Rústico Teatral mergulha na política e encena peça sobre o Brasil atual

O teatro brasileiro tem uma bela história de engajamento político. Às vezes essa relação é mais subjetiva, escondida no texto, nos trejeitos dos atores. Noutras, mais declarada, assumida, como na nova peça da Cia. Rústico Teatral, que estreia neste sábado (6), no Galpão da Ajote.

“Se o Brasil é por nós…” conta a história de uma fábrica que está prestes a falir e por isso contrata uma empresa de consultoria para salvá-la. É nas soluções oferecidas ao diretor da empresa, bisneto do fundador, que a trama se desenrola e surgem temas do mundo do trabalho.

O diretor Samuel Kühn conta que o projeto nasceu após a leitura do livro Literatura, violência e melancolia, de Jaime Guinzburg. Interessado na relação entre os termos que dão nome à obra, Samuel levou ao grupo a temática da violência. Queria que trabalhassem cenas em que a violência estivesse presente, mas sem julgamento prévio. A partir daí, ele conta, uma parte do elenco teve vontade de falar sobre os tipos de violência em ambientes de trabalho, em especial nos programas de iniciação, como Menor Aprendiz, Jovem Aprendiz e similares.

Com a temática do mundo do trabalho em mente, a companhia fez entrevistas com trabalhadores que sofreram assédio moral. As histórias relatadas chamaram a atenção para a necessidade de abordar o tema no teatro.

Samuel ainda conta que havia uma pressão interna para fazer algo nessa linha. “O ator Alex Maciel já vinha provocando a companhia para trabalharmos com um teatro político, que buscássemos na dificuldade de compreensão do presente uma força para produzirmos uma arte engajada”, revela.

“A provocação foi aceita, principalmente porque nos perguntávamos sobre o nosso papel de artista que problematiza a sociedade no momento mais tenso de nossas vidas. A violência no espaço de trabalho e o teatro político foram o nosso norte desde o início”, completa.

Aproximação com os trabalhadores

O diretor explica que a temática política tratada de forma tão declarada tem a ver com a urgência de a arte se reaproximar dos problemas políticos e sociais de maneira franca, chamando a população para o debate.

“Entendemos também que o teatro anda distante dos trabalhadores e dos sindicatos, mas esses também andam distantes da arte. Estamos curiosos para saber qual será a adesão desse público sindicalizado”, afirma Samuel.

Para estimular essa aproximação, a companhia entrou em contato com sindicatos da cidade e colocou o preço do ingresso ĺá embaixo. “Sindicalizados pagam R$ 5. É um valor irrisório que servirá para pagar custos mínimos do espetáculo. Ninguém do elenco está recebendo nada. Estamos pagando para ver no que vai dar”, diz.

Para Samuel, isso não é para ser louvado. “Isso é para reafirmar a importância de haver na cidade um teatro que quer oferecer um olhar estético sobre a violência do atual governo federal, independente de recursos financeiros”, conclui.

Construção coletiva

Conceitos de Theodor Adorno e Hannah Arendt embasam o novo espetáculo da Rústico Teatral, que também discute as reformas da Previdência e Trabalhista. A dramaturgia foi construída coletivamente, a partir das entrevistas, das leituras e de improvisações que eram gravadas e transcritas após o ensaio pelo ator Leandro Felipe. “Neste trânsito de improvisação-transcrição-leitura-reescrita-improvisão, a dramaturgia ganhou o corpo atual”, conta Samuel.

Com um elenco de oito atores (Alex Maciel, Carol Spieker, Grazi Sousa, Leandro Felipe, Leonardo Baia, Lucas Alvarez, Michele Lenz e Tainara Voit), iluminação de Flávio Andrade e assistência de direção de Vinicius da Cunha, a companhia joinvilense se entrincheira em um momento que muitos se omitem.

“É momento de resistir e o fazer teatral, historicamente, sempre se mostrou como ferramenta em busca de esclarecimento e reflexão”, defende Samuel.

O espetáculo será exibido no sábado e no domingo, às 20 horas, no Galpão de Teatro da Ajote, que fica na Cidadela Cultural Antarctica. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada para estudantes, mais de 60 anos e professores e serão vendidos na bilheteria do teatro, uma hora antes do início do espetáculo, apenas em dinheiro.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Divulgação

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