no Haiti

Os artistas Jefferson Kielwagen e Marcos Serafim, de Joinville, vão participar da 5a Bienal do Gueto, no Haiti, em novembro e dezembro deste ano. Um documentário sobre os bodes e cabras que vivem soltos no cemitério municipal de Porto Príncipe (foto) é o projeto para a edição de 2017. O trabalho será feito em parceria com os haitianos Steevens Simeon, do coletivo Atiz Reziztans, e Jean-Daniel Lafontant, artista, ativista e sacerdote vodu.

A Bienal do Gueto, explica Jefferson, é diferente das outras. “As bienais são os eventos mais importantes no mundo da arte contemporânea, acontecem em cidades grandes e levam seus nomes. Em geral custam muito caro, os curadores são celebridades, e o próprio público tende a ser elitizado. Já a Bienal do Gueto acontece em Porto Príncipe, que é uma cidade grande, mas é também capital do país mais pobre das Américas. O Haiti é literalmente o gueto das Américas, daí o nome do evento”.

Segundo ele, esta bienal ironiza, questiona e critica o próprio sistema das bienais, pois este “reproduz um sistema de classes em que a arte é concebida como um produto cultural superior, destinado à uma elite instruída.”

Jefferson Kielwagen em uma atividade na Cidadela Cultural

Jefferson começou a trabalhar como desenhista e ilustrador ainda na adolescência. Cursou a faculdade de design gráfico e trabalhou com serigrafia, design e publicidade durante e após a graduação. Em meados da primeira década deste século se aproximou da arte contemporânea e logo começou a expôr seus trabalhos em espaços como o galpão da Associação dos Artistas Plásticos de Joinville (Aaplaj) e o Museu de Arte de Joinville (MAJ). Resolveu, então, aprofundar os estudos na área e fez mestrado em história da arte, na Udesc, em Florianópolis.

Atualmente, Jefferson mora nos Estados Unidos, onde leciona história da arte e escultura no Instituto Politécnico Rensselaer (RPI), uma universidade em Troy, Nova York. O caminho para o norte surgiu em 2011, quando começou o segundo mestrado, desta vez prático. “Foram três anos de prática de estúdio, leitura e sessões de crítica que fizeram muito bem ao meu trabalho”, contou o autor.

Foi neste período que participou pela primeira vez da bienal haitiana, em 2013. “Em colaboração com um artista estadunidense, construímos uma escultura de arroz usando somente arroz cultivado nacionalmente; a escultura se desfez na medida em que membros da comunidade levaram os saquinhos de arroz”, explica Jefferson, destacando uma das características que diferencia a mostra no país caribenho.

Como não há dinheiro, a Bienal do Gueto atrai outro tipo de artista, interessado justamente na crítica ao sistema – seja artístico ou econômico. No evento haitiano, são os artistas que pagam as despesas da viagem e da execução dos projetos. O próprio local da bienal é diferente. “Não tem um espaço expositivo tradicional no estilo ‘cubo branco’, o espaço usado é o de uma comunidade no centro da cidade, um tipo de espaço que, no Brasil, chamamos de favela”, conta Jefferson.

Em sua primeira participação, em 2013, Jefferson começou outro trabalho no Haiti. “Na mesma ocasião iniciei um projeto pessoal, a Troca de Entidades, que me levou a retornar ao Haiti em 2015. Nesse projeto de intercâmbio religioso, agencio trocas de objetos entre sacerdotes de religiões diferentes, e documento o processo através de fotografias”.

Para esta edição, o trabalho proposto pelos joinvilenses é cinematográfico, e esta é a área de Marcos Serafim. Formado em Cinema e Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná, ele tem mestrado em artes pela Eastern Illinois University e está cursando outro, em Belas Artes, na Michigan State University, ambas nos Estados Unidos, onde mora.

Marcos trabalha como editor e diretor de vídeo desde 2009 e participou de produções premiadas em mostras e festivais de cinema nacionais, como o Cine Esquema Novo (RS) e o Festival do Cinema Brasileiro de Brasília (DF). Em Joinville, integrou o coletivo de artistas audiovisuais Cinemonstro e produziu obras como os curtas “O Artista Tá nas Ruas” e “Sambaquis”, ambos premiados pelo Simdec. Também participou de projetos socio-culturais, como o “Cinema no CRAS” e o “Aluno Cineasta”, ambos premiados pelo Prêmio Elisabete Anderle da FCC).

Recentemente passou a exibir e expor internacionalmente, tendo curtas e video-instalações mostrados em Estocolmo, no Stockholm Independent Film Festival, e Nova Iorque, no Left Forum, e Illinois, no The Tarble Arts Center and Hallways Microcinema.

Marcos conta que seu principal objeto de pesquisa sempre foi e continua sendo o cinema, mas recentemente, tem direcionado sua pesquisa à antropologia visual e à convergência do cinema com outras mídias. “Como a escultura, na tridimensionalidade de uma videoinstalação”, exemplificou. Segundo ele, a participação na Bienal do Gueto é uma oportunidade única para a exploração desse objetos de pesquisa recentes.

“A história do Haiti possui fortes imagens de resistência e luta, e as imagens de agora refletem e continuam o processo histórico. A curadoria do evento incentiva essa investigação e permite completa flexibilidade de meios e suportes. Nossa proposta é produzir obra audiovisual em colaboração com artistas haitianos, que levante questões políticas da estética através do embate entre arte e tecnologia e da presença da arte neste espaço específico”, explicou o artista.

Projetos em Joinville

Em 2014, após o segundo mestrado nos EUA, Jefferson retornou ao Brasil, decidido a ficar. No entanto, como nenhuma universidade quis contratá-lo e com uma oportunidade em Troy, voltou para a América do Norte. Nas férias de verão americanas, Jefferson volta para Joinville, ver a família e os amigos, como no último mês de junho. Nesta visita mais recente, o artista encontrou amigos para falar de outro projeto, que busca mudar o nome do bairro Costa e Silva, que homenageia um dos ditadores brasileiros.

“A coisa começou como brincadeira de um pequeno grupo de conspiradores, mas está ganhando corpo, em parte, por conta da quantidade inesperada de reações de ódio ao movimento, bem como de apoio à ditadura civil-militar brasileira. O movimento ainda está numa fase de polemizar nas redes sociais, mas sua primeira ação concreta, no “mundo real”, deve acontecer nas próximas semanas. Estou curioso pra ver o rumo que isso vai tomar. Esse tipo de agitação social é boa matéria prima para a arte”, revelou Jefferson.

Já Marcos, que está em Joinville e se prepara para voltar aos EUA nos próximos dias, acabou de gravar um documentário em Araquari sobre o Catumbi de Itapocu, que também deve ficar pronto mais para a parte final do semestre. Este projeto foi patrocinado pelo Prêmio Estadual de Cinema da FCC.

Texto: Felipe Silveira
Fotos: Cedidas pelos artistas

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