Projeto tenta construir basquete feminino em Joinville

Nos últimos anos, com exceção de algumas pausas, os joinvilenses se acostumaram a ver a equipe masculina de basquete da cidade disputar, mesmo que com certas dificuldades, as competições nacionais. No feminino, porém, a realidade é bem diferente. Enquanto os homens brigam para retornar à elite, elas ainda precisam percorrer um caminho muito maior para chegar ao mesmo patamar, lidando com falta de apoio e visibilidade.

Atualmente, a principal iniciativa que tenta mudar este cenário tem foco principal na formação de atletas e ocorre por meio de uma parceria entre a Prefeitura de Joinville e a Sociedade Ginástica de Joinville. A Secretaria de Esportes coordena o projeto com o objetivo de participar das competições organizadas pela Federação Catarinense de Esportes (Fesporte), como Joguinhos Abertos, Olesc e Jasc.

As equipes são compostas principalmente por atletas que começam as atividades esportivas no Programa de Iniciação Desportiva (PID), também coordenado pela Secretaria de Esportes. Os professores de educação física das redes municipal e estadual, assim como os professores das escolas particulares, também indicam crianças para o projeto.

Os times também representam a cidade nos campeonatos da Federação Catarinense de Baskteball (FCB), incluindo sub 12, sub 13, sub 15, sub 17, sub 19 e adulto, que é uma mescla das categorias de base com atletas contratadas.

A Sociedade Ginástica de Joinville empresta o nome e a camisa às equipes, oferece o espaço físico e também alojamento e alimentação para atletas de fora da cidade. O clube decidiu entrar na parceria para resgatar as características.

Treinador das equipes, Fabiano Borges afirma que o objetivo é, por meio do basquete, ajudar na formação do caráter das crianças e dar a oportunidade para elas participarem de competições estaduais e nacionais. Além disso, a ideia também é formar uma equipe adulta com a grande maioria das atletas promovidas das categorias de base.

O que acaba dificultando a realização desses objetivos é a falta de apoio. “Isso vem principalmente da iniciativa privada. Hoje temos apenas dois apoiadores (Bovary Snnooker Pub e Podoclinic Palmilhas e Fisioterapia). Também a imprensa não abre espaço para o basquete feminino, focando unicamente no futebol profissional”, lamenta o treinador.

A falta de visibilidade também é um problema. “O basquete feminino não tem a mesma projeção do masculino em nível mundial, nacional e estadual, então aqui em Joinville não poderia ser diferente”, comenta Borges.

Apesar da falta de apoio, as atletas ainda conseguem brigar de igual para igual com outras do estado. Em 2016, as equipes chegaram às finais de todas as competições promovidas pela FCB. Com mais apoio, porém, poderia ser feito mais. “A proporção é diretamente proporcional. Quanto maior o investimento da iniciativa privada e da pública, mais competitiva será a equipe. É uma questão de interesse e prioridades”, comenta Borges.

Juventude e experiência

Tendo como inspiração a ex-jogadora Magic Paula, Leticia Rechembak, de 14 anos, atua nas equipes sub 15 e sub 17 da Sociedade Ginástica. Ela conheceu o projeto por meio do professor Alcides Porcincula, se destacou e foi convidada por Fabiano para integrar as equipes.

No curto currículo, Letícia já tem a marca de cestinha no sub 12 e seleção catarinense sub 13. Apaixonada pelo basquete, ela pretende continuar no esporte. “Vou com o basquete até onde o basquete me levar”, diz a jovem jogadora. No horizonte, há a intenção de ser profissional. “Estou lutando para isso e buscando oportunidade”, garante a atleta. Para ela, o basquete feminino precisa de mais apoio. “Todo apoio ao esporte desde as categorias de base traz grandes benefícios para a sociedade”, avalia Letícia.

O contraponto à juventude vem de atletas experientes, como é o caso de Bruna Vallerio Martins, de 29 anos, que vai disputar o Estadual por Joinville neste ano. Ela tem um currículo extenso, com passagens por equipes de outras cidades, seleções brasileiras nas categorias infanto e juvenil, participações em sulamericanos e pré-mundial, além de treinos com a seleção brasileira adulta.

Apesar disso, Bruna precisa conciliar o basquete com outro emprego e a faculdade de educação física. E é justamente a falta de apoio que dificulta a possibilidade de dedicação total ao esporte. “Antes jogava e aí ficava sem receber um mês ou outro, mas por amar muito o basquete eu ia empurrando com a barriga, vivendo sem retorno financeiro. Porém, hoje não dá mais para fazer isso. Tive que escolher entre fazer o que amo, mas não contar com retorno financeiro seguro ou parar para ter como sobreviver e fazer o que amo quando dá”, lamenta a atleta.

Mesmo estando no esporte desde os 12 anos, Bruna não entende o que motiva a falta de apoio ao basquete feminino. “É triste porque não tem evolução e a cada dia que passa tem menos talentos. Por que de um dia para o outro se monta um time masculino com vários patrocinadores e no feminino é tão difícil? Mas vamos tentar melhorar para que as meninas que estão descobrindo essa paixão não deixem ela morrer”, diz a jogadora.

As possibilidades de futuro

Lilian Gonçalves, ex-atleta e atual coordenadora do Novo Basquete Brasil (NBB) e da Liga Ouro, destaca que essa falta de apoio é um problema que se estende ao mundo todo, mas ela acredita que o Brasil começa a trilhar o caminho certo. “Para aumentar o apoio, é necessário ter organização e acho que eles estão nesse caminho. Estive mais perto da Liga de Basquete Feminino (LBF) este ano e eles estão conseguindo transformar de novo em um bom produto”, comenta Helen.

Texto: Alexandre Perger
Foto: Divulgação