Lázaro Ramos está em busca de um diálogo acolhedor

O primeiro comentário de Lázaro Ramos na coletiva de imprensa de imprensa em Joinville foi sobre o frio. “Nunca estive em um lugar frio desse jeito, não”, disse o ator baiano. Também escritor, Lázaro está na cidade para a Feira do Livro 2017, que coincidentemente está ocorrendo na semana mais gelada do ano. Simpático e brincalhão, o ator aqueceu o público que esteve no Teatro Juarez Machado na noite de segunda-feira (12). Ele se apresenta mais uma vez nesta terça-feira (13), às 15 horas, no palco principal.

Lázaro Ramos é considerado um autor de livros infantis. Até agora. Seu novo livro, Na Minha Pele, é voltado para um público mais adulto. Nele, o ator conta histórias da sua vida, desde a infância até a idade adulta, refletindo sobre o racismo e outras experiências em suas histórias. Mas ele destaca que não se trata de uma auto-biografia, embora corra o risco de parecer, pois não se propõe e não dá conta de cumprir a tarefa que esta categoria literária exige.

“É difícil ter uma prateleira para encaixar este livro, que é uma conversa disforme de formação de identidade”, conta o autor que se orgulha de misturar gêneros, como humor e drama. “É, sobretudo, uma voz que eu encontrei”.

Lázaro também ressalta que o livro é um resgate de sua relação com a mãe, Célia Maria, que faleceu quando ele ainda era jovem. “Tudo que eu fazia, na minha infância e adolescência, era para mostrar para minha mãe. Quando ela morreu, eu fiquei perdido no mundo, pois já não tinha mais para quem mostrar. Para me achar novamente, para seguir em frente, eu tive que apagar minha mãe, romper essa ligação. O livro é um resgate dessa relação”, contou o escritor em um relato que emocionou ele e o público.

Experiência com a literatura

Lázaro faz questão de destacar que sua relação com a leitura começou tarde, pois muitas pessoas tem vergonha de assumir isso. Em sua casa, havia apenas uma enciclopédia, usada para pesquisas escolares, e, na escola, a literatura não era vendida a ele como algo prazeroso. Quando começou a fazer teatro, na adolescência, a coisa mudou. Primeiro ele descobriu os livros sobre teatro, depois se apaixonou por biografias. “Depois fui variando, e aí se tornou prazer”, revelou.

Hoje ele conta que lê em todo lugar, que lê cinco livros ao mesmo tempo, fora os trabalho no teatro, no cinema e na TV. Além disso, busca incentivar o hábito nos outros. Seu projeto social, chamado Ler é Poder, consiste em quatro centro de leitura em Salvador que funcionam a partir de doações e trabalho voluntário.

“Parte do problema e da solução”

Longe de exaltar um pacifismo tolo, a estratégia de Lázaro para combater o racismo e outros problemas sociais é o acolhimento em vez do conflito. O autor elogia os movimentos sociais de jovens, de negros e feminista, este último que faz o homem pensar e rever seus conceitos, principalmente no caso dele que cresceu em um ambiente muito machista. Sua luta, no entanto, busca no afeto – uma palavra que ele repete muitas vezes – a solução. E suas obras buscam ressaltar este aspecto de afetividade, de diversidade e da importância do outro.

“Procuro falar desse tema da maneira mais acolhedora possível, pois é importante que todo mundo se sinta como parte do problema e da solução”, explicou, sem deixar de dizer que também sente medo e sente raiva em várias ocasiões.

Seus livros infantis, ele explicou, não falam de racismo, mas o fato de colocar os crianças negras como protagonistas ajuda a empoderar, promover a representatividade e pluralizar as histórias.

Quando o secretário de Educação, Roque Mattei, que mediava a conversa no Teatro Juarez Machado, perguntou sobre a atual situação política do país, Lázaro contou que às vezes se sente com esperança e noutros desesperançado. “Mas, se sentir assim, muitas vezes serve como um motor, pois me faz pensar qual é o meu papel para mudar isso tudo”.

Contra o dualismo e a polaridade que divide o país, ele quer promover o diálogo: “Tudo que é errado, como a corrupção, a gente tem que reprovar, mas a gente precisa retomar a capacidade de dialogar”.

Questionado sobre como ele vê a região Sul, muitas vezes vista como racista e xenofóbica por causa de manifestações em massa de seus habitantes, ele prefere não separar por região para não correr o risco de ser injusto. “Fico sabendo de muitos relatos e sei que existe o racismo aqui, como existe em qualquer lugar, em alguns mais acentuados e em outros menos”, disse

Fã do Wolverine

Lázaro Ramos adorou Logan, o último filme da franquia Wolverine, seu personagem de quadrinhos favorito. Em entrevista recente, ele contou que participou da Comic Con (feiras voltadas ao mundo nerd e geek) no Nordeste e ficou enlouquecido com aquele universo. Perguntado se tinha planos para fazer algum trabalho dessa natureza, o autor fez uma revelação. Seu livro A Menina Edith e a Velha Sentada vai virar uma animação que deve ser lançada no final de 2018 ou no começo de 2019. Mais tarde, ao responder outra pergunta sobre o tema, ele lembrou que outro livro vai virar uma história em quadrinhos. Ele faz um esforço para transformar todos os seus livros em outros produtos, como peças de teatro e outras possibilidades.

O autor falou que também gosta de HQs diferentes das tradicionais, como Árabe do Futuro, que recomendou. Quem o apresentou a este universo foi o diretor gaúcho Jorge Furtado, com o qual fez diversos trabalhos. Entre eles, alguns filmes filmados em Porto Alegre e outros na Serra Gaúcha. Perguntado durante a coletiva se lá não estava mais frio do que em Joinville, disse que não. “Ou eu estava mais encasacado”, brincou o ator, que foi mais agasalhado para o conversa à noite.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Alexandra Flávia/Feira do Livro de Joinville

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