Bandas autorais estão à procura de um público

Se você perguntar para um joinvilense que não seja muito ligado ao cenário musical o nome de três bandas da cidade, é capaz de ouvir como resposta o nome de três bandas de baile, dessas conhecidas por tocar em formaturas e festas municipais abertas. Talvez ouça o nome de algumas bandas cover mais tradicionais, dessas que sempre tocam o melhor do rock e do pop nacional e internacional nos bares locais. Mas se você quiser saber mesmo o nome de uma banda local, com músicas próprias, discos e shows marcados, aí fica mais difícil.

Não é por falta de bandas autorais. Desde o século passado a cidade conta com uma variedade de bandas que se dedicam às músicas próprias e há, sem dúvida, uma infinidade de histórias acerca desse passado recente. Esta matéria, no entanto, é sobre o tempo presente e a dificuldade que as bandas locais tem para consolidar um público mais fiel.

Vocalista da banda Mosaico Adulto e baterista da Somaa, Tiago Luis Pereira acredita que o problema não é a qualidade das produções locais. “Eu vejo que a qualidade geral das produções tem melhorado nos últimos anos. Hoje é possível fazer um playlist bem legal só com bandas da cidade. E isso é muito importante”, opina o músico que também é professor de bateria em uma escola da cidade. Segundo ele, hoje as bandas se preocupam mais com a qualidade das composições, das letras, mas a qualidade também se elevou porque hoje há melhores condições de gravação.

Para o músico, a construção de uma cena depende da conjunção de fatores: bons artistas querendo aparecer, boa estrutura para registrar esses e trabalhos e também um público receptivo e interessado pelo novo. “Acho que nos dois primeiros quesitos nós estamos bem e no terceiro precisamos avançar. Ainda não é comum as pessoas saírem de casa e pagarem pra assistir a um show de música inédita da cidade.”

Tiago não tem nada contra o cover, inclusive tem amigos que são. Aliás, ele próprio toca em bandas cover e conta que é essa atividade que sustenta o trabalho com as bandas autorais, que não dão retorno financeiro.

Para ele, é natural que o público opte pelo conforto do cover, pois está acostumado com isso há muito tempo. “Isso é não é condenável. As pessoas querem se divertir, e sair pra ver algo que já se conhece é bem mais garantido e eficiente. No entanto, sem o interesse do público e a disposição para consumir e repercutir os artistas daqui, nunca haverá nada de relevante sendo feito na cidade. Porque por mais que as bandas e artista amem tocar, compor e gravar, uma hora a coisa fica inviável”, opina.

O músico ainda lamenta que mais gente não possa conhecer e apreciar o trabalho atual das bandas da cidade, mas acredita que é a iniciativa das bandas que pode mudar essa situação. Um trabalho que, segundo ele, já começou. “A oferta, de certo modo, pode condicionar a demanda num futuro próximo. E acho que algumas bandas estão se esforçando nesse sentido. Aos poucos, o público vem respondendo.”

Sem deixar a chama apagar

Como inúmeros imigrantes, o porto-alegrense Lauro Brandão se mudou para Joinville por causa do trabalho no ramo metal-mecânico. Músico, ele é o idealizador da Terça Independente, um evento que reúne bandas autorais da cidade uma vez por mês em uma casa norturna da cidade.

Segundo Lauro, é preciso oferecer um espetáculo que faça as pessoas saírem de casa. “O clima precisa ser legal, a banda deve oferecer coisas legais, o som tem que ser bom e o bar ter um ambiente pra isso. Um show bem planejado. Um discurso contagiante. Caso contrário, você não sai de casa”, opina.

Ele acredita que Joinville tem muitas bandas boas – “talvez com poucos ajustes”, frisa – que podem oferecer isso ao público. No entanto, isso de nada adianta se as bandas não aparecerem para o público que consome. “Existe um público e existe um potencial incrível a ser explorado ainda, mas é preciso atitudes ganhadoras, que transmitam confiança para as bandas, para os bares e para o público. Ações que denotem constância e organização, pra tornar os eventos atrativos”, sugere o músico que atualmente toca na banda Voluttà.

É neste contexto que entra a Terça Independente. Para o idealizador do evento, é preciso criar os espaços, de maneira séria e profissional, para as bandas tocarem. Compor boas músicas, gravar clipes bem planejados, produzir constantemente, apresentar bem os materiais para o público e para a imprensa são algumas das coisas que Lauro destaca como fundamentais. E completa: tudo isso sem esmorecer, sem deixar a chama apagar.

É com essa postura que o produtor tem grandes planos para a Terça Independente. Ele pretende gravar uma coletânea com as bandas locais que participam do projeto e, a partir disso, alçar voos maiores. “Tudo custa grana, mas com ações inteligentes, podemos ir além”, afirma.

A 8a edição da Terça Independente ocorre neste 2 de maio, a partir das 20 horas, no Bovary, com ingresso barato e sinuca de graça. Mosaico Adulto e Nofaces tocam às 21 e às 22 horas, respectivamente.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Divulgação/Mosaico Adulto

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